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DOLZ E SCHNEUWLY E A PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE SÃO PAULO: COMPARANDO PROPOSTAS CURRICULARES

Para estruturar o ensino de gêneros textuais em sala de aula, Schneuwly e Dolz (1996) pensaram em uma proposta didática de ‘agrupamento de gêneros’ que organizasse seu tratamento, formando uma base curricular para uma proposta de ensino de gêneros, de maneira progressiva.
A proposta dos autores baseia-se, principalmente, em três conjuntos de critérios combinados: os agrupamentos devem corresponder às finalidades sociais legadas ao ensino em domínios essenciais de comunicação em nossa sociedade; devem retomar, de modo flexível, certas distinções tipológicas; e devem ser relativamente homogêneos quanto às capacidades de linguagem dominantes implicadas na mestria dos gêneros agrupados.
A principal finalidade dos agrupamentos de gêneros, dentro da ideia de progressão curricular, tal qual entendida pelos autores genebrinos, é elaborar um modelo de ensino modular, aplicável a toda a seriação dos anos de aprendizagem e de organizar a progressão no ensino, através dos diferentes ciclos do Ensino Fundamental.
Na proposta, é fundamental definir, para cada agrupamento, algumas capacidades globais que devem ser construídas ao longo da escolaridade. O princípio sobre o qual a progressão está elaborada é poder “construir, com os alunos, em todos os graus de escolaridade, instrumentos, visando ao desenvolvimento das capacidades necessárias para dominar os gêneros agrupados" (1996, p. 62). Há uma afinidade suficientemente grande entre os gêneros agrupados, para que transferências de saberes se operem facilmente de um a outro. E há também capacidades de compreensão/produção de linguagem que atravessam os diferentes agrupamentos.
O mais importante nesta proposta é que se trabalhe com a progressão entre os gêneros nas séries/anos e com uma diversidade de gêneros em uma série/ano, pois é assim que as diferentes capacidades de leitura e produção oral e escrita em diferentes gêneros podem ser progressivamente construídas. Portanto, no currículo, todos os agrupamentos devem ser trabalhados, de maneira cada vez mais complexa, em todos os anos da escolaridade (progressão em espiral), através de um ou outro dos gêneros que os compõem, pois é assim que se garantirá tanto a diversidade de aprendizagens como a progressão.
Desta forma, trabalhar com agrupamentos de gêneros consiste: em buscar uma maneira de apresentar aos alunos um quadro mais geral, no interior dos quais os textos de diferentes gêneros são produzidos e no qual estão razoavelmente organizados; mostrar semelhanças e diferenças entre os gêneros; mostrar também que as ações de textualização são muito regulares, ou seja, que produzir um texto é um trabalho sistemático (mas intuitivo) de combinações de diferentes sequências textuais que acabam por compor quadros mais gerais de recepção e de produção dos gêneros textuais; e mostrar aos alunos que os textos que eles leem ou produzem são parecidos com outros; que participam de uma cadeia textual ininterrupta de textos; enfim, são textos que mantêm entre si vários tipos de relações: temáticas, funcionais e formais.
No 1º ciclo, os autores genebrinos sugerem que sejam desenvolvidas capacidades argumentativas orais em situações próximas às da vida quotidiana; e, progressivamente, conforme a passagem dos ciclos, sejam apresentados outros exemplares do mesmo gênero, operando em esferas de comunicação diferentes, em formas de atuação social por meio da linguagem, que consistam em manifestações cada vez mais sofisticadas, isto é, nos ciclos iniciais começa-se com gêneros primários (orais), até chegar nos gêneros mais formais, mais elaborados, que exigem uma competência leitora e escritora cada vez maior, como artigo de opinião, carta de leitor, publicidade, pedido formal de emprego etc.  Com isso, os genebrinos pressupõem um domínio cada vez mais eficiente, por parte dos aprendizes, do funcionamento dos exemplares de gêneros estudados e dos mecanismos envolvidos na enunciação.

A Proposta Curricular do Estado de São Paulo (PCSP) é caracterizada por agrupar exemplares do mesmo gênero em diferentes domínios sociais de comunicação (artigo de opinião, discurso político, debate), comparando-os com modelos de outros gêneros. A progressão é feita por bimestre da série/ano em curso.

Enquanto a proposta de Dolz e Schneuwly é em espiral, porque o mesmo conteúdo aparece nas séries subsequentes e com complexidade cada vez maior, na Proposta Curricular de São Paulo poder-se-ia dizer que é numa reta crescente e não em espiral, pois o conteúdo é trabalhado ao longo dos bimestres da série/ano aumentando, pouco a pouco, o nível de complexidade; e de forma comparativa com outros gêneros textuais. Apesar disso, a PCSP aproxima-se da proposta de Dolz e Schneuwly por trabalhar com agrupamento de gêneros e de forma gradativa.

Consideradas as aproximações entre as duas propostas, os distanciamentos são evidentes, uma vez que a PCSP equaciona o ensino dos gêneros em reta crescente – o que traz perdas em relação à proposta ‘original’, pois os aprendizes terão menos tempo para dominar e operar no gênero estudado, a construção das competências será mais acelerada e com isso as chances de solidificação do conhecimento serão menores.

Desta sorte, quando se trabalha em espiral, o período para aquisição das competências necessárias para leitura, análise e produção de textos, exemplares de gêneros, se estende – o que, por sua vez, garante mais oportunidades de contato com o objeto de estudo; haja vista que o aluno apresentará mais amadurecimento ao longo dos anos e, por conseguinte, terá mais chances de reflexão e de resgate e reformulação do conhecimento e das hipóteses construídas em séries anteriores.



BIBLIOGRAFIA

BENTES, A.C. Linguística Textual: Tipologias, agrupamentos e textualidade. Tema: 3. O que são agrupamentos de gêneros. Campinas, SP: UNICAMP/REDEFOR, 2012. Material digital para AVA do Curso de Especialização em Língua Portuguesa REDEFOR/UNICAMP.

DOLZ, J. e SCHNEUWLY, B. Gêneros e Progressão em Expressão Oral e Escrita - Elementos Para Reflexões Sobre Uma Experiência Suíça (Francófona). 1996
Viviane Marques Miranda
Enviado por Viviane Marques Miranda em 02/12/2012
Código do texto: T4016829
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Viviane Marques Miranda
São Paulo - São Paulo - Brasil
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