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rasgo-me por dentro e o sufoco quase me faz morrer e penso forçada pela circunstância a rebentar de urgência de pensar e isto apesar de me querer libertar das correntes pesadas que insistem em amarrar-se ao meu corpo deixando-o quase inactivo adormecido ao vento e à chuva que martela nas pedras da calçada aos empurrões que os seres loucos de pressa lhe arrematam a cada esquina suspeita

pareço de barro que não foi ao forno e desfaço-me a cada gota que me escorrega e suspiro suspiros que surgem de um fundo que hoje faço por não conhecer talvez porque em certas circunstâncias o tenha conhecido bem demais

oh maldita sorte do reconhecimento cego até ao limite para quê continuar a andar pela calçada quando as pedras são tão mais pequenas que aquelas que levo amaradas aos pés por correntes que pesam toneladas de desejos por cumprir se ao menos pudesse deitar-me por instantes e descansar no corpo de todo o teu ser omnipotente e entregar-me aos teus cuidados de pai e amigo para todos os momentos cruciais

desculpa mas por vezes revolto-me com toda a chuva que mandas aí de cima como se o sol fosse privilégio de alguns e os restantes – aqueles que se desfazem como barro cru -  passam os dias à sombra arrepiados do frio que entranha na carne apodrecida

quando te vi um dia destes e recebi o teu aviso – já o arco-íris se desfazia no céu – percebi a tua mágoa e senti a tua presença caí no fundo de mim e tranquilizei o meu espírito sedento do futuro mas não deixei de lembrar os seres que deixas sem alento deitados na terra árida ou em território de guerra com aqueles corpos que já não têm força para caminharem nem para enxotarem as moscas que os cercam como abutres ansiosos por pousar e aliviar os vermes que os irão devorar quase vivos quase mortos os olhos a saírem das caveiras vítimas da fome e os membros quase descolados das carcaças de onde sobressaem ventres que têm o formato de uma bola deformada e eu olho para esses seres e morro por instantes

continuo rasgada por dentro quase obcecada na vontade quase utópica de ser feliz. não feliz todos os dias ou todo o dia mas na vida que se faz a cada instante sem presente porque apenas tenho em cada passo o passado e o futuro. o passado que já foi futuro e o futuro que será também ele passado

penso em ti e ajoelho-me para pedir-te que olhes que vejas esta tua criação que anda perdida nesta selva de loucuras e que ainda está impedida de entrar no teu jardim de éden de onde foi expulsa um dia. todos nós precisamos de descansar no teu corpo imaginado e escutar a tua voz de pai e sentir o teu amor de pai e puder contar com o teu papel de pai sem que contudo o representes num palco ou em qualquer outro cenário que não o da realidade se por acaso esta não for meramente virtual e inimiga de todas as nossas esperanças

continuo rasgada por dentro e penso em malmequeres para me colorir um pouco e sorrir sem esforçar os músculos faciais enquanto caminho pesada pela calçada de pedra a levar com o vento e a chuva que vai desfazendo o meu corpo feito de barro que não foi a cozer

lunapensativa
Enviado por lunapensativa em 10/05/2005
Código do texto: T16029
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Sobre a autora
lunapensativa
Portugal, 44 anos
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