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Solidão

Tenho tanto dentro do peito que sufoca.
Mas esse tanto é tão nada, tão só, tão silêncio...

Tem muita gente aqui, sempre tem gente em todos os lugares... Mas eu estou sempre sozinha, com esse tudo sufocante dentro do meu peito, que sente necessidade de explodir.

Tenho vontade de gritar meu pedido de socorro, mas se fizesse isso agora nada mudaria (apesar da pontinha de esperança que me vem quando penso nisso: de que alguém me visse): os carros continuariam seus caminhos, as pessoas continuariam seus cursos, a vida continuaria seu curso e eu continuaria aqui, espremida, sozinha, sufocada, com o gosto de uma lágrima inútil na garganta. Se ela escorresse agora seria minha única companheira.

Acho que em algum momento da vida, não sei qual (acho que não foi sempre assim), atravessei um portal mágico e hoje vivo presa, sozinha, em outra dimensão. É como se eu estivesse aqui mas separada de todo o resto por um campo de força invisível.

Eu sinto tudo o que os outros sentem, mas eles são indiferentes a mim, esse ser esquisito... Eles me vêem mas não podem me enxergar.
Quando tento falar da minha dor, da minha angústia pra alguém é como se a pessoa não ouvisse ou como se eu falasse em outra língua ou se essa minha dor fosse irreal demais pra ela...
Aí as ilusões que crio são minha única felicidade, meu meio de sobreviver. Como elas me são caras, queridas!! Mas se algo me remete à realidade o chão some, é como se meus olhos se abrissem pra esse campo de força que me separa do mundo e que eu não consigo transpor, apesar de querer muito... De querer tocar as pessoas, um abraço, andar de mãos dadas com alguém...

Eu quero o mundo que todos vivem! Com todas as suas batalhas ele ainda é mais belo do que esse mundo paralelo que é só meu e não me interessa.

Eu quero pertencer!
Eu não sou de ninguém, nem minha, nem da rosa do Pequeno Príncipe...

Estou parada, olhos arregalados, peito sufocado, rodeada de vida e de gente, de automóveis e... Silêncio. Só o silêncio está aqui, o resto está lá fora, onde eu também quero estar.

Nunca me senti mais só do que no estádio lotado, torcendo pelo meu Corinthians, 34 mil pessoas fazendo o mesmo e eu... Sozinha. Como se não existisse.

Se eu desaparecesse agora, pluft, num passe de mágica, nada mudaria... Não sairia sequer no noticiário porque ninguém porque provavelmente ninguém iria notar.

O único mundo para o qual sou importante é aquele das histórias que eu crio. Copio essas histórias da vida das pessoas, de coisas que eu gostaria tanto de ter. A única coisa que está nesse mundinho sou eu, o resto eu crio, tento trazer de fora e os que tanto amo não sabem sequer que eu existo.

Será que eu existo?
Rita Brafer
Enviado por Rita Brafer em 31/08/2007
Código do texto: T633069
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rita Brafer
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Rita Brafer