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JACOB O MENTIROSO - JUREK BECKER

“Parem de se suicidar, dentro em breve vocês voltarão a precisar de suas vidas. Parem de não ter esperança, os dias de nosso martírio estão contados. Esforcem-se para sobreviver, afinal vocês têm pratica nisso, conhecem todos os milhares de truques por meio dos quais se faz a morte cair no vazio, claro que vocês conseguiram até hoje. Apenas sobrevivam os últimos 400 quilômetros, então terminará a sobrevivência, então começará a vida.”
Jurek Becker

Era proibido manter árvores vivas no gueto e os judeus aprisionados se acostumaram com as calçadas lisas sob a vigilância cerrada dos alemães. “Uma árvore, o que é isso?” O narrador se surpreende com a indiferença de todos com as árvores.
Por que pensar em árvores quando não se tem o que comer? Por que pensar na vida das plantas se a própria é precária?
Árvores... A metáfora é perfeita para iniciar a trajetória de Jakob. Raízes, troncos e folhas, segurança de uma sombra, tantas lembranças, recortes de momentos, ausências no deserto monitorado, necessidade de fixação no solo para extrair os nutrientes para o futuro...
Jakob é repreendido por um vigia por estar na rua depois das oito e mandado para o quartel. Ele sabe que não desrespeitou o regulamento, mas tem a certeza de que sua vida cessará na mão das autoridades pelo equívoco ou descaso do jovem soldado.
No quartel, depois de momentos de angústia, é liberado e obrigado a se apressar para chegar em casa antes do horário estabelecido. O abuso da autoridade ofusca o contraditório. O judeu, preso num gueto de uma pequena cidade polonesa, tem sua vida cerceada pelo olhar atento do inimigo e passa os dias cercado pela morte.
Jakob inventa uma pequena mentira como uma arma para se defender do desamparo e do desespero. Confidencia que tem um rádio e ouviu que os russos se aproximam vitoriosos. Estão a apenas 400 quilômetros. A notícia se espalha e Jakob se torna o centro de atenções. Todos os dias, ele é questionado pelos olhares, silêncios e indiscrições sobre a situação no front.
A esperança renova as raízes. Os prisioneiros ganham novos alimentos e restauram suas perspectivas. As construções passadas surgem como alicerces para o futuro. A mentira de Jakob cresce e como uma árvore frondosa dá sombra e frutos aos judeus. Muitos fazem planos de como será a vida depois da libertação.
Os russos se aproximam no escuro. Jakob passa noites tentando resgatar seus conhecimentos de geografia e criar novidades do front, táticas de guerra, batalhas vitoriosas... Os russos se aproximam...
Jakob muitas vezes se recrimina de ter ousado a primeira mentira, tenta interromper a comunicação com o “rádio” imaginário, sente-se angustiado com a continuação da notícia manipulada, mas tem a certeza de que a verdade significaria a morte absoluta. Quando recriminado pelo professor e médico Kirschbaum, Jakob fortalece a importância de suas palavras:
“- Você já viu alguma vez com que olhos eles me pedem novidades? Não? E sabe, por acaso, da urgência com que necessitam de uma boa notícia? Você sabe?”
“- Deixe-me em paz com os seus ‘mesmo assim’! Já não lhe basta que quase não tenhamos o que comer, que um em cada cinco de nós morra de frio no inverno, que a cada dia a metade de uma rua vá para o transporte? Será  que tudo isso ainda não basta? E quando eu tento aproveitar a derradeira possibilidade que os impeça de se deitar de uma vez e morrer, com palavras, você entende? Com palavras é que tento. Pois não tenho mais nada!”
A morte de Kirschbaum será desvendada pelo narrador depois de terminada a guerra quando ele procura o ex-oficial que mora na Alemanha Ocidental. O médico fora conduzido para examinar o líder nazista que sofrera um ataque cardíaco. No trajeto, com o pretexto de tomar comprimidos para azia, suicidou-se para não examinar o inimigo.
Durante a visita, o ex-oficial Preuss apresenta um documento de desnazificação e tenta lavar a alma confessando o que pensa sobre a funesta época. O narrador não quer ouvir, despede-se e, à porta do prédio, ainda observa Preuss respirar fundo e dizer “Vai ser maio de novo”. Para muitos as estações se renovam...
 A infância mutilada é retrata em Lina. Menina de oito anos adoentada que permaneceu no gueto clandestinamente depois da remoção de seus pais para um campo de concentração. Jakob cuida da pequena escondida no sótão, tenta explicar os significados de tudo que não existe no gueto, compartilha a possibilidade de transformar a árida realidade em ficção.
Diante da insistência de Lina, Jakob simula a apresentação do rádio. A menina descobre o segredo de Jakob, mas se acumplicia no silêncio. Momento de rara poesia em que a infância e a maturidade convergem à margem da realidade. Jakob finge ser o “tio dos contos” no programa de rádio e conta a história da princesa doente que desejava uma nuvem e se curou quando recebeu algodão do formato de uma nuvem. É necessária a reconstrução diária da mentira para a permanência da esperança.
Os dois finais nos desconcertam. Estamos contagiados de esperança e temos certeza de um final feliz.
No primeiro desfecho, Jakob tira a estrela do uniforme e tenta fugir com um pequeno alicate, tenta romper as cercas da irracionalidade, mas é morto pelo vigilante sob os poderosos holofotes. O motivo de sua fuga vira uma incógnita para todos os moradores, porém a chegada dos russos representa a liberdade do gueto.
O narrador declara que é um dos poucos sobreviventes, assim o primeiro final é apenas um capítulo que não se realiza.
No segundo final, todos os judeus são removidos para o campo de concentração. No vagão apertado e abafado, o narrador encontra Jakob e Lina. Lina relembra o conto de fadas, que ouviu quando Jakob imitou uma voz no rádio, da princesa doente que desejava uma nuvem e melhorou quando lhe deram algodão do tamanho de uma nuvem. Lina se decepciona quando descobre que as nuvens não são feitas de algodão. A metáfora se esvai no céu fadado ao escurecimento, é atropelada pelo vagão de oprimidos nos trilhos finais. É verdade? Jakob esclarece “Não de todo. Ela desejaria uma nuvem. O gozado é que ela pensava que as nuvens fossem de algodão, e só por isso ficou satisfeita com o algodão?”
O conto de fadas espelha a mentira de Jakob. Todos desejavam a libertação, e só por isso acreditavam nas notícias do front, na existência do rádio, na possibilidade de amanhã...
O narrador chega à fresta, vê aldeias e campos cultivados, vê árvores... Anoitece e ele permanece em pé observando as sombras de árvores, não pode dormir... “Estamos viajando, para onde viajamos?”
O escritor Jurek Becker nasceu na Polônia em 1937 e passou a infância num gueto semelhante e num campo de concentração. Sobreviveu e, como o narrador, costura suas vivências na ficção e alerta para a necessidade de sempre manter a esperança enraizada em nossa vida.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/01/2005
Código do texto: T2285
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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