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CABRA-CEGA - filme de Toni Venturi

“Na ditadura, abrir os olhos era mais do que uma brincadeira.”

Luz! Uma claridade que ofusca os olhos e traz o período obscuro da história brasileira à consciência de cada espectador. As vendas não se limitam aos olhos, a brincadeira infantil amadurece nos corpos dos personagens. Os presentes são contagiados pela dor logo nas primeiras imagens e verificam, no esconderijo de algumas percepções, que as principais amarras são as construídas pelo medo. A resistência nos cárceres da ditadura, aniquilada nos porões da alienação e do esquecimento...
Reforma ou revolução? O diálogo entre o militante ferido (Tiago) e o arquiteto simpatizante pela causa (Pedro) abre a janela para a necessária análise do contexto histórico, dos ideais sociais e das formas de implementação da possibilidade entre a utopia e o conformismo. Para a compreensão da história é necessário senti-la com dor, perceber que a reprodução dos fatos muitas vezes remete ao esquecimento os sujeitos de transformação que não se deixaram atar pelas mordaças da época.
Grandes silêncios pautados por um relógio impiedoso. Um tic-tac que marca o tempo da ficção na contemporaneidade do tempo de todos os reais sobreviventes.
Cabra-cega é um foco de luz. Narra a trajetória de um militante, o idealismo exacerbado que muitas vezes beira à paranóia, a necessidade de lutar contra as imposições e a consciência construída na leitura histórica e filosófica das sociedades. Depois de quase enlouquecer entre as quatro paredes de um apartamento, Tiago (Leonardo Medeiros) é levado à cobertura do prédio na clandestinidade e novamente percebe o mundo em movimento, passa as mãos pelos contornos da cidade distante, parece acaricia-la, ao tempo que compreende a indiferença das grandes massas pela sua luta. Será que sabem de nossa luta por eles?
A militante Rosa (Débora Duboc), sua interlocutora com o mundo, desnuda a fragilidade do militante quando constata a solidão como causa da morte da vizinha, mãe de uma vítima da guerra civil espanhola, e questiona a extensão do conflito interior dos indivíduos. Como pode o homem liderar a revolução se não consegue compreender a solidão de cada um? Como pode buscar preencher a sociedade se não consegue reconhecer as ausências em sua imagem refletida?
O corpo ensangüentado do experiente militante Mateus (Jonas Bloch), exposto na rua sob os olhares de uma multidão amedrontada, a divulgação da morte de Lamarca e a traição de um jovem militante após ser torturado poderiam ser motivos para a rendição dos combatentes encurralados, contudo, são elementos que abrem uma nova janela para os personagens, agora com o engajamento de Pedro (Michel Bercovitch), armados para uma claridade ofuscante.
Cabra-Cega é mais do que um retrato da ditadura, é um espelho aberto para a percepção de nossos papéis na sociedade. A metáfora da brincadeira infantil ganha os contornos de nossas covardias, as vendas que tantas vezes usamos para obscurecer nossa lucidez e nos preencher com a dificuldade de posicionamento.
Uma obra prima do cinema nacional. Atuações, trilha sonora, direção, fotografia e roteiro impecáveis emolduram o tema ainda não cicatrizado pelos que viveram o período obscuro. Uma janela aberta, uma intensa claridade que fere a sensibilidade dos mais jovens com as vivências históricas e revitaliza a luta dos que acreditam numa sociedade melhor. Um filme necessário para decifrar as tantas ditaduras que construímos no cotidiano e que nos impedem de sentir a realidade como sujeitos conscientes.
Cabra-Cega é um filme que deve ser visto e revisto por todos que anseiam alicerçar seus ideais em uma compreensão aprofundada de um período histórico que não pode ser encarcerado no esquecimento.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 17/06/2005
Código do texto: T25269
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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