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OVERDOSE II

Tomei outra overdose de inchação de saco. Inchou tudo o que podia
e, o que não devia. Como posso então, fazer poesia falar de amor e alegria? Quer saber de uma coisa? Pára. Pára esse mundo que eu quero descer! Não, eu não estou plagiando não. Essa frase era o Raul que costumava dizer. Eu sei, só peguei emprestada. O Raul tinha razão. Já não sei mais nada... É, estou fazendo uma releitura do Raul Seixas e, de todos quantos já passaram por meu caminho e, ou eu, pelos caminhos deles... Afinal, o que somos nós se não meras releituras do que vivenciamos? Essa história de boa e má índole não existe. Somos todos produtos do meio, não tem como ser diferente... Não posso mais suportar essa vida! Eu quero chorar e, negam-me esse direito. Eu quero correr, me prendem. Se quiser amar, me rejeitam. Sei que estou cheia de defeito, já nem tenho mais jeito de segurar tudo isso. E, não aceito ficar assim. Só, sem a metade de mim. Ah, minha metade adorada... (Olha, outra releitura: a música PEDAÇO DE MIM. E, essa eu desconheço até a autoria. Mas, sei que é cantada por Chico Buarque e Zizi Possi) Ai de mim, se dessa alma ora rasgada, tiveres sido mesmo amputada, isso está sendo o meu fim. Mas, vem. Diz pra mim: Por que eu sempre quero o impossível?! ¨Esse é o melhor dos mundos possíveis. ¨ Já vem ele de novo! Sai fora, Leibniz! Hoje, não quero papo contigo. Tu nunca foste um bom amigo. Como é possível, achar melhor essas duras penas? Hoje, eu vou mais longe. Vou à Grécia, em Atenas. Lá vou  encontrar... Liberdade. A Sherazade de Ziraldo diz que ¨a liberdade  se conquista com o exercício da criatividade.¨ Meu Deus! Mais criATIVA do que tenho (a)TENTADO ser, impossível! Mas cadê, que eu vou conseguir?! ¨Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!¨ Casimiro de Abreu é que sabia das coisas!... Naquela época eu desejava, ficava quietinha... planava no céu e, CONQUISTAVA, juro! Ai, meu santo! É pecado ficar jurando a toa! Se quiser acreditar, acredita, se não quiser, paciência!... Retiro meu juramento. Sou mulher, se não, seria um jumento. Coitado, não merece tal ¨sorte¨. Mas, quando é que vem a morte? A morte não me assusta. Só disso que estou vivendo é que realmente tenho medo. Agora, lembrei de Álvarez de Azevedo: ¨Mas essa dor da vida que devora, a ânsia de glória, o dolorido afã... A dor no peito emudecera ao menos se eu morresse amanhã! Quando falo contigo, no meu peito esquece-me esta dor que me consome: Talvez corre o prazer nas fibras d’alma: E, eu ouso ainda murmurar teu nome!¨ Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, como isso dói! Que vida insana! E, ainda dizem que sou humana. Será que sou? Não serei por acaso uma alienígena, ou quem sabe um bicho em extinção. Afinal, me pareço com alguém? Com quem? Só se for indígena, meio bicho do mato. Daqueles que sempre pagam o pato. E, vivo na CIVILIZAÇÃO HUMANA!
Talvez, não tão humana como Deus pretendia. Aí vem um agnóstico e, questiona: Mas se Deus pretendia porque não é assim? Afinal Deus não pode tudo? Ah, criatura, sai de mim! Nunca ouviste falar em livre arbítreo?! Todavia, não vou te doutrinar, eu não me iludo. Mas, ainda assim, o ideal de humano é uma utopia. O mundo é só selvageria. Roubo, sangue, morte noite e dia. Os homens são pior que bichos selvagens, porque os bichos só atacam pra se defender, sobreviver, comer. Mas, o bicho homem mata por qualquer trocado. E, dependendo de quem o fez, fica tudo abafado. Ninguém está preocupado com o Zé povinho, tem que engomar o colarinho. Também não importa se os lares acabaram se hoje tudo virou favela. Afinal, em fevereiro tem desfile na passarela, tem Mangueira, tem Salgueiro, Beija-Flor e, tem Portela. Pão e circo, para em outubro novas eleições, vamos reeleger os vilões. Ops, os Patrões da Nação de pé no chão, que na maioria sobrevive à água e pão. Mas, homens inteligentes, estudados, competentes, estão pensando em negociar nossos mananciais, que beleza! Assim vão ampliar a riqueza de suas contas em bancos estrangeiros. E, nós pobres desordeiros, ainda reclamando, fazendo greve. Como esse povo se atreve, se nada sabem e, aqui já nem cabem. Se morrer um, dois, três, um milhão, é lucro pra nação, menos sujeira pra gastar sabão, pra distribuir sopão e sacolão.
Aí vem o Raulzito de novo: ¨Eu sou a mosca que pousou na sua sopa...¨ Mas, que sopa? Na mesa do pobre não tem mais isso, não! O sacolão também foi desviado pra cueca de algum destrambelhado. Mas, hoje, eu não quero mais pensar. Quero desse mundo descer. Por favor, manda parar. Ou então, vou quem sabe, adormecer. Pode ser que dormindo eu encontre o mundo de meus sonhos. Aquele onde não existe a miséria humana. Onde o homem vive com e, por amor ao outro. Sim, um mundo onde impere o verdadeiro amor. Onde os jovens respeitem as experiências dos idosos e, procurem aprender com eles, valorizando toda a bagagem acumulada que esses trazem consigo. E, gratos por estes terem preparado no passado, com tanto sacrifício e carinho, o terreno que hoje pisam, também ofereçam a esses, um pouco de carinho. Onde os idosos não se sintam diminuídos por ver que um jovem hoje, pode fazer muito mais do que ele pode fazer em seu tempo, que se orgulhe do progresso dos jovens e, auxilie quando preciso e possível. Que as mãos sejam levantadas apenas para entregar rosas e, louvar a Deus. Que o som das vozes se propague no canto e no riso. E, que ter dinheiro não seja mais preciso para se viver em paraíso. Mas, isso é sonho, é utopia. E, eu já nem vou dormir mais porque raiou o dia. O galo já está cantando, o povo se levantando pra mais um dia de agonia. Acabou meu tempo, como lamento tudo vira esquecimento. Mas, não acabou minha rebeldia, não morreu minha fantasia, nem a dor que eu sentia!


Tânia Regina Voigt
Enviado por Tânia Regina Voigt em 06/09/2007
Reeditado em 13/04/2009
Código do texto: T640686

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Sobre a autora
Tânia Regina Voigt
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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