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GRACILIANO RAMOS - NOSSO VELHO GRAÇA

 
Tento resgatar o mundo por intermédio dos grandes escritores. Refleti medalhões e li decretos e leis, caminhei nos cargos do serviço público federal e encontrei dois grandes nomes da literatura e dois caricatos personagens. Resgatei uma percepção mais crítica e elaborada e aproveito para compor o presente.
A ficção muitas vezes tem dificuldades para dar credibilidade à realidade, mas acredito que Machado de Assis e Lima Barreto conseguiram, no nascimento da Velha República, retratar alguns tipos característicos e contextualizá-los, além de encantar com o perfil psicológico dos personagens, analisados por ângulos de aguda perspicácia...
Vidas são imortalizadas em palavras, sustentadas na linguagem.
Mas o tempo passa e com ele os argumentos. Os personagens e as ações são contemporizados e surgem novas ficções, novas realidades...
Durante a segunda época do Modernismo brasileiro (neo-realismo) surge Graciliano Ramos, com obras como Caetés, Angústia, São Bernardo,  fortemente existencialistas, escritos em tom confessional, em que o autor explora e retrata o interior dos seres em conflitos e as respostas que procuram. Além do consagrado livro Vidas Secas em que o narrador relata e elabora a vida e o cenário ressecado de uma família de retirantes no agreste nordestino.
Graciliano Ramos é, indubitavelmente, um dos precursores do romance intimista, com a atenção voltada para os dramas existenciais, na literatura brasileira. Mas não podemos esquecer de destacar que ele também é um dos precursores da lei de responsabilidade fiscal, pelo menos no que tange a aplicação de suas disposições, pois, reconhecidamente, foi um administrador público para um mundo digno, guardião dos dinheiros públicos e fiel cumpridor da lei.
É, leitor... Graciliano Ramos foi eleito prefeito da cidade de Palmeira dos Índios, no sertão alagoano, e assumiu o cargo em 1928, renunciando em 1930, quando assumiu a direção da Imprensa Oficial do Estado de Alagoas e, posteriormente, a direção da Instrução Pública de Alagoas, ocasião em que revolucionou os métodos de ensino utilizados no Estado.
É autor dos célebres relatórios enviados ao Governador do Estado de Alagoas, Sr. Álvaro Paes, resumos dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios nos anos de 1928 e 1929, em que a verve de escritor é revelada, abordando assuntos rotineiros de uma administração municipal. Destaco alguns trechos para deleite do leitor:

"O principal, o que sem demora iniciei, o que dependiam todos os outros, creio que foi estabelecer a ordem na administração."
"No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985. E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores."
"Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores, o comando do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do município tinha a sua administração particular, com prefeitos, coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam."
"Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora muito útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam."
"A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um buff. Pagamos até a luz que a lua nos dá."
"Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles."
"Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me referia quando eles estiverem executados, se isto acontecer. Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande. "

Graciliano Ramos consolidou uma nova forma de fazer política, voltada para o interesse da maioria da comunidade, e consolidou um código de posturas, em 28 de agosto de 1928, com 82 artigos, fora os parágrafos, com dispositivos rigorosos, sob pena de pesadas multas, proibindo, por exemplo: "ter cães soltos sem mordaça" e "estender couros em lugares habitados".
Muitos escritores imprimiram a suas obras literárias conotações políticas. Graciliano Ramos, um dos maiores expoentes do chamado Romance de 30, fez o caminho inverso: transformou a mais árida política em literatura.
O primeiro romance de Graciliano Ramos, Caetés, foi publicado em 1933. Curiosamente, o escritor foi descoberto quando um editor do Rio de Janeiro leu os famosos relatórios, publicados na imprensa oficial, e reconheceu o talento e a aptidão literária do autor, enviando-lhe um recado: "Mande o livro que você tem guardado na gaveta".
Graciliano Ramos sentia-se um servidor público, nomeado pelo voto, para cumprir e fazer cumprir normas.
Em 1936, foi preso sob a suspeita de ter ligações com o Partido Comunista Brasileiro, sofrendo inúmeras humilhações nos presídios por onde passou. Solto, filiou-se ao Partido Comunista em 1945 e escreveu o livro Memórias do Cárcere, depoimento pessoal acerca da situação dos presos políticos durante o Estado Novo (publicado em 1953, meses após o seu falecimento). Mas isso é motivo para uma nova coluna...
Por enquanto, transcrevo um texto de Vidas Secas, contextualizando um homem e sua família em busca de um sonho, na aridez de possibilidades.

“Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de sinha Vitória, as palavras que sinhá Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardam-se temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos."



Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/01/2005
Código do texto: T2391
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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