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Texto

Noite – Érico Veríssimo

A novela “Noite” relata uma trama de mistério, onde o autor apresenta de maneira detalhada, enriquecido com momentos, lembranças, perturbações psíquicas.  Apresentando algumas articulações sobre a condição humana de ser no mundo com os outros e o desamparo constitutivo.
Ao iniciar a leitura, percebe-se um distúrbio psíquico de uma das personagens, o homem de gris (assim o autor se refere à personagem), quando se vê perdido no anoitecer de verão, na principal rua de sua própria cidade. Cambaleando pela rua sente alguém lhe puxando o braço com violência e gritando se desejava morrer atropelado. Não respondeu ao homem que lhe puxara, somente olhou para o céu e pronunciou o nome de uma mulher que vinha repetindo mentalmente. Tenta se lembrar desesperadamente. “Quem sou? Onde estou? Que aconteceu?”. Preso a uma amnésia a personagem caminha pela rua.
“Num gesto maquinal tirou do bolso o lenço e passou-o pelo rosto. Que perfume era aquele?” É um cheiro de perfume de mulher, mas quem será esta mulher? O desconhecido (assim também é citado na novela) não reconhece as próprias roupas e fica a refletir consigo mesmo. Onde teria encontrado-as? Em guarda-roupa ou de um alheio? E a carteira recheada de dinheiro, é sua? Será que ele é um ladrão? A personagem se vê cheio de perguntas que ele nem os transeuntes conseguiam responder.
O que está acontecendo com ele? Um pesadelo, porém ao pensar nisso lhe vem uma terrível dor de cabeça, que o traz para a realidade, e o deixa ainda pior com medo, aflição e tenebrosa sensação de estar sendo seguido. Saí andado desesperadamente até encontrar um café-restaurante onde entra sem mesmo saber motivo. Sem saber o que pedir pede água mineral ao garçom.
Neste instante alguém se aproxima, era um homúnculo corcunda de baixa estatura e de braços desproporcionalmente longos, mais se parecia com um chimpanzé do que com ser humano. O homúnculo se apresentou dizendo ser um artista. Pintou-o em um papel que cobrou uma fortuna. Aqui começa a estranha amizade desses dois personagens.
Ao perceber que o Desconhecido tem uma carteira repleta de dinheiro, o Corcunda passou a interessar-se pelo estranho e lhe promete uma grande noite, mesmo sem o Desconhecido dizer-lhe uma palavra. Para essa grande noite Corcunda chama para acompanhá-los um amigo a quem lhe chama de Mestre, que é um homem de muita inteligência e grande influência entre a alta sociedade, porém, não passa de mais um interessado no dinheiro do Desconhecido. Nesse trecho percebe-se a amizade por interesse.
Logo mais, podemos ler o momento que os dois interrogam o estranho sobre a sua identidade, mas ele somente diz não se lembrar de nada. Como não acreditam na hipótese de perda de memória acham que ele é um criminoso que matou alguém e roubou aquelas roupas e dinheiro. Surgindo assim, a desconfiança.
Apesar de tudo, a noite começa, sobre o comando do Mestre. Passam por ruas de prostitutas, animam um velório numa rua suburbana, por uma quermesse de uma igreja, até chegarem ao local do compromisso do Mestre, que nada mais é do que um prostíbulo muito discreto para pessoas da alta sociedade onde ele teria indicado para um comendador. Depois disso passam por pelo Pronto Socorro, onde confirmam que houve uma morte de uma mulher por esfaqueamento. Será o Desconhecido culpado pela notícia desse crime recente? Terá ele algum vínculo?
Em meio a tudo isso o Desconhecido continua a acompanhá-los mesmo sem dizer nada, e o Corcunda, sempre a pedir descaradamente dinheiro ao estranho que o dava sem perguntar o porque.
 Após isso seguem a um cabaré onde conhecem a Ruiva e Passarinho, duas prostitutas. Corcunda se interessa pela Passarinho, e o Desconhecido fica com a Ruiva. Depois de muita bebida, o estranho desmaia, ao acordar o cabaré está vazio. Eles saem e se encaminham para a casa das garotas. Ao chegarem a Ruiva arrasta o Desconhecido para seu quarto, este fica sem ação, mas depois de algum tempo indeciso ele faz mantém relação sexual com ela, com o vago pressentimento de que ela é uma pessoa conhecida.
O grande momento da novela é quando o Desconhecido acorda e se levanta no outro dia e não se lembra o que aconteceu no dia anterior, mas está recuperado de seu lapso de memória, relembra o dia anterior em que chegou em casa e não encontrou a mulher. Rapidamente sai daquele domicílio e se dirige para a sua casa. Na rua as pessoas já estão se levantando para se dirigem aos seus serviços.
No caminho se recorda de sua infância, um tanto conturbada com a morte prematura de sua mãe, depois o seu casamento e a noite de lua de mel onde ele fica impotente e só consegue consumar os laços matrimonias com sua mulher depois de um longo tempo ao lado dela. Noites como essa se repetiram por várias vezes. Com isso ele começa a desconfiar que sua esposa o trai, então ele a trata violentamente e lhe diz palavras terríveis.
 Ao chegar na porta de sua casa ele teme entrar, pois sabe que ela não voltou. Pois, como poderia voltar depois de ter sido tão humilhada? Quando ele finalmente entra na casa e ouve que alguém caminha no andar de cima uma alegria o toma, sobe as escadas velozmente. Será que ela voltou?
A novela “Noite” nos deixa uma grande dúvida neste final. Será que a esposa dele morreu e ele está ouvindo passos? Será que ele a matou e não quer assumir para si mesmo ou ela fugiu e ele não quer aceitar a realidade?
O romance nos leva a pensar que o Desconhecido inconscientemente utiliza a perda da memória como fuga. Refúgio para algo que ele possa ter feito, mas prefere não se lembrar. Como, por exemplo, assassinado a esposa, ou não aceitar a perda da esposa pela hipótese de que fora traído.
Esta novela nos deixa várias questões. Tais como, amizades por interesse, a descrença pelo que se desconhece, fuga para não aceitar a realidade. Mas uma coisa pode-se ter certeza, que o autor nos mostra, os fracassados são aqueles que não conseguem assumir seus próprios atos, levando os outros a tirarem conclusões precipitadas.
Fad Amada
Enviado por Fad Amada em 21/06/2005
Código do texto: T26477

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Sobre a autora
Fad Amada
São Paulo - São Paulo - Brasil, 39 anos
7 textos (19561 leituras)
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