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Texto

Good Bye, Lenin!

                                  RESENHA CRÍTICA

1 FICHA TÉCNICA
Título: ADEUS, Lênin!
Título Original: Good Bye, Lenin!

2 SINTESE NA OBRA

Adeus, Lênin! tematiza as transformações experimentadas com a queda do muro de Berlim, o desmantelamento da União Soviética e a ascensão hegemônica do capitalismo globalizado.
Para melhor entender o drama vivenciado pelos atores, dissertarei, em breve síntese, o contexto em que os fatos foram abstraídos, senão vejamos:
Alemanha Ocidental era o nome com o qual ficou  conhecida  a República Federal da Alemanha entre 1949 e 1990. O Estado foi constituído a partir de três das Zonas de ocupação aliada da Alemanha, na sequência da Segunda Guerra Mundial. A outra zona de ocupação, soviética, constituiu um estado à parte conhecido como Alemanha Oriental. A Alemanha Ocidental também era frequentemente referida pela sigla RFA em oposição a RDA, a Alemanha Oriental.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os líderes dos Estados Unidos, Reino Unido e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) se encontraram na Conferência de Potsdam. Decidiram temporariamente dividir a Alemanha em quatro zonas de ocupação: Francesa no sudoeste, Britânica no noroeste, Americana no sul, e Soviética no leste. Em 1949 os três primeiros setores federalistas, foram agrupados formando a Alemanha Ocidental de governo capitalista, sendo que o último setor, referente a Alemanha Democrática, se transforma na Alemanha Oriental de governo comunista alterando o curso da história já que a capital Berlim permaneceria, até 9 de novembro de 1989, integrada ao setor democrático controlado pela Rússia.
Com a união, a cidade de Bonn, na Renânia, foi escolhida para representar a capital da Alemanha Ocidental sendo que o governo dos federados conseguiram manter uma posse de certa forma precária sobre parte de Berlim, igualmente dividida em zonas ocidental e oriental, que definitivamente situada em território da Alemanha Oriental, originou um corredor aéreo e uma rodovia internacional de ligação a essa parte ilhada.
Antes da década de 1970, a posição oficial da Alemanha Ocidental quanto à existência da Alemanha Oriental, de acordo com a Doutrina Hallstein, era de que o governo alemão-ocidental era o único democraticamente eleito e, por conta disso, representante legítimo do povo alemão, e qualquer país (com a exceção da URSS) que reconhecesse a existência da Alemanha Oriental teria relações diplomáticas cortadas com a Alemanha Ocidental.
No início dos anos 1970, a Ostpolitik de Willy Brandt levou ao reconhecimento mútuo entre as duas repúblicas. O Tratado de Moscou (de agosto de 1970), o Tratado de Varsóvia (de dezembro de 1970), o Acordo dos Quatro Poderes de Berlim (de setembro de 1971), o Acordo de Trânsito (de maio de 1972), e o Tratado Básico (de dezembro de 1972) ajudaram a normalizar as relações entre os dois países fazendo com que ambos se juntassem à ONU.
A queda do Muro de Berlim significou o marco da queda da Alemanha Oriental, que foi anexada à Alemanha Ocidental. A Alemanha de hoje é o mesmo Estado (mantém o nome de República Federal da Alemanha) agregando o território da antiga República Democrática Alemã. Os dois Estados adotaram a mesma moeda e alfândega em julho de 1990, a Alemanha Oriental foi dissolvida e anexada à República Federal da Alemanha finalizando a divisão oeste-leste, onde também foi perdido o sentido em referir-se a ela como "ocidental", bastando apenas o nome de Alemanha.
O Muro de Berlim (em alemão Berliner Mauer) foi uma barreira física, construída pela República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) durante a Guerra Fria, que circundava toda a Berlim Ocidental, separando-a da Alemanha Oriental, incluindo Berlim Oriental. Este muro, além de dividir a cidade de Berlim ao meio, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: República Federal da Alemanha (RFA), que era constituído pelos países capitalistas encabeçados pelos Estados Unidos; e República Democrática Alemã (RDA), constituído pelos países socialistas simpatizantes do regime soviético. Construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961, dele faziam parte 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Este muro provocou a morte a 80 pessoas identificadas, 112 ficaram feridas e milhares aprisionadas nas diversas tentativas de o atravessar.
A distinta e muito mais longa fronteira interna alemã demarcava a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental. Ambas as fronteiras passaram a simbolizar a chamada "cortina de ferro" entre a Europa Ocidental e o Bloco de Leste.
Antes da construção do Muro, 3,5 milhões de alemães orientais tinham evitado as restrições de emigração do Leste e fugiram para a Alemanha Ocidental, muitos ao longo da fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. Durante sua existência, entre 1961 e 1989, o Muro quase parou todos os movimentos de emigração e separou a Alemanha Oriental de Berlim Ocidental por mais de um quarto de século.[1]
Durante uma onda revolucionária que varreu o Bloco de Leste, o governo da Alemanha Oriental anunciou em 9 de novembro de 1989, após várias semanas de distúrbios civis, que todos os cidadãos da RDA poderiam visitar a Alemanha Ocidental e Berlim Ocidental. Multidões de alemães orientais subiram e atravessaram o Muro, juntando-se aos alemães ocidentais do outro lado, em uma atmosfera de celebração. Ao longo das semanas seguintes, partes do Muro foram destruídas por um público eufórico e por caçadores de souvenirs, mais tarde, equipamentos industriais foram usado para remover quase todo da estrutura. A queda do Muro de Berlim, abriu o caminho para a reunificação alemã, que foi formalmente celebrada em 3 de outubro de 1990. Muitos apontam este momento também como o fim da Guerra Fria.
Após a reunificação, quando a Alemanha passou a ter um aumento em seu potencial econômico, e também político, em decorrência da retirada das forças militares das quatro potências vencedoras, e após a dissolução do bloco controlado pela União Soviética, que diminuiu consideravelmente as ameaças oriundas do Leste, apresentam-se para a República Federal da Alemanha novas questões e prioridades.
Na condição de ator do cenário internacional, a Alemanha depara-se com cinco diferentes linhas de ação, que variam conforme ela atue como Estado isolado ou como Parte de uma concepção comunitária. A escala abrange os seguintes níveis: atuação como entidade nacional autônoma; atuação com base no apoio da União Européia (EU) ou de outros Estados; atuação com base na seleção de compromissos; atuação coordenada e harmonizada; e opção por uma atuação coletiva no âmbito da Comunidade Européia (CE) ou da União Européia (EU).
Não obstante, a reunificação ampliou o campo de atuação da Política Externa da nova Alemanha, a qual passará a apresentar o mesmo grau de importância em relação à política interna e de integração que o observável nos casos da Política Externa da França e do Reino Unido. A Alemanha se comportou como agente relativamente autônomo e atuante, por exemplo, com relação ao conflito que resultou no desmembramento da Iugoslávia, e aumentou sua participação nas atuações da ONU. Da mesma forma, sempre apoiou a integração européia por meio de novas iniciativas, embora as pesquisas de opinião pública demonstrem maior ceticismo com relação a Bruxelas, isto é, a Alemanha adquiriu maior influência e aproximou-se de outros Estados europeus de poder médio como ator nacional e coletivo.
Nesse contexto de profundas modificações, ou seja, em 1989, pouco antes da queda do muro de Berlim, a Sra. Kerner (Katrin Sass) tem um enfarte ao ver seu filho ser levado preso e presenciar cenas de brutalidade policial em repressão a uma passeata popular, enquanto estava a caminho de receber uma comenda nos 40 anos da República Democrática Alemã. Em coma, a personagem-mãe não se apercebe da queda do muro e suas consequências mais imediatas. Quando ela desperta, em meados de 1990, sua cidade, Berlim Oriental, está sensivelmente modificada. Seu filho Alexander (Daniel Brühl), temendo que a excitação causada pelas drásticas mudanças possa lhe prejudicar a saúde, decide esconder-lhe os acontecimentos. Enquanto a Sra. Kerner permanece acamada, Alex não tem muitos problemas, mas quando ela deseja assistir à televisão ele precisa contar com a ajuda de um amigo diretor de vídeos.
Adeus, Lênin! marca o ressurgimento do cinema comercial alemão após anos de um período glacial de pouco público e recepção fria dos críticos. O filme de Wolfgang Becker alcançou a impressionante marca de 6 milhões de espectadores e amealhou boas críticas de jornalistas, especializados ou não, e de setores da esquerda ou da direita. No Brasil, por exemplo, sites como do PSTU (parte cultural) e da Revista Veja fazem rasgados elogios ao filme, cada qual com seus motivos. O problema de Adeus, Lênin talvez resida neste consenso. Um filme político (com boas intenções?) que recebe boas críticas de setores tão distintos é motivo de preocupação com o discurso que adota ou com a inocência de quem o recebeu.
A fábula encantou a Alemanha e o mundo. Apesar do “grande” tema histórico que suscita (a Reunificação!) e das láureas que recebeu, o filme adota estratégias narrativas e estéticas convencionais. Logo após a reunificação, a ostálgia ajudou a colocar na tela uma espécie socialismo lúdico que existiria na Alemanha Oriental (Go, Trabi, Go! (1992) é um exemplo).
Em oposição a esse socialismo apareceu em 2006 A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, que aponta para um socialismo bem real e outro grande tema histórico (a Stasi). O cineasta alemão Wim Wenders escreveu em 1992, no Le Monde, que a considera a reunificação como “erro de montagem” e “que não teria sido feita pelo autor, mas pelo estúdio – todo o material bom teria sido abandonado no chão da sala de montagem”. A reunificação “não foi feita com material humano, a história e a linguagem das pessoas que haviam brigado tanto por isso, mas de acordo com uma outra lógica, a dos políticos da Alemanha Ocidental, que precisavam colocar a reunificação na tela muito rápido”. Wim Wenders chegou a um ponto que ajuda na análise de Adeus, Lênin! : a película não tem como objetivo principal fazer críticas à esquerda ou à direita, apesar de fazê-las, mas sim participar de um projeto de normalização das relações leste-oeste na Alemanha reunificada e de uma recepção sem tantos preconceitos da germaneidade (vide que o slogan da Copa de 2006 era “Time to make friends”). Isso por si só explica a grande aceitação do filme em diversos meios e o sucesso alcançado desde o lançamento.
Apesar desse adendo Adeus, Lênin! tem sua importância e seus méritos: consegue mostrar com excelência a marcha de um Estado sobre outro e como a Alemanha Oriental virou rapidamente peça de museu com todos os seus pontos diversos, transformando a RDA em uma espécie de zoológico ideológico. A cena que Lênin passa de helicóptero, dando o seu adeus, é interessante: nessa cena nos podemos tirar conclusões da rápida mudança da antiga pátria socialista ou como (dependendo da visão da pessoa) os comunistas eram iconófilos em relação aos seus líderes intelectuais. Adeus, Lênin! mostra que após a euforia da reunificação a Alemanha encontrou problemas para se acomodar a nova realidade. O filme ressalta valores familiares e a relação de proximidade entre as pessoas, que como já foi dito está em um contexto de melhor recepção do ser alemão no mundo.

3 REFLEXÃO CRÍTICA

A maior e melhor característica de Adeus, Lênin não é sua análise ou seu posicionamento crítico sobre a Alemanha que não deu certo, mas o carinho que o diretor mostra ao construir cada cena, ao apresentar cada personagem. O filme de Wolfgang Becker poderia recorrer ao estereótipo do filme de família, mas, ao contrário, abraça um realismo quase fantástico para falar de amor. Amor entre filho e mãe, sobretudo. Para ajudar sua mãe a se recuperar de um recém-saído estado de coma, o personagem de Daniel Bruhl, um ator surpreendente, resolve mudar a história. Ele restaura a Alemanha Oriental pré-derrubada do Muro de Berlim em depoimentos, vídeos forjados e vidros de pepinos em conserva. Tudo para evitar que a mãe, socialista de carteirinha - e ainda instável depois de despertar de um sono de sete meses, acredite que nada mudou. Mas sustentar um universo inteiro é complicado e o bom filho precisa fazer com que as mudanças na Alemanha aconteçam aos poucos. Aos poucos, Bruhl refaz a história e cria sua Alemanha perfeita. Comanda mudanças, abraça exilados e multinacionais. E o mundo de seus sonhos passados vai se tornando possível.
Wolfgang Becker quis retornar para sua Alemanha idealizada e fez essa viagem com carinho. A família protagonista revela um amor e um cuidado entre seus integrantes que pouco combinam com o estereótipo gélido do alemão comum. Daniel Bruhl comanda um elenco interadíssimo, onde quase todos têm seu destaque. Sua interpretação é tão despretensiosa e envolvente que torcer por sua personagem é obrigatório. Ao seu lado, Maria Simon, que foge das prisões de uma personagem maluquinha para nos entregar uma filha preocupada, e Chulpan Khamatova, com a namorada-enfermeira apaixonante. Mas Katrin Saß é quem tem a melhor cena do filme. Quando levanta da cama para olhar Berlim de perto, e vê Lênin voar sobre as ruas da cidade, a atriz representa um povo inteiro que viu seu passado de pedra ir embora pelos ares. Wolfgang Becker brinda ao fim das utopias, com delicadeza para não quebrar as taças.
A Alemanha hoje, uma república federal parlamentarista, certamente não era assim antes da reunificação, como se vê nos primeiros momentos do filme. Metaforicamente, Christine Kerner representa a Alemanha Socialista e sua resistência, na medida em que ela adoece, a social-Alemanha também perde seu poder, sendo unificada com o Capitalismo, consolidando-se, assim, na Alemanha, a Economia de Mercado.
Até mesmo Christine dá entender que passa pela transição no momento que deseja comer pepinos spreewald, dando ênfase, de alguma forma, ao consumismo, que é uma característica capitalista.
Tendo a mesma visão metafórica, vê-se que Alex tenta esconder de sua mãe, vestígios da atual Alemanha sem sucesso, ou seja, a raiz do socialismo não resiste à chagada do capitalismo e em seguida o socialismo (Christine) morre, deixando, para cada um, uma cinza de esperança da sua volta.
Mas ao mesmo tempo em que o filme idealiza o Socialismo, ele o condena, pois dá a idéia que o Socialismo é uma mentira no momento que Alex precisa mentir para sua mãe e cria, dessa forma, um socialismo dentro de um quarto da sua pequena casa, e num momento de recuperação de Christine, quando ela consegue andar essa mentira passa a ser desvendava, o que sugere que o socialismo é uma doença curável.
A partir de todos os acontecimentos do filme, fica uma imagem para cada um de que o Capitalismo pode não ser perfeito, mas que sem ele alguns de nossos problemas não são resolvidos e é ele quem abre nossos olhos, da forma mais ampla, para a realidade.
Vemos, então, uma crítica sutil aos processos que balizavam o regime da República Democrática Alemã, bem como ao atropelamento que marcou as primeiras horas da alardeada reunificação. A invasão do estilo de vida capitalista é retratada, por exemplo, através da súbita proliferação de artefatos que explicitam e atestam o consumismo: antenas parabólicas de TV, a implantação de marcas como Coca-cola, Ikea e Burger King, com o concomitante desaparecimento das habituais referências socialistas. Retrata-se ainda o papel do futebol como elemento de união nacional, o esvaziamento existencial e demográfico com a debandada de muitos dos antigos moradores da cidade e o estranhamento causado pela chegada de novos vizinhos, tão esdrúxulos aos olhos dos ossies , desacostumados do contato com punks, ravers e outros “alternativos” vindos do lado ocidental.
Luis Carlos Gontijo
Enviado por Luis Carlos Gontijo em 23/01/2011
Código do texto: T2746933
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Sobre o autor
Luis Carlos Gontijo
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 34 anos
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