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                                             O VENTO
O inverno sempre rigoroso do sul fez com que sobrassem mais terras para os imigrantes europeus quando da colonização do Brasil. E hoje no sul do Brasil, a mistura dessas etnias gerou um povo garboso, altivo que preza suas tradições e as demonstram nas festanças, e também no saudosismo orgulhosamente demonstrado.
E, em tempos de inverno, a chegada deste vento tem o poder de remeter os pensamentos dos iniciados na vida rural de volta a suas raízes, já ao neófito, ele impõe o reconhecimento para com as formas de vida na natureza.
Nos campos, a casa na fazenda tem na chaminé ativa o indicativo de vida. A fumaça da lenha queimada é carregada por esse vento, e nela está partes da madeira que outrora foi uma árvore em meio a tantas outras na mata, que sentiu o calor dos raios de sol, o frescor da água das chuvas, a carícia do orvalho na noite, viu nascer e crescer a sua volta, pequenos e grandes animais da floresta, também agitou e bailou com os ventos, e agora por fim é a fumaça levada por esse vento, juntamente com os cheiros do café e da erva mate escaldada pela água aquecida num fogão de lenha numa dessas madrugada de inverno.
Madrugadas estas que ainda sem o sol e com os campos da invernada cobertos de geada tem o peão vestido com roupas mais pesadas para proteger o corpo, deixando de fora e ao relento as mãos e as orelhas que chegam a doer, e os lábios que racham pela ação do frio, e sem trégua vai reunir o gado de leite para a ordenha. Das bocas e ventas dos animais naquela invernada o bafo quente em forma de fumaça sobe para ser carregado pelo vento, logo depois, o leite das tetas das vacas em contato com o frio produz uma tênue fumaça carregada com o cheiro do néctar da vida que será também levada pelo vento.
E quando os primeiros raios de luz no infinito formão o clarão no horizonte, vemos nuvens tomar formas, ouvimos os alaridos das aves e dos animais que vão aumentando gradativamente, como se naquela manhã algumas posições pudessem ser invertidas.
Já dia claro, a lide na roça vai longe, o pó que se levanta do bico do arado, o cheiro da terra revirada, o cheiro do animal mais o cheiro do couro dos arriames, também o cheiro dos frutos dessa lide são levados por esse vento.
Ainda nesses tempos de frio, as cavalgadas a esmos pelos campos, as festas onde tinha dança e moça bonita, os encontros amorosos. Os amigos ao redor de um fogo de chão com longas horas de conversa que o vento guardou e carregou pra longe.
De um trabalho duro ao final o produto acabado é levado do sul para o norte, de forma bairrista e mais sólida, de baixo para cima. E o solo de onde tudo brota, continua aos nossos pés, humilde lá em baixo, e nós sulistas saudosistas imitando o solo só queríamos que o Brasil também fosse de sul a norte, quem sabe poderia ficar ainda melhor.
De tempos em tempos sinto soprar por aqui um vento diferente dos outros ventos. Sua direção é constante do sul para o norte, de forma mais bairrista e mais sólida diria que, de baixo para cima. Quando de sua chegada, vai se impondo como a demonstrar o poder próprio dos solitários com personalidade forte. Nos intervalos de calmaria ele me leva a meditar sobre a bagagem que traz, a que deixa, e a que leva daqui. Já nos intervalos de sua ação, me faz ansioso por seu próximo passo, como quando ouço uma música executada pela orquestra.
Com consentimento do Autor:

Paulo Cezar Rozeto
Que apesar de ter partido, continua vivo em nossos corações. 
RoseRolim
Enviado por RoseRolim em 24/08/2007
Reeditado em 01/12/2010
Código do texto: T621918

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Sobre a autora
RoseRolim
Manaus - Amazonas - Brasil, 71 anos
72 textos (5358 leituras)
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