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DE MINHA CELA VEJO PÁSSAROS - ENY CARBONAR


“Existem muitos jardins no mundo. Cada um com sua história. O nosso, além da beleza que nos proporcionava, livrou-nos, nos dias de chuva, das enchentes e da lama que tanto nos deprimiam. Era um amigo colorido, transmitindo vibrações de otimismo e esperança.”
Eny Carbonar

Um presídio feminino... Universos tão distintos, mulheres ímpares e o mesmo destino: a detenção. Todas as crônicas são relatos vibrantes de um olhar atento sempre disposto ao terno abraço maternal e à rígida disciplina.
O texto estaria recluso nas grades das penas e das culpas, se não fosse a ousadia da autora em abrir a janela de um mundo que não ousamos conhecer com suavidade e poesia. O título “De minha cela vejo pássaros” é a centelha que ilumina o ousado trajeto poético do grande vôo. As personagens, mulheres sem nomes, ganham espaço e nos surpreendem com algumas observações, retalham suas vidas e costuram suas habilidades manuais em telas que se tornariam conhecidas nos espaços culturais mais badalados de Curitiba.
Os trabalhos de tecelagem alicerçaram um atelier de sonhos. Era possível tornar a realidade produtiva e colorida, ir além das muralhas dos preconceitos...
A diretora do presídio encontra cada personagem em seu ingresso no mundo carcerário, conhece os delitos e os respectivos motivos sem preconceitos, aconselha, busca alternativas, enquanto a escritora recria vidas dilaceradas nas possíveis inserções na sociedade. A mulher marginal torna-se o centro das atenções. Conseguimos encontrar nossos sentimentos em algumas narrações, nossos medos e ansiedades em algumas atitudes.
Algumas apenadas foram vítimas da passionalidade, da violência, da falta de oportunidades; outras assumem a posição de ervas daninhas e tentam construir uma face distante e rebelde. A diretora se aproxima, mostra sua autoridade na ausência de medo e com humanidade tenta costurar as asas que prendem as detentas num solo depauperado de horizonte.
Há grades, tristezas nas impossibilidades... Não se escuta o apito do sorveteiro, algumas famílias desaparecem, outras se reaproximam solidárias, porém uma homicida declara que, apesar da tristeza do cárcere, ainda resta beleza, e confidencia: “De minha cela vejo pássaros...”
No universo literário criado por Eny Carbonar não há celas. Existem mulheres que se identificam nas singelas letras das iniciais fictícias e se aproximam de nós quando desvelam nossos misteriosos instintos: a violência, a perversidade, a paixão, a maternidade... Todas as características humanas são tratadas com respeito e ordem no presídio feminino.
O mundo jurídico é demonstrado por uma advogada atenta que, apesar dos breves comentários sobre as injustiças vivenciadas, não tenta convencer o leitor de uma opinião crítica, ou estabelecer verdades quanto à administração carcerária. Apenas sustenta um mundo verdadeiro de pequenos pássaros em cativeiro, seus trajetos e sonhos, suas lutas e desencantos, recomeços e regressos...
Eny Carbonar foi indicada por Túlio Vargas, então Secretário de Justiça, para assumir o cargo de diretora do Presídio Feminino em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, em 1975. O convite é uma atitude pioneira e audaciosa para uma época de presídios administrados por homens e a aceitação, o retrato da coragem e persistência que marcou a vida da escritora.
Na apresentação do livro, Túlio Vargas afirma que a revolução nos métodos de administração prisional com a prática de novos valores de ressocialização implementados por Eny Carbonar resultou em estatísticas que provaram que ela estava certa.
“Acreditamos haver derrotado visceral preconceito, quando convidamos Eny Carbonar para a direção do Presídio Feminino. Sabíamos que nenhuma política de humanização da execução penal, naquela área do Sistema Penitenciário Paranaense, poderia prescindir da lucidez e sensibilidade da mulher, ela que sabe, com aguda percepção psicológica, compreender as inquietudes e dramas sociais desse universo carcerário.”
Durante todo o período em que ocupou a direção do presídio, “aproximadamente dois mil e setecentos dias de trabalho”, humanizou a vida carcerária. Compreendendo a precariedade das vidas ali depositadas, consagrou a liberdade de expressão, instituiu incentivos criativos, estimulou a produção de trabalhos manuais, destacou as criações das detentas na sociedade, levou artistas e personalidades a conhecerem o mundo carcerário.
Amarguras e construções, mitos e realidades... Tantos relatos e confissões constroem as asas dos pássaros da escritora. Já não percebemos as grades...
As declarações das próprias detentas, transcritas no livro, declaram que o ambiente no presídio propiciava mais oportunidades do que o mundo lá fora. Presas, elas conseguiram desenvolver suas habilidades, criar seus filhos nas creches estruturadas e conceber um novo nascimento no mundo. Uma “viúva da prisão” libertou a percepção da realidade, quando lhe perguntaram sobre o que faltava no presídio:
“O que está faltando é lá fora, não aqui. Está faltando amor, compreensão entre as pessoas e também noção de humanidade. Quando tudo isso deixar de faltar, seremos em número menor aqui dentro.”
Eny Carbonar consagrou, com maestria, sua direção no presídio com o unânime reconhecimento da sociedade e imortalizou suas vivências num livro ousado e inovador. O leitor se emociona e reflete sobre a complexidade encarcerada nas crônicas e sobre a responsabilidade de todos na construção do presente. Se valeu a pena?
“Tivemos decepções, é verdade, mas a vida não nos havia prometido somente horas serenas.”
“Mais significativas foram as compensações. Valeu a pena! Se valeu!”
Observamos os pontos de exclamações nas orações finais da narração e sentimos o orgulho de quem acredita no que faz, a luta de quem revoluciona o existente em busca de um mundo mais justo e humano... Sentimos que vale a pena ser forte para lutar por nossos ideais e reconstruir uma nova realidade em uma sociedade desacreditada.
Conheci Eny Carbonar no lançamento do livro “A verdade sobre Guanella – um drama da FEB”, de Alfredo Bertoldo Klas, e lembro de meu encantamento com a mulher de olhar firme e de palavras fortes. Desejei ter o futuro emoldurado em meu corpo como o desenho que o tempo firmava em sua face. Admirei-a por sua desenvoltura e elegância, sem ainda conhecer a criadora dos pássaros... Sem saber que a verdadeira revolução está na construção de uma história digna e significativa.
De minha janela vejo pássaros... Vejo um belo vôo infinito... Vejo Eny Carbonar dirigindo uma revoada de passarinhos rumo ao divino jardim colorido...

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/01/2005
Código do texto: T2370
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
614 textos (784189 leituras)
2 áudios (1253 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 01/10/16 07:23)
Helena Sut

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