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Richard Gere é Mr. Jones, um homem de 36 anos, charmoso, impulsivo, e irresistível. (Diga-se de passagem, nós mulheres pensamos – uma grande maioria que conheço pelo menos  - que ele não precisa fazer nenhum esforço prá fazer papéis de homens sedutores).
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Nas primeiras cenas do filme,temos a impressão que ele é apenas excêntrico, mas no decorrer delas percebe-se que sua “alegria” demasiada, na verdade trata-se de euforia, que caracteriza o que a psiquiatria denomina, como sendo um dos sintomas da bipolaridade, ou distúrbio bipolar, e que anteriormente chamava-se Psicose Maníaco Depressiva.
Isto porque há alternância nas manifestações dos comportamentos,entre períodos depressivos e outros de euforia demasiada.
Mr.Jones, numa de suas crises delirantes (maníaca ) sobe num prédio em construção e abre seus braços “pensando”, ou pelo menos dando a entender que poderia voar.
Esta é uma característica bem peculiar nas pessoas com este tipo de estrutura psíquica: - a ausência do medo.
Eles se sentem corajosos – demais - e pensam estar isentos de qualquer fatalidade, por isto muitas vezes sofrem acidentes ou provocam situações angustiantes e que geram perigo para eles mesmos, e para as pessoas que com quem convivem.
O medo é inerente ao ser humano, e se existe é para nos proteger e para nossa sobrevivência.
É ele que nos faz usar de ponderação e de cuidados para com a nossa vida.
Por conta deste ato imprudente e perigoso, ele é internado numa clínica psiquiátrica e começa a ser tratado pela Dra. Libbie Bowen,( Lena Olin), uma psiquiatra inteligente, dedicada e respeitada, que já de início percebe que o diagnóstico dele estava incorreto, já que até então ele havia sido tratado como portador de esquizofrenia paranóide.
Mas que, segundo a constelação dos sintomas que ele apresentava,tudo levava a crer que ele estaria classificado dentro do espectro da bipolaridade.
Este é um erro de diagnóstico muito comum, pois muitas vezes as crises confundem muito, e os profissionais médicos tem dificuldade de fornecer um diagnóstico mais preciso, o que normalmente  é facilitado com o acompanhamento mais constante e sistematizado.
O que não era a atitude de Mr.Jones.
Só aceitava o tratamento durante as internações, o que também é muito comum entre os portadores, que assim como ele jogam também seus remédios,(muitas vezes ) na lata do lixo ou fingem que os tomam, pois não consideram que precisam de tratamento.
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Na verdade os diagnósticos não servem prá rotular ninguém, e são utilizados para seguir uma linha de tratamento medicamentoso e/ou psicoterápico, que consiga minimizar ou eliminar os sintomas, que nas crises não deixam que a pessoa leve uma vida mais organizada,
(a vida de  Mr.Jones era toda ao avesso) o que não quer dizer que, não seguir um “padrão” de como a sociedade molda que seja normal seja considerado “doença”.
Só um profissional psiquiatra poderá fornecer diagnósticos.(neste caso )
Somos singulares e únicos e mesmo pessoas com estruturas psicóticas podem viver em sociedade com dignidade e ter o seu devido valor.
Em psicoterapia se levada com constância e seriedade não é a “cura” que é o foco, mas sim a importância em procurar os norteadores dos comportamentos, quais os eixos da estruturação da personalidade, prá perceber os “gatilhos” que podem disparar as crises.
Pois estruturas mentais não se curam, se conhecem,pois que somos todos feitos com a mesma forma humana.
Formas nos unificam.
O que nos diferencia é a nossa massa.
Tal qual uma forma de pão.
Com mesma forma pode-se fazer uma variedade de pães.
Como nós.
Cada um tem seu valor, suas qualidades e aspectos a melhorar.
O que a psicoterapia pode fazer é tentar descobrir a quantidade do fermento necessária, a combinação dos ingredientes ou o tempo de assar o pão no forno.

Mas porque eles normalmente não se submetem a uma psicoterapia?
Vejamos:
Se um carro faz barulho, por exemplo, eu sei que o problema não é o barulho, mas sim algo que está solto (Lá dentro) que gera o barulho.
Eu tenho que descobrir qual é o problema que há por detrás do barulho.
Uma depressão ou a euforia é apenas o barulho, e sessões psicoterápicas podem funcionar como uma catarse, que ao descolar de si o que machuca, com a verbalização, há  a aglutinação dos pensamentos e emoções.
As idéias antes difusas, divagadoras e desligadas umas das outras, reúnem-se mais densamente e vão formando bases mais sólidas, prá que o enfrentamento com os desafios do cotidiano possam ser vividos sem fuga.
No início as sessões podem ser extremamente dolorosas, pois há um enfrentamento com os fracassos, decepções, e perdas.
Já que as  experiências serão desenterradas, dissecadas, pra que sejam reconhecidas, integralizadas na consciência não pra autocobranças, mas para aprendizado e autoconhecimento, e pode doer, porque viver dói muitas vezes, (prá todos nós ) e também eles (os que sofrem estes sintomas ) não querem esta interiorização.
Este processo todo acontece inconscientemente, ninguém tem controle destes sintomas, mas há tratamento, há como desmascarar conscientemente as feridas, tratá-las e fazer com que cicatrizem, com a complacência, com o perdão e com a releitura dos acontecimentos e circunstâncias do passado resignificando o presente.
Quanto mais o sofrimento psíquico for tratado conscientemente, menos recorrência de episódios psicóticos poderá haver, uma vez que com a aceitação do lado obscuro da personalidade “sobram” cada vez menos conteúdos “paralisados” pra eclodir nas crises.
A psicose nada mais é do que uma fuga do mundo real.
É apenas um “barulho” que precisa ser investigado a “causa”.
Nos delírios e alucinações há uma espécie de mundo a parte, onde os conteúdos não aceitos são liberados inconscientemente.(e descontroladamente, sem o filtro do ego que perde todo o controle )
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Filmes como este ajudam as pessoas a acabar com os estigmas que atormentam a vida dos portadores desta estrutura psíquica e de suas famílias .
E este filme especialmente é recomendado aos familiares, para que consigam entender um pouco mais seus filhos, seus maridos como pessoas que “queimam” sua chama de vida mais rápido do que outras, porque vivem tudo passionalmente, intensamente e se consomem muito rápido.
Fatores como problemas familiares, profissionais e sentimentais são como mais oxigênio prá que eles se consumam mais rápido ainda.
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Podem tender para a sexualidade por compulsão como Mr. Jones e a mulher que o atendeu no caixa do banco . Ela ficou fascinada pelos momentos de puro êxtase que ela viveu com ele.
Eles vivem a felicidade efêmera e fugaz, como se a vida se resumisse e fosse se acabar em instantes.
A maioria de suas atitudes na vida são vividas  de uma maneira impulsiva e desorganizada.
Mas são criativos, sensíveis, amigos, e quando se dedicam ao que gostam ou a arte podem se tornar excelentes profissionais.
Os laços profissionais mais duradouros se tornam difíceis, quando as crises são frequentes, pois a cada internação tem que novamente tudo recomeçar.
Também gastam muito dinheiro à toa, e até doando muitas vezes o pouco que tem, numa generosidade exagerada, como Mr Jones  que doou uma quantia considerável para seu amigo construtor “inventando” que havia encontrado o dinheiro e que um anjo o havia instruído a doá-lo.
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Num concerto, Mr.Jones no auge de sua euforia sobe ao palco numa apresentação musical(quando criança ele havia estudado música) e começa a reger a orquestra.
Quando é preso e internado ele apenas responde:
“ -Eu não cometi nenhum crime. foi o Regente que cometeu .Ele jamais deveria ter regido a nona sinfonia de Beethoven daquela forma.Beethoven deve até ter se revirado no túmulo. Fiz um favor a ele.”
 
Esta é uma outra característica que dificulta os relacionamentos e criação de laços afetivos, eles se tornam prepotentes e arrogantes.
Mas isto é apenas aparente, é uma defesa do ego, por dentro se sentem inúteis e fracassados.(o que nem sempre corresponde a verdade, mas é a leitura que “eles”fazem de si mesmos)
E a “alegria”demasiada é apenas uma fuga que encobre qualquer tentativa de interiorização.
Por isto a importância de que as famílias conheçam as particularidades dos sintomas, que  podem ser valiosas informações, no sentido de compreender estas atitudes, pois do mesmo jeito como surgem, logo passam e eles voltam a ser pessoas generosas e dispostas a dialogar.
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Durante  sua fase depressiva que também mostra em cenas chocantes, onde nem banho ele tomava, foi a Dra Libbie que cuidou dele, quando então ela se envolve afetivamente com ele durante o tratamento, vivem uma noite de amor, e ela diante da ética profissional, pede afastamento de sua profissão, em nome do amor que sentia por ele.
Este amor dela por ele é digno de muitas reflexões, pois que diariamente temos exemplos de anônimos que tem este tipo de atitude.
É o amor que é doação, que é entrega e abandono de si .
É uma escolha que eu faço pelo outro.
E esta forma de  amor, ninguém tem o direito de julgar, pois dele não se fala, somente se vive.
E só sabe dele quem o vive.
 
Quando amo, amo e ponto.
Quando escolho amar é porque aceitei me responsabilizar por essa pessoa, aceitei viver junto com essa pessoa, não importa como ela seja, e de que estrutura mental ela pertença.
O amor da Dra.Libbie é um verbo.
Mas um verbo intransitivo.

Sem objeto e sem sujeito, pois o amor dissolveu e sublimou todas as diferenças que haviam entre eles.
É o amor não dito, mas que é vivido, que torna-se quem ama.
Quem ama, quando vive este amor, torna-se  o amor.
Amor que é uma escolha.
Dra.Libbie escolheu amar Mr.Jones.

E na  última cena do filme , (belíssima )-  e digna de se voltar a fita algumas vezes- ele sobe no mesmo prédio, onde no início do filme ele havia sido internado,e desta vez ao invés de ambulâncias, sedativos e internação, Libbie  sobe o telhado também, e o chama docemente, (ai ...que a gente fica com o coração na mão quando ele vai dando os passos de retorno dos caibros para um lugar mais seguro...) ele obedece e ela lhe dá a sua mão,  - mão que parece um feixe de luz na escuridão deste homem - e ele vem...
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Jung dizia que : "Somente o que realmente somos tem o poder de curar-nos" .
E foi novamente o amor a grande mensagem deste filme...o amor que cura e recria uma vida ...que consegue “resgatar” o que já somos...(mas nem sabíamos...)
 
Teresa 21.11.2009
 
Texto da resenha analisado dentro dos conceitos da psicologia Analítica Junguiana de Carl Gustav Jung – discípulo de Freud.
 
Outras resenhas: (Para ler basta pausar o mouse e clicar no título)


Perdas e Danos-Resenha (análise) Psicológica. Filme sobre Desejo. (1ª parte)


As Pontes de Madison- filme sobre sincronicidade

Uma mente brilhante- resenha do filme sobre esquizofrenia 

 

 

Maria Poesia
Enviado por Maria Poesia em 21/11/2009
Reeditado em 11/01/2013
Código do texto: T1936297
Classificação de conteúdo: seguro

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