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A IGREJA E A MAÇONARIA

O PARTO DA MAÇONARIA

 
Muito antes do histórico ano de 1717, quando alguns cavalheiros da sociedade londrina se reuniram na Taberna do Ganso Grelhado para fundar a primeira Grande Loja de Londres, e assim, dar á prática da maçonaria uma feição institucional, a Arte Real já era a filosofia reinante entre as melhores cabeças da intelectualidade européia. O pastor James Anderson, reconhecidamente o pai da maçonaria moderna, por causa das Constituições que ele escreveu, historiou assim o nascimento da maçonaria institucional: “ O rei Jorge chegou a Londres no dia 20 de setembro de 1714. Algumas Lojas de Londres, desejosas de um ativo protetor, em face da incapacidade de Sir Christopher Wren, acharam por bem cimentar, sob um novo e grande mestre, o centro de união e harmonia. Com esse objetivo as Lojas nº 1 (Ganso Grelhado), 2 (Coroa), 3 (Macieira), e 4(Caneca de Vinho), reuniram-se com alguns outros antigos irmãos no dito Macieira, e tendo dado a presidência ao mais velho mestre maçom, mestre de uma Loja, constituíram uma Grande Loja, , par ínterim, na devida forma. Resolveram restaurar a comunicação trimestral dos oficiais das Lojas, reunir-se em assembléia nas festas anuais e escolher entre eles um Grão-Mestre, na expectativa de ter a honra de ter à sua frente um irmão nobre [1]      
Essas informações dadas por Anderson nos leva a deduzir que muito antes de 1717, data oficial do nascimento da maçonaria, dita moderna, já havia Lojas maçônicas em Londres, praticando alguma coisa semelhante ao hoje se chama maçonaria especulativa. Anderson lista quatro Lojas, citadas pelos seus números e pelos lugares onde esses irmãos se reuniam, ou seja, algumas tabernas londrinas. [2]
Uma informação importante nesse texto de Anderson nos dá conta que Christopher Wren, o famoso arquiteto, responsável pela reforma arquitetônica de Londres, era maçom e gozava de grande prestígio, na altura em que se propunha a unificação da maçonaria londrina. Isso o colocava na posição de um Grão-Mestre de fato, ainda que não fosse de direito, já que tal cargo não existia. Esse pode ser um interessante elo entre os maçons operativos, arquitetos e pedreiros, com os maçons especulativos, cavalheiros da Royal Society, que nessa época constituíam as Lojas maçônicas de Londres.
O que eram essas Lojas especulativas antes de 1717 é um assunto muito obscuro. Não há entre os autores, concordância de informação porquanto nenhum documento escrito, que relate de primeira mão a atividade de uma dessas Lojas foi até agora recenseado.
Tudo leva a crer que as Lojas maçônicas referidas pelo Dr. Anderson eram uma espécie de clubes de cavalheiros, cujas origens parece ser a Royal Society de Londres, organização que congregava as nata científica e intelectual da Ilhas Britânicas da época. Faziam parte desse grupo Isaac Newton, Alexander Pope, Robert Boylee, John Evelynn, Robert Hookee, William Petty, John Wallis, Thomas Willis, o dito Chistopher Wren e outras importantes figuras da ciência e da arte na Inglaterra.
Uma pista que nos leva a fazer essa ilação é a própria divisa adotada pela Royal  Society, que muito se assemelha á que foi adotada pela maçonaria em seu perfil filosófico. O lema Nullius in verba,  por exemplo, que afirma a intenção de só buscar a verdade no domínio dos fatos, baseando-se somente na experiência científica, e jamais na palavra de alguma autoridade, é um postulado iluminista que também  instrui a prática da maçonaria. É um pressuposto que não podia ser desprezado pelos membros da Royal Sociaty, na altura em que todo conhecimento baseado unicamente em lógica dedutiva estava sendo contestado pela postura estritamente racional e cientifica dos iluministas. Todavia, na prática, a Royal Society, pelo menos em seu início, jamais afastou dos seus interesses os temas de conteúdo espiritualista, até por conta do próprio currículo de alguns de seus membros mais notáveis, como Sir Isaac Newton e Robert Boyle, por exemplo, cujas ligações com a alquimia eram notórias e jamais foram negadas. E é essa postura, ao mesmo tempo científica e religiosa, que nos leva a pensar que a maçonaria inglesa tem pé bastante firme na famosa academia inglesa que congregava o escol do pensamento naqueles cruciais anos do início do século XVII, quando a sociedade moderna começava a construir de fato o seu espírito.

O BERÇO CATÓLICO
 
Entre os historiadores é comum a idéia de que a Maçonaria, dito especulativa, tanto quanto a Rosa-Cruz, são subprodutos da reforma religiosa, as quais foram desenvolvidas como lugar de refúgio para um pensamento que não encontrava abrigo em nenhuma das duas facções em luta naquele momento da História. Tanto os conservadores da Igreja de Roma quanto os reformistas que adotaram as idéias de Lutero, Calvino, Zwinglio e outros, condenavam o iluminismo que eles julgavam ateu e anti-cristão. Mas é óbvio também, pelas referências encontradas em documentos antigos, que as antigas Lojas, anteriores á 1717, seguiam a orientação católica, pois em vários desses antigos manuscritos encontramos expressões como “Todo maçom deve amar a Deus e à Santa Igreja e também seu Mestre e Companheiros”,  “ O primeiro e principal dever de um maçom é amar a Deus, a Santa Igreja e a todos os Santos”, etc.[3]
Assim, nos parece bastante claro que a maçonaria, de origem, seguia uma orientação estritamente católica, até porque, estando suas raízes históricas situadas nas antigas corporações de ofício dos pedreiros medievais, construtores das grandes catedrais, essa orientação não poderia ser diferente.
Mas nos parece bastante óbvio também que essa orientação, a partir do momento em que as antigas Lojas operativas começaram a aceitar entre seus membros os “cavalheiros”, ou seja, pessoas não pertencentes à profissão de construtor, dando nascimento, com essa prática, às chamadas Lojas especulativas, a maçonaria começou a se afastar da Igreja católica e essa ruptura assumiu contornos definitivos a partir de 1717.
Mas isso não significa que os “maçons cavalheiros”, como foram chamados essa nova forma de maçonaria fossem ateus ou desprezassem a religião. O próprio Anderson, em suas Constituições, chama a atenção para o fato de que “um maçom não pode ser um ateu estúpido nem um libertino religioso”. Com isso, queria ele alertar contra a tendência que grassava nos meios intelectuais da época, de puro ateísmo, ou então de buscar no panteísmo religioso um substituto para uma crença que parecia não servir a uma época em que o pensamento não mais se contentava com dogmas e pressupostos construídos por argumentos de autoridade e suportados por uma fé induzida por castigos e recompensas e mantida pela opressão e pela ignorância.
Por isso é que na expressão ecumênica de Anderson, o maçom deveria se sujeitar “a uma religião, na qual todos os homens estivessem de acordo, deixando a cada um a liberdade de opinião a respeito”. Descontando a incoerência da proposta, já que se houvesse uma religião assim, a própria liberdade de culto estaria prejudicada, o que se nota é a inspiração francamente iluminista nela contida, já que ela reflete, num sentido religioso, o pensamento expresso por Voltaire, de que a verdadeira e única religião que um homem deveria professar é a tolerância.[4]
 
A RUPTURA COM A IGREJA
 
Com essa confissão de fé, feita por Anderson e encampada por todos os maçons, no estabelecimento de uma religião sobre a qual todos estivessem de acordo (universalmente aceita, portanto), a maçonaria se colocava em clara oposição á Igreja Católica, que se pretendia universal, como o próprio termo “católico”, sugere. Era lógico que essa mesma Igreja, que já lutava com todas as suas armas contra o cisma protestante, não iria receber bem um novo canal de contestação à sua pretensa hegemonia. Daí que, em 1738, o Papa Clemente XII expede sua famosa bula “In Eminenti”, excomungando todos os franco-maçons, condenando seus ritos e práticas, como heréticos e perigosos para sociedade e para o espírito humano.[5]
É evidente que não podemos isolar a maçonaria do debate religioso. Embora seja praticamente unanime entre os maçons a idéia de que a prática maçônica não se insere no rol das religiões, existe uma dificuldade em vê-la como uma organização laica porquanto ela desenvolve práticas que se assemelham a ritos religiosos.
Mas a maçonaria não é uma religião. Ela é uma sociedade iniciática. A distinção é sutil e não é todo mundo que consegue fazê-la. Uma religião é uma prática que visa ligar a mente do praticante a uma idéia de espiritualidade, desenvolvida segundo a crença de um grupo, fundamentada em pressupostos de que sua doutrina é a que mais nos aproxima da divindade. A sociedade iniciática visa a implantação, a manutenção e divulgação de uma cultura que o grupo entende ser o mais apropriado para atingir, ou conservar um determinado estado de equilíbrio social, como objetivo coletivo, e um equilíbrio espiritual, como meta individual.(6) 

Por isso a idéia de uma maçonaria especulativa nasceu exatamente numa época em que a busca pelos valores que pudessem sustentar o estabelecimento de uma sociedade justa e perfeita – a utopia sonhada, o paraíso perdido – que estava na mente de todos os idealistas.
Os mistérios da maçonaria, suas lendas e seus ritos, que tanto preocupou Clemente XII e ainda incomoda alguns setores da Igreja Católica são apenas elementos de uma linguagem cifrada que reflete a cultura maçônica e serve de elementos de comunicação entre os maçons. É um código e como todo código suscita desconfianças. Todo grupo que comunga de um interesse comum tem a sua própria linguagem. Médicos, advogados, cientistas, e é claro, organizações criminosas e grupos marginais também desenvolvem linguagem própria e ritos inerentes às suas práticas. Ele retrata a idiossincrasia inerente a todo grupo que desenvolve uma cultura própria. Mas não é a razão nem o reflexo do bem ou mal que eventualmente essas organizações possam praticar. 
 
A RECONCILIAÇÃO
 
Todavia, conhecer a maçonaria é admirá-la. Como fez o Cardeal Dom Ivo Lorscheiter, que não obstante reconhecer a dificuldade de conciliar a maçonaria e o catolicismo – mais em razão de dificuldades históricas do que doutrinárias-  admite a possibilidade de uma convivência pacífica entre as duas instituições ". O estudo da Maçonaria é, sem dúvida, difícil e complexo”, escreve esse eminente prelado da Igreja. “Sua história, suas concepções profundas, suas atitudes concretas, as sucessivas severas manifestações do Magistério da Igreja Católica, o espírito de diálogo hoje reinante - tudo parece conduzir a esta pergunta fundamental e de largas conseqüências: Afinal, a Maçonaria e a Doutrina Católica são conciliáveis entre si?"
A resposta do Cardeal é meio ambígua, e do seu ponto de vista é compreensível que o seja. Ele, embora pareça admitir que sim, parece não aceitar muito essa possibilidade. Todavia, pela sua argumentação, se ele quisesse ser um pouco mais ousado teria chegado á mesma conclusão que chegamos: a Igreja Católica e a Maçonaria concordam no fundamental, que hoje é a única e definitiva verdade que deve ser buscada pelo espírito humano: como encontrar o equilíbrio perfeito entre a matéria e o espírito, de forma que a humanidade encontre o caminho para Deus sem precisar negar a si próprio?
Pois foi essa, em nossa opinião, a idéia mais infeliz que alguém jamais teve: a de que, para se entrar no céu era preciso desprezar a si mesmo. Assim , separou-se matéria e espírito em duas substâncias diferentes, como se uma fosse antagônica à outra. E para salvar uma teria que matar a outra. Dai, buscar a felicidade na terra passou a ser um pecado,  e a salvação dá alma e o bem estar material tornaram-se matérias mutuamente exclusivas, onde a conquista de uma implicava, obrigatóriamente na perda da outra. Essa idéia contribuiu para que a humanidade amargasse mais de um milênio de pobreza social e econômica, mergulhada na ignorância e na miséria. 
Ainda bem mentes luminares, na própria Igreja, corrigiram a tempo esse equivoco. Pensadores como Teilhard de Chardin, por exemplo, para quem matéria e espírito são resultado de um processo desenvolvido pelo Grande Arquiteto do Universo na construção da sua obra mais perfeita, que é o universo, são os elos que poderiam servir de argamassa para essa conciliação.[7]  
 
CONCLUSÃO
 
A Maçonaria moderna pode ser vista hoje como uma sociedade de pensamento onde se pratica uma filosofia humanista e progressista que visa a construção de um modelo ideal de sociedade onde a fraternidade e a tolerancia são a base da sua constituição. Ela tem suas raízes históricas plantadas nas antigas corporações de pedreiros livres da Idade Média, mas seus fundamentos filosóficos estão centrados no Iluminismo, sistema filosófico desenvolvido pelos pensadores racionalistas do século XVIII. Sua organização institucional liga-se à  Royal Society londrina, organização fundada no início do século XVII, na Inglaterra, para fins de fomento da cultura e da ciência. O sigilo, os ritos, os símbolos e as lendas que constituem o acervo da cultura maçônica são uma espécie de linguagem codificada, própria do método usado pelas sociedades iniciáticas para transmitir a sua cultura.
A orientação religiosa da maçonaria,foi em princípio, católica. Com o advento do cisma protestante, a maçonaria adotou uma orientação ecumênica, própria de uma sociedade que tinha por princípio a prática da tolerância e o respeito pela liberdade de pensamento.

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[1] Cf Jean Palou- Maçonaria Simbólica e Iniciática, Ed. Pensamento, pg. 49.
[2] Era costume das primeiras Lojas especulativas fazer suas reuniões em tabernas. Daí Anderson se referir às quatro Lojas pelos locais de suas reuniões, que eram tabernas famosas na Londres do século XVIII.
[3] O Manuscrito Cooke, +- 1410
[4] O famoso dito de Voltaire “ não concordo com o que dizes, mas defenderei até a  morte o vosso direito de dizer”, é o mais eloqüente discurso a favor da tolerância e do direito à livre expressão do pensamento. Num momento em que duas facções do cristianismo se esfacelavam numa guerra sangrenta pelo controle do espírito humano, esse anelo pela tolerância e pelo direito da livre expressão do pensamento era uma atitude bastante ousada. Isso custou a Voltaire a sua expulsão da França e o exílio na Inglaterra, onde também teve importância no estabelecimento da Real Society e no movimento que resultou na maçonaria moderna.    
[5] A Diatribe de Clemente XII se voltou principalmente contra o segredo que ele diz existir na prática da maçonaria. Ele faz presumir que a maçonaria é uma reunião de almas perversas que se reúnem para praticar o mal e instigar conspirações. Trata-se, evidentemente de uma resposta política da Igreja, nessa altura, já bastante fustigada pela Reforma protestante.
[6] Como os Antigos Mistérios Egípcios e Gregos, por exemplo, que eram instituições religiosas e culturais que visava a preservação e a transmissão de elementos culturais próprios desses povos. 
7. Teilhard de Chardin- O Fenômeno Humano e outras obras. Ed. Cultrix. Embora esse grande pensador jesuíta não fosse maçom ele pensa exatamente como um. O universo teilhardiano é um edifício que está sendo construído ao longo do tempo e do espaço, segundo um processo onde Deus pode ser visto como o Grande Arquiteto e os homens os seus pedreiros. Nesse sentido, a obra humana adquire um sentido de progressão espiritual que “sacraliza” o ofício de viver e conduz a humanidade para um ponto único “justo e perfeito”, que ele chama de Ponto Ômega. Todo maçom deveria conhecer a obra de Teilhard de Chardin. Para maiores referências recomendamos o nosso livro “Conhecendo a Arte Real “ publicado pela Editora Madras, onde desenvolvemos com mais profundidade este tema. Recomendamos também o nosso estudo “Maçonaria e Estruturalismo”, publicado neste site.   
 
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Resumo da palestra proferida no dia 30 de junho na Academia Maçônica de Letras. 
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 06/09/2011
Reeditado em 14/09/2011
Código do texto: T3203050
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