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VERDADEIRAS INTENÇÕES - EÇA DE QUEIROZ


O período de expansão marítima e de grande comércio destacou Portugal por sua coragem e bravura na descoberta das novas terras. O mundo se redesenhou sob as rotas das caravelas portuguesas. Contudo, a partir do século XVIII, a realidade portuguesa se distanciou da dinâmica das sociedades européias e paralisou nos limites sociais e econômicos de sua extemporaneidade. Portugal entrou em colapso histórico e a resposta a esta sociedade decadente e nostálgica foi o excesso de formalismo.
A sociedade estagnada é objeto da percepção do artista. A literatura reabre a possibilidade de questionamento dos sujeitos e dos objetos, possibilitando a construção de uma nova realidade...
"Se há sociedade que reclamasse um artista-vingador - é esta! É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso, e com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre". Assim, Eça de Queiroz se pronunciou quando iniciava o ataque contra o "formalismo oficial" - funcionalismo burocrático e conselheiral ridículo e grotesco, na carta enviada a Teófilo Braga, em 12 de março de 1878.
A oportunidade literária, aliada à verdadeira intenção do escritor, permite-nos ir além dos enredos traçados e criar diálogos paralelos entre personagens do mundo de Eça de Queiroz. Aproveito a liberdade de leitora para improvisar o encontro:
Conde de Abranhos, Ministro da Marinha de Portugal, conhece Conselheiro Acácio, outrora Diretor Geral do Ministério do Reino, numa reunião de agentes do poder público e interessados.
O conde, envolvido no seu mesquinho comprometimento, tece lugares na vida pública, ora na situação, ora na oposição, com pretensiosas justificativas para sua vulnerabilidade política, e afirma “- Isto é um dia histórico...” “A Câmara ergueu-se como um só homem e eram bravos, eram berros!”, enquanto o Conselheiro, "vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito", saúda “- El - Rei!”, erguendo-se um pouco da cadeira, e finaliza “-Deus é imperscrutável em seus decretos.”
O diálogo imaginário nos diverte. O Ministro da Marinha deixa transparecer que não gosta do mar, não entende de embarcações e não conhece geografia. Em seu entendimento, tratam-se de conhecimentos de pouca expressão. O Conselheiro, ex-diretor geral, com gestos medidos, desfia seu repertório de vocábulos eruditos e redundantes... Sentenças que desafiam a compreensão dos mais perceptivos.
Tantos personagens representativos deste formalismo burocrático, espelhos de uma sociedade que necessitava de mudanças, enriquecem a literatura com perfis humanos. Eça de Queiroz satiriza a sociedade com o objetivo de destrui-la. Busca, na novela "O Conde de Abranhos", espelhar o retrato de alguns contemporâneos portugueses, num protagonista - Alípio Abranhos - bem sucedido na política, apesar de ser um pobre de espírito, pedante e mau caráter. A novela é narrada pelo seu secretário pessoal que, por sua idiotia, demonstra-nos a nulidade do personagem e da realidade.  Uma obra literária maravilhosa que nos diverte enquanto nos alerta para os perigos de alguns homens construídos para serem engrandecidos em seus vazios.
Conselheiro Acácio, a princípio um personagem secundário do romance "O primo Basílio", seduz definitivamente o leitor quando cita redundantes lugares comuns com esmerada linguagem. Os contextos se perdem e as realidades ficam definitivamente escondidas sob as lunetas escuras que sobressaíam na pálida tez do conselheiro.
O personagem foi consagrado como um dos mais significativos do universo de Eça de Queiroz, sendo introduzido na linguagem um novo significado para a palavra. Pela força do personagem do conselheiro, a palavra acácio integrou-se ao vocabulário comum e se transformou num substantivo que define qualquer figura pomposa e vazia.
Eça de Queiroz é considerado um Voltaire de sua época, disposto a combater o parasitismo, o beatismo e o cretinismo com a pena e com sarcasmo. Ressalte-se que Eça não era um filósofo, mas um escritor inclinado a desvendar o mundo com as armas possíveis.
O autor português formou-se em direito em 1866, e após alguns anos estabelecido como advogado em Lisboa, ingressou em 1873 na carreira política, sendo nomeado cônsul em Cuba, Inglaterra e França.
Apesar de nunca ter vindo ao Brasil, tinha estreitos laços. Seu primeiro alimento foi extraído dos seios de uma brasileira e o primeiro consulado a que concorreu foi o da Bahia, contudo, foi preterido por suas atividades nas Conferências do Cassino. Durante dezesseis anos, foi um importante colaborador da Gazeta de Notícias, do Rio de janeiro, e se tornou o autor português mais lido no território brasileiro.
Mas... Por que falar do realismo de Eça de Queiroz? Por que ler o desenvolvimento de vidas e buscar nas percepções do leitor a reconstrução de uma nova realidade?
Não teria sido esta a intenção de Eça de Queiroz quando escreveu sobre a decadência da sociedade portuguesa? Não teria a mesma intenção motivado Voltaire a lançar-se com sarcasmo contra uma verdade existente?
Ministros, conselheiros, funcionários... Continuam ministros, conselheiros e funcionários contextualizados na realidade do século XXI. Ainda existem falsas realidades a serem combatidas com verdadeiras intenções, discursos acacianos a serem repudiados por quem exige mais profundidade e compromisso com as idéias... A literatura denuncia a vida cotidiana. Será que personagens tão caricatos permanecem apenas nas páginas literárias do autor português do século XIX?
Será que identificamos um conselheiro no discurso que muitas vezes nos habituamos a ouvir e proferir na sociedade do espetáculo? Ou será que temos apenas discernimento para a crítica literária?
A escolha de uma carreira é o momento de assumirmos nosso personagem na realidade. Alinhavarmos nosso enredo, nossas vivências para que nossos atos sejam lidos pela sociedade com respeito. Para tanto, necessitamos de autocrítica.
Indagações se perdem nos alçapões de cada um. Realidades e intenções... O retrato da sociedade portuguesa do século XIX incitando a busca da realidade brasileira de tantos séculos.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/01/2005
Código do texto: T2386
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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