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Nosso inconsciente coletivo é permeado de fantasias, mitos e símbolos.
Através da arte, e neste caso o cinema, podemos nos espelhar e sentir as nossas emoções que poderão dialogar através dos personagens, percebendo em nós mesmos - nos nossos conteúdos psíquicos- as forças e fraquezas de nossa própria alma na identificação/projeção nos personagens.
O cinema é hoje mais do que nunca um recurso terapêutico muito eficaz.
 
O filme Melhor é impossível como o próprio título diz: Melhor é impossível.
É um filme para se rever muitas vezes.
Uma verdadeira obra-prima.
 
Melvin (Jack Nicholson ) é um escritor, que tem como tema o universo feminino.
(oh céus...logo ele? )...porque ele é um homem extremamente insuportável.(mas a gente ao assistí-lo o acha adorável)
Ele não pensa duas vezes antes de ofender e ser grosseiro com quem o cerca.
É totalmente preconceituoso.
É racista, odeia o cachorrinho de Simon (Greg Kinnear), seu vizinho homossexual (que ele também ironiza e solta suas farpas) e até contra as próprias mulheres.

Uma secretária da editora o questionou o que ele pensa quando escreve tão lindos textos sobre as mulheres.
E ele responde:
- "Penso em um homem, e elimino qualquer traço de racionalidade e lógica dele ”.
 
Melvin sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo.(TOC).
 
Pessoas com estruturas neuróticas e obsessivas evitam entrar em contato com seus sentimentos e emoções.(vivem como mortos-vivos )
Evitam até sentir desejos, pois isto pode significar não ser aceito, ele não quer o sofrimento de algo novo na vida, prefere continuar com o que já é, - e tem - , assim não corre riscos, - tem uma cena que ele diz que ele tinha sido despejado dele mesmo – na conversa com Simon- sobre Carol (Helen Hunt -encantadora no papel da garçonete)  quando pensou que ele não teria mais nenhuma chance com ela.
Pegar em alguma coisa, tocar o outro significa responsabilizar –se.
Quem tem este tipo de estrutura não suporta sentir culpa pelos erros.
E até pelos seus acertos .
Melvin  não gosta de elogios.
Nem de fazer.
Tampouco de receber.
Eles sempre atribuem ao outro estes sentimentos.
Evitam sentir... tudo.
 
O que cura um obsessivo é quando ele ama, pois amar é se deslocar de tudo que é seu.
E então, mesmo sem perceber , ele vai se deixando envolver por Carol com seu jeito franco, e o cuidado dela para com ele, aceitando-o como ele é(este é o ponto principal)
Pois ele faz das suas refeições um verdadeiro ritual.
Leva os talheres plásticos de casa.Come sempre a mesma coisa e quer sempre ser servido por ela, que além de tudo o  defende  do dono do restaurante pelos maus modos com que ele trata a todos - esta mulher espontânea-, que o deixa ser como é , a torna fascinante pra ele ...e a partir daí as cenas são fortes, intensas.
Quando ele confessa pra Carol:
-“Você me faz querer ser um homem melhor
 
A gente se arrepia.
Que cena mais linda!
Ao amar Carol ele se vê frente a frente com seu desejo... e o que acontece?
São atitudes ambíguas:
De um lado ele a repele (com ironias e sarcasmos típicos dessa estrutura clínica  –sarcástico é quem sabe que está errado, que errou o alvo, mas tenta enganar-se, é uma forma de autosabotagem, fantasia que é autosuficiente...e age sendo  sarcástico ou irônico pra se defender – de si mesmo-de seus erros- de seus fracassos não assumidos) e por outro lado ainda ele se condena por se deixar  entrar em contato com alguém(é como se ele perdesse o seu controle ) e por isto o que ele diz a Carol é exatamente o contrário do que ele quer, pensa – e  principalmente  deseja.
 
E ele vai  mudando gradativamente seu cotidiano e suas atitudes em nome deste amor.
- Ele  toca piano pro cachorrinho comer( que ele  já havia jogado na lixeira do prédio).
Levou o mesmo cachorrinho ao veterinário e ao caminhar com ele percebeu que ele também não pisava nos riscos nas calçadas – como ele (Melvin)- Isto o conquistou de vez.
Carol consegue torná-lo um homem mais leve, mais vivo e mais desejante.
Por ela e pelo cachorro, ele consegue até se afeiçoar e cuidar de seu vizinho homossexual – e deixar de lado seu preconceito.
Quando Simon agradecido diz que o ama, ele chega a dizer:
- "Eu seria muito feliz se fosse chegado "...(a ser homossexual)
 
O filme apresenta várias cenas de Melvin nos seus rituais diários próprios da sintomatologia de TOC:
- Ele lava constantemente suas mãos(ou usa luvas) e usa um sabonete de cada vez.
Há vários sabonetes todos organizados milimetricamente na prateleira.
- Quando ele arruma malas, organiza direitinho todas as roupas em cima da cama de uma maneira ordenada.
Ordenar é uma forma de controle.
Geralmente ordenamos as coisas para compreendê-las e aí dominá-las.
Ordenar - organizar exigem rituais, planejamentos.
É isto que Melvin queria.
Ter o controle externo (para proteger-se) do que ele não conseguia controlar internamente.
 
Por dentro ele era inseguro, tinha medo de perder-se de si mesmo, medo de morrer, e de viver.
Contar e organizar é uma forma de se distrair para não se prestar atenção ao fluxo incessante da vida.
É tentar fazer com que o que é dinâmico fique estático; é tirar vários instantâneos das cenas do filme da vida que passa a nossa frente.
É apreender a forma e não o movimento.
É querer parar, não se movimentar.
 
-Ele trancava e abria as fechaduras determinado número de vezes para ter certeza que realmente fechou.
Ao caminhar pela calçada, não pisava nas rachaduras.
Porque?
Porque a obsessão cria pensamentos.
Pensamentos que se pisar vai acontecer algo indesejável, pois pessoas com esta estrutura  são  perseguidos por idéias que lhe parecem não só estranhas e insensatas, e das quais  não conseguem  libertar-se, e tudo se apresenta como se fosse verdade.
Por exemplo, tem que fazer alguma coisa daquele jeito , com o ritual próprio, sob pena de uma pessoa morrer, ou acontecer alguma desgraça, ou simplesmente ser acometido de ansiedade extrema.
Então se estabelece  uma relação mágica com o mundo, como se o que ele faz ou pensa pudesse impedir ou provocar algum acontecimento.
Elabora, então, seus pensamentos de modo a formatar um sistema de significados, e seus atos, um sistema de cerimônias e ritos, apesar de que qualquer ação que pratique lhe deixa dúvida, obrigando-o a recomeçar do princípio.
Embora o filme não tenha mostrado este lado desta estrutura, são estes pensamentos angustiantes que provocam os rituais.(este é o pior “lado”de quem sofre com esta estrutura).
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Só que nem  todo mundo que cumpre rituais, ou é organizado demais é portador desta estrutura psíquica, não é um ou mais sintomas que vão diagnosticar alguém.
Quem de nós não tem seus melindres?

A angústia dos limites entre aquilo que sou e aquilo que o outro e/ou a sociedade quer que eu seja, torna-se um verdadeiro vilão pro nosso psiquismo.
Todos nós carregamos nossas manias, são as nossas cismas, as nossas paranóias.
O que deve balizar quando devemos procurar ajuda é a resposta a pergunta:
- Minhas cismas, meus rituais e minhas paranóias estão impedindo que minha vida transcorra normalmente ou o que faço e sinto atrapalha meu cotidiano de maneira importante, prejudicando o meu rendimento profissional e minha capacidade de me relacionar?
Se a resposta for não – então somos todos neuróticos sim, alguns mais, outros menos, alguns mais esquisitos , ou mais autênticos ou mais excêntricos.
Gosta de verdade de nós quem respeita nosso jeito de ser e de viver!
(Como Carol amava e respeitava Melvin- como ele era.)
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E nem todos os que possuem esta estrutura de TOC são mal humorados como Melvin,( a maioria não é, com certeza),  no filme isto foi amplificado até pra se perceber o impacto que o amor pode dar a uma vida.
É um filme sobre relacionamentos.
Os três personagens (Melvin, Simon e Carol) mesclam-se nas suas fraquezas, nas suas forças e nas suas imensas capacidades.
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Quando Carol percebe que seu filho está curado(pela ajuda de Melvin) - e que ela deixara agora de se preocupar com ele – então ela teria que agora olhar para si mesma- ela já não teria a muleta da preocupação do filho pra se esconder da vida.
Então ela se percebe carente.
Esta é uma cena importantíssima do filme.
Porque é normal... é comum acontecer isto conosco, e em nossas famílias.
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É tão mágico e simbólico a cena em que Melvin  percebe que pisou na linha da calçada...aquela na rua quando ele beija Carol.

E quando ele diz a ela:
- "Como você é especial em cada coisa que faz".
 
É isto que nós seres humanos queremos ser:
Especiais, únicos no que fazemos, no que somos.(apesar das nossas manias , do nosso jeito de ser).
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"Só aquilo que somos realmente tem o verdadeiro poder de nos curar"
(Jung)
 
Teresa 11.01.2010.
 
Esta resenha foi analisada tendo com substrato a Psicologia Analítica Junguiana do psiquiatra Suíço Carl Gustav Jung(discípulo de Freud)
 
Link de outras resenhas: (Para abrir pausar e clicar no mouse)


O voo-Filme sobre alcoolismo. Análise(resenha)Psicológica

O lado bom da vida-Filme sobre *bipolaridade*.Resenha(análise Psicológica)

Uma mente brilhante –filme sobre esquizofrenia


 


Maria Poesia
Enviado por Maria Poesia em 11/01/2010
Reeditado em 10/02/2013
Código do texto: T2022825
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Poesia
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