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Vivemos eternamente dizendo adeus.
O espectro da despedida nos acompanha...
... e - inevitavelmente -para sempre na vida.

 
Dizemos constantemente adeus aos nossos sonhos.
Quantos de nós conseguimos aceitar que muitas das oportunidades da vida foram perdidas, que nunca mais poderemos voltar atrás? Que quando algo acontece, dificilmente podemos voltar a ser como éramos antes?
Poucos.
Um dos pedidos mais comuns nos consultórios psicológicos e psiquiátricos é:
 "-Doutor, queria tanto voltar a ser como era antes da doença, antes da morte, antes da perda".
 
Chico Buarque diz que a maioria dos nossos sonhos ficam extraviados pelo caminho. Quantos recomeços temos que deixar acontecer nas nossas vidas já que a morte, a mudança, a transformação, a profundidade, o aterramento, as perdas, nada disso parece caber na nossa existência. Pois tudo isso remete a um caminho contrário daquele da vida. A vida que sonhamos - e que queremos viver-é sempre intransitória, permanente, constante, leve, angelical e sublime.
 
Quando nascemos já temos a primeira perda do paraíso.
E no decorrer da vida vamos sucessivamente acumulando paraísos perdidos.
Então a gente vai se encolhendo para caber no tempo profano de nossas vidas, enquanto as perdas se esvaem no tempo sagrado.

 
É de como viver - e sobreviver a perdas - que o filme O Quarto do filho fala-ou grita-no personagem de Giovanni (Nanni Moretti) um psicanalista que sofre a perda do filho.

Ao assistir suas cenas sentimos sua dor.Seu personagem consegue transportar seu sofrimento para além das telas, e a tristeza que sentimos  chega a ser angustiante. Todos nós já perdemos de alguma maneira e, -talvez por isso, o filme nos pareça tão familiar, tão nosso. Nossas feridas (muitas vezes abertas ainda) estão escancaradas na tela na pele do personagem.

 
Dizemos adeus aos momentos felizes que vivemos junto de alguém que vai embora, dizemos adeus às pessoas que amamos e que a morte leva de nós.
Portanto, luto e perdas são parte da condição humana. A cada perda costuramos, tentamos cerzir os buracos, os vazios deixados na tessitura dos nossos relacionamentos.Os rasgos no nosso tecido existencial são devastadores já que o real –da vida- emerge.
O  isso que representamos como o que é intersubjetivo(o acontecimento em si).Só que - entre o isso e o eu-, há o Real, um abismo com todas as possibilidades abertas.No nosso” eu”, está agarrado a letra, como o isso, como algo representado, significado, mas o real é o eu que não é o meu e nem o seu, mas o nosso(o eu de todos nós), aquele eu conceito, Real, absurdo!E que Lacan tão bem fala quando pontua que “o real da vida é insuportável.”

Morte e perdas são reais e cabe a cada um dizer o nome que o “seu isso” tem.
Por isto que as formas de expressar a dor são tão singulares.
 
No filme ao retornar de um atendimento a um paciente Giovanni recebe a notícia que seu filho morreu acidentalmente mergulhando. A partir daí perde o rumo e um rol de culpas perpassam nele. É o que acontece com todos nós,quando  perdemos alguém, sempre nos sentimos culpados de alguma forma.
Ficamos pensando de que forma  poderíamos ter feito aquela pessoa mais feliz ou termos passado mais tempo com ela.Aconteça o que acontecer, sempre nos sentiremos culpados.
Freud, diz que na perda, a sombra do objeto recai sobre o ego.

Ninguém escapa ao processo doloroso, porém necessário e inevitável- de revisitar seus sítios internos -, resgatar as forças, enfrentar com coragem os medos, as carências e as expectativas não cumpridas.
Aceitar a transitoriedade da vida.A isto chamamos de luto, que deve ser vivido, esgotado em nós.Mesmo que doa, mesmo que desconcerte quem vive do nosso lado.Luto não elaborado produz bolores que podem contaminar toda nossa existência.

 

"Cada vez que sentimos nossa respiração, afastamos a morte que nos espreita, mas (...) No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar.” (Schopenhauer).
 
Vamos terminar a resenha do filme O Quarto do filho, cantando juntos?
 
...é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã...
 
 
Maria. Poesia 17.07.2012
...
 
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Maria Poesia
Enviado por Maria Poesia em 17/07/2012
Reeditado em 22/12/2013
Código do texto: T3782622
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Poesia
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