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XISTO BEDROEGAS, O BACHAREL - LIMA BARRETO


XISTO BEDROEGAS, O BACHAREL


“...acredito que todos os funcionários públicos, inclusive os juízes, cumpririam melhor seus deveres se considerassem as formalidades e os conceitos abstratos como instrumentos. Penso que deveríamos tomar como nosso modelo o bom administrador, que adapta os métodos e princípios ao caso concreto, selecionando dentre os meios de que dispõe os mais adequados à obtenção do resultado colimado.”
O caso dos exploradores de cavernas
Lon l. Fuller

Os funcionários públicos sempre foram personagens constantes em nossa literatura. A vida nos ministérios e os tipos caricaturados nos surpreendem pelas abordagens irônicas, mesmo que a limitação do homem emoldurado nos cargos nos acenda uma ponta de melancolia e a percepção de que em muitas vezes nos acomodamos na vida como pregos na parede.
O personagem de Lima Barreto, Xisto Bedroegas, no capítulo Era feriado nacional..., do maravilhoso livro Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, demonstra claramente esta necessidade de retratar a vida dos burocratas na Velha República.
Xisto Bedroegas, bacharel em direito, era depositário das tradições contenciosas da Secretaria de Cultos e obcecado pela legislação cultural brasileira, vivendo em torno de portarias, avisos, decretos, atos normativos, leis. O diário oficial era sua bíblia e o que não havia sido legitimado e transcrito em suas páginas não tinha legitimidade nem existência no mundo.
Outro funcionário instigante do romance mencionado é o Barão de Inhangá, funcionário da época do Império que se fizera barão e diretor geral dos cultos católicos da Secretaria de Cultos. Logo que se entediou do cargo e na falta de qualquer atividade mais útil à pátria, arranjou uma nova ocupação: fazia a toda hora e a todo instante a ponta no lápis. “Era um gasto de lápis que nunca mais se acabava; mas o Brasil é rico e aprecia o serviço de seus filhos.”
O autor aproveitou suas vivências como funcionário para compor seus personagens. Além da visão satírica ou moralista da vida, estava uma poderosa arma de desarmamento, denunciando o falso brilho dos anéis de bacharel numa república de doutores. Xisto, certamente, era imagem e semelhança de alguém...
Lima Barreto, após o súbito enlouquecimento de seu pai, abandonou a Escola Politécnica, onde cursava engenharia, e prestou concurso para amanuense (escriturário) do Ministério da Guerra, assumindo o cargo em 1903. O homem que sonhava com a glória literária passava todos os dias, das 10 das manhã às 3 da tarde, copiando e redigindo avisos, portarias e decretos, até sua precoce aposentadoria, em 1918, concedida mediante o diagnóstico de invalidez para o serviço público.
A burocracia e os bacharéis resistem na literatura e no serviço público. A complexidade das sociedades modernas fez com que a administração pública adotasse princípios como o da eficiência e o do constante aperfeiçoamento do seu pessoal. A importância dos diários oficiais e das funções burocráticas está contemporaneizada num mundo informatizado. Contudo, ainda podemos tropeçar com bedroegas, funcionários que perderam a criatividade e se aprisionaram na estrita legalidade, profissionais que perderam a capacidade de distinguir a letra da lei do seu propósito, bem como descobrir soluções nas lacunas legais.
Não obstante, o bom senso e o sentido de justiça estão se fortalecendo no exercício dos cargos e, quase sempre, podemos observá-los nas decisões e nos atos praticados pela Administração Pública.
Os funcionários continuam bacharéis, profissionais, oriundos das faculdades ou dos empregos na iniciativa privada, que buscam a realização profissional no serviço público. Nomes são consagrados pela criatividade, outros, permanecem no dia-a-dia cumprindo suas missões com empenho, alguns, ainda... Assim o mundo do serviço público continua riquíssimo para inspiração e composição de personagens.
Afinal, na sociedade do espetáculo, todos somos personagens e desejamos o papel de protagonista!
Hoje, podemos nos deliciar com os mandos e desmandos do doutor Xisto Bedroegas e torcer para que os nossos pedidos não sejam analisados por funcionário de perfil tão limitado e bisonho. Devemos nos honrar, se não por patriotismo por legítima defesa, com a construção de uma sociedade em que tipos, como Xisto Bedroegas, só encontrem espaço nas páginas das obras literárias.

"Apesar de enfronhado na legislação, não tinha uma idéia das suas origens e dos seus fins, não a ligava à vida total da sociedade. Era uma coisa à parte; e a comunhão humana, um imenso rebanho, cujos pastores se davam ao luxo de marcar, por escrito, o modo de aguilhoar as suas ovelhas. Para o doutor Xisto Bedroegas, a lei era ofensiva, inimiga da parte. Ninguém tinha direito em presença dela; e todo pedido devia ser indeferido, não logo, mas depois de mil vezes informado por vinte e tantas repartições, para que a máquina governamental mais completamente esmagasse o atrevido. Demais, tinha uma noção curiosa da lei. Uma vez eu lhe falei na lei da hereditariedade.
- Lei! - exclamou. - Isso lá é lei!
- Como?
- Não é. Não passa de uma sentença de algum doutor por aí... Qual o parlamento que a aprovou?"
Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá
Lima Barreto

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/01/2005
Código do texto: T2393
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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