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Jogos Mortais 1, 2 e 3 (Saw 1, 2 e 3 - Darren Lynn Bousman - 2004, 2005, 2006)

Acabo de ver o terceiro filme da franquia que começou com um filme de orçamento baixo, mas com um jeito maneiroso de refazer o gênero, tenso, perturbador e com um argumento bom. E suas seqüências foram decaindo como geralmente acontece com filmes feitos só pelo embalo do sucesso da primeira idéia.

Não que as seqüências sejam péssimas, mas são descuidadas pelo fato de não terem sido pensadas com mais afinco, cuidadosamente planejadas e como tudo que é feito as pressas acaba saindo com suas falhas, essas seqüências não fugiram à regra.

No primeiro filme vemos duas pessoas presas em um ambiente sujo, abafado e pequeno. Os dois acorrentados e sabendo-se parte de um jogo proposto pela pessoa que os colocou ali. O jogo consiste em cumprir uma tarefa e viver ou simplesmente morrer.

Todos os filmes giram ao redor dessa premissa e o que leva a diferença entre eles é a quantidade e qualidade das mortes, já que no primeiro filme vemos 3 pessoas envolvidas seriamente com o jogo, no segundo vemos oito e no terceiro mais pessoas que o primeiro.

Não vou me deter aqui em analisar os filmes, a edição frenética das duas seqüências, o clima meio moribundo dos filmes, nem pretendo me alongar muito em dizer que percebemos claramente que muitas vezes por se tratar de um ambiente reduzido a edição faz contraponto com a falta de tato do diretor para colocar-nos devidamente no clima da coisa.

Vou me deter principalmente na validade do argumento do Jigsaw, e não diretamente do filme, pois aqui podemos, ou não, considerar Jigsaw como um maníaco psicótico.

Jigsaw dá uma nova “chance” às pessoas. E aqui entra o argumento que torna sua política de reestruturação mental das vítimas falha, que vem a ser esse: onde alguém é testado e sabe-se de antemão, quase que com 99% de chance, que ele não vai passar no teste, que serventia tem? Essa é a premissa básica do horror a que as pessoas são submetidas e o público se identifica, e de mesma maneira torce para que morram a vim de ver como o “aparato” da vez funciona.

Há aqui uma dialética interessante que surge cada vez que alguém é submetido a um “teste” que é a dualidade vida/corpo bem diferenciada pelo maníaco. Ele submete a vítima a reavaliar o sentido da vida, mas fazendo de forma a mostrar que o corpo não significa nada, mutilando suas vítimas, ou obrigando elas mesmas a fazerem tal. Mostrando claramente que é, e aí entra bem o argumento, um doente mental. Já que para a perfeita vida, há a perfeita saúde, e uma vida boa sem um físico íntegro não já se configura como uma vida boa.

Ele exalta as características psicológicas das pessoas que passam pelo teste como características que fazem essas mesmas não aproveitarem suas vidas, não darem valor a ela. Coisa redundantemente contraposta logo que a vítima se vê em situação de perigo. Se não se valorizasse a vida ninguém lutaria por ela. Cabe aqui ao jeito maníaco de ver isso saber como que cada uma poderia fazê-lo de jeito mais eficiente.

Ou seja o argumento do Jigsaw não é válido por si mesmo, só é válido se levado em consideração o filme, que precisa de certa urgência, confusão da vítima que não sejam tão gratuitas assim, que tenham uma “explicação” do porque disso, mas esse porque é falho, pelo já demonstrado até aqui. O que é melhor explorado no primeiro filme, que põe duas pessoas com bastante tempo para pensarem, refletirem. E é por isso que, no primeiro filme, quando o homem serra a própria perna a coisa funciona do modo cinematográfico de forma esplêndida. Pois o publico já teve o tempo suficiente para se identificar com a cruel verdade, do mal aproveitamento da vida, e sofre conjuntamente com a pessoa que tenta de tudo para se redimir, inclusive se mutilar de forma tão brutal em prol de salvar sua família.

E com isso esse apelo se desestrutura nas narrativas dos filmes 2 e 3, pois não dão tempo algum para ninguém repensar de fato sua vida, seus motivos, o jogo em si e criar todo o contexto para que essa redenção e essa nova postura de visão sejam postas em prática efetivamente.

O próprio filme se trai e explica isso. Na terceira parte do terceiro filme Amanda perde o controle e diz claramente, considerei até com certa dose de humor, essa verdade “ninguém nunca muda”. Mas é lógico, pela lógica de como o jogo funciona, ninguém muda e ninguém vai mudar. E mesmo que uma pessoa mudasse não compensaria terminar brutalmente a vida de dezenas de outras.

Por esse motivo as duas continuações são meras fantasias do que o primeiro supôs conseguir ser. E só valem como prova irrefutável de que seqüências feitas só pelo dinheiro se esvaem de consistência. Que dizer de um filme/clipe que fica pronto em menos de seis meses? Contando com toda a parte de escrever roteiro, locações, estudos, fotografia, cenário, filmagens, edição final de vídeo e som, pós produção, efeitos e tal?

E que dizer do final se não ridículo digamos mediano do terceiro filme? O mais próximo que Jigsaw chegou de ser entendido, supor um relacionamento platônico entre ele e Amanda para justificar toda a carnificina do filme. Ele queria fazer com que ela se redimisse, repensasse, era sua prova definitiva. Realmente com esse argumento não se há de levar em conta o porque disso tudo, e definitivamente concluir que Jigsaw é louco varrido e não dar crédito a nada do que fez até então.

E ainda teremos o JG4. Jigsaw continua louco até no post mortem.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 23/11/2006
Reeditado em 23/11/2006
Código do texto: T299337
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz