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a Onda - II

Outubro, dia nove. Vinte três horas e seis minutos.

Me vejo e sinto leve.
Consigo diferenciar quem eu sou, da maneira mais pura que eu conseguiria me sentir. Eu estou sozinha. Consigo catalogar meu passado, como em pastas no computador, e percebi que, na verdade, meu passado não é meu passado. Tudo que eu vivi não passa de histórias que eu, como alma, vivi em outras dimensões ou, espiritualmente falando, em outras vidas. Pode soar estranho mas eu, agora, me sinto limpa e só consigo sentir a mim mesma. Todos os meus sentimentos variam mas cada um deles é sentido por mim e em relação à mim mesma. Permaneço sem sentir nada pelas outras pessoas, isso me alivia uma vez que sentir muito pelos outros tenha me afundado da última vez em que tive de enfrentar a depressão cara à cara. Consigo sentir meu corpo, minha pele macia e pálida como sempre foi, o cheiro de maçã do meu perfume caro mais o cheiro do sabonete. Minha pele pega cheiros bons com muita facilidade. Meus sentidos funcionam, agora, para eu me reconhecer como a pessoa que, de fato, eu sou, e eu tinha me esquecido disso. Eu modifiquei meu corpo nos últimos meses, meus sentimentos pelas pessoas e principalmente meu sentimento por uma pessoa específica. Eu cresci, eu aprendi a me amar e eu aprendi que nunca fui uma pessoa egoísta. Eu sei que nunca fui porque eu tenho, no momento, capacidade cognitiva de absorver tudo que meu corpo sente por mim mesma e, ao mesmo tempo, consigo estranhar o fato de não sentir nada por ninguém, afinal, eu sempre sou afetada demais pelas pessoas que eu gosto e isso me faz pensar nelas durante todo os meus dias. Consigo enxergar, quase que claramente, uma bifurcação da minha história. Consigo ver duas metades, quase que perfeitas, do meu passado, apesar de não enxergá-lo como passado. Me vejo outra pessoa, adaptada à dois gostos distintos e me esquecendo de mim mesma. Esquecendo do que me agrada, do que eu gosto de viver e, principalmente, dos pensamentos mais podres e carnais que eu sempre tive. Eu sou podre enquanto penso em sexo. Eu não escuto ninguém, eu vivo o sexo, não pratico. Não vou transar por prazer. Eu transo por sensações únicas, ligações fortes, sentimentos insubstituíveis e, de quebra, grandes olhos verdes revirados. Me redescobri esse último ano. Descobri o que é sexo para mim, o que é amor puro e verdadeiro e não paixão dispensável. Amor não é um sentimento, é uma vivência, como o sexo. É sentir algo inexplicável, incondicional e arrebatador que te derruba, tira teus sentidos e te leva ao orgasmo. Pelo menos aprendi que o meu orgasmo é diferente do das pessoas rasas. Quase sempre chapada, quase sempre morta e quase sempre molhada. Tudo que eu admiro é amor. Todos são amores. O amor puro e verdadeiro me modifica, e como uma geminiana, me deixo levar pela sede da modificação e pela vontade incongruente de amar e ser amada. Eu odeio amar. Eu sou única e eu mudo constantemente, apesar de me ver com uma personalidade forte e muito significativa para todo mundo que me cerca. Eu consigo enxergar as duas pastas que dividem meu passado na mesma frequência que me vejo como duas pessoas distintas, feitas para agradar dois caras em plena adolescência. Não sinto nada por ambos, não sinto nada por ninguém agora. Eu sinto muito por mim mesma e não quero que sintam por mim. Eu não tenho pena, me perdoe. Se você é um desses que está lendo isso, vai embora. Eu não te quero, não quero me mudar e não amo você. Eu não amo ninguém além de mim mesma e meu prazer, seja ele como for visto. As luzes estão fortes, a aura bem colorida e prende minha atenção. Me sinto num quadro de Gogh quando abro meus olhos e num quadro de Kandinsky quando os fecho. Eu sou pura arte. Me vejo englobada por ela a todo momento, principalmente nesse oceano. Olho para frente e vejo um espelho, eu me vejo sozinha, como sou. Não quero agradar mais ninguém porque, se eu agradar, é porque eu amo e, se eu amar, eu estou morta.
Thamires F
Enviado por Thamires F em 09/10/2017
Código do texto: T6137996
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Thamires F
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 19 anos
97 textos (1416 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/10/17 21:10)
Thamires F