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FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO

As primeiras imagens reatam alguns fatos fragmentados nos jornais envelhecidos. A verdade se fragmenta no tempo. A relação amistosa entre as elites norte-americanas e sauditas é delineada no petróleo e na composição das grandes empresas bélicas. Não há choques de civilizações quando a linguagem está pautada nos interesses econômicos multinacionais.
O efeito devastador de uma bomba de fragmentação. A platéia do cinema não percebe a gravidade do ferimento que se alastra nas consciências. Aos poucos, o jogo político e a manipulação da informação tecem a rede monstruosa de interesses ocultos. Relações que se transformam no jogo do poder (ou num quebra-cabeça) e são demonstradas a partir da conveniência dos protagonistas.
11 de setembro de 2001, 7 de outubro de 2001, 19 de março de 2003, 11 de março de 2004... As bombas explodem. As relações econômicas e políticas são mascaradas na luta contra o terrorismo. O significado da vida humana é traduzido nas armas químicas e nas possíveis relações com a rede terrorista Al Quaeda. As diferentes culturas são representadas nas guerras messiânicas dos líderes enquanto os inocentes, envolvidos com as próprias perdas e realizações, permanecem nas lutas cotidianas. Os argumentos que “justificam” a guerra não encontram representação nos tantos corpos amontoados nas ruas, no pranto desesperado do menino que ontem empinava uma pipa, nos funerais dos heróis de guerra que não amadureceram para compreender o ato de coragem...
Coragem ou desespero?
Os jovens desempregados da pequena cidade norte-americana só encontram a sobrevivência no alistamento militar. A perspectiva da morte em terras distantes é também a chance de uma vida universitária. Destruir para construir... Nas palavras do presidente Bush “Promovemos uma guerra para salvar uma civilização”. Será possível a interpretação desta afirmação?
Gradativamente, os fatos expostos constroem a ordem cronológica. A tragédia ganha dimensões incalculáveis e direcionamentos planejados em estratégias empresariais. A humanidade está sob ataque!
Cada um assume o papel do julgador diante dos depoimentos e imagens apresentadas. Mas todos estão infectados pela dor e talvez sejam incapazes de assumir o distanciamento necessário para a compreensão.
O documentário de Michael Moore mostra uma face da realidade de uma guerra forjada do bem contra o Mal. Será ficção? Ou um sonho como o próprio narrador questiona nas primeiras aparições?
Os argumentos são selecionados com precisão nas imagens e discursos editados do roteiro. Um instante, um descuido... A feição do presidente vacila entre a desorientação e a ironia. Compreendemos as reais intenções em alguns olhares, ficamos divididos entre a impotência e a indignação...
Lembro da concepção de “banalidade do mal” de Hannah Arendt quando observava o julgamento do líder nazista Eichmann em Jerusalém e concluía pela personalidade “normopata” determinada pela obediência e disciplina. Na sua análise, Eichmann não era um perverso ou um paranóico, era apenas um homem que perdeu a sensibilidade ao mundo distante do seu umbigo, fortaleceu a tolerância diante da dor alheia e não se sentia responsável pelos atos que praticava nos campos de concentração porque apenas cumpria ordens.
A banalização do sofrimento está propagada nas sociedades contemporâneas que, fragmentadas, perderam a capacidade de ação e reação. A coragem do cineasta Michael Moore e a indignação da platéia mostram que ainda é possível uma ação coletiva contra o comportamento de “normopatia” caracterizado pela resignação. Não podemos nos alienar das explosões diárias que ainda mutilam e matam inocentes, das decapitações que vemos divulgadas ao vivo, dos discursos que ainda tentam justificar a irracionalidade...
O filme encerra com aplausos. Os espectadores tentam remontar a serenidade, mas estão marcados pela emoção diante de uma ferida exposta. Ainda não perderam o discernimento e podem sentir sofrimento diante da dor alheia, da manipulação, da injustiça... Pensar e julgar, sentir e agir...
Somos sujeitos da compaixão.
Fahrenheit 11 de setembro é um documentário que deve ser assistido por todos que não acreditam na banalização do homem.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 30/05/2005
Código do texto: T20782
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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