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A vila, a caverna

1897. Um cenário isolado, com todos os moradores vivendo tranquilos; uma sociedade sem erros, com partilhas e alegrias. Esse é o cenário do filme "A vila" (The Village, 2004), dirigido por M. Night Shyamalan.
Tudo está muito bom, até que determinado dia, os moradores da vila percebem que o bosque ao redor de suas casas esconde uma raça estranha, criaturas perigosas chamadas de "Aquelas de Quem Não Falamos".
O medo toma conta dos habitantes da vila, que decidem jamais entrar no bosque. Dentre eles, um rapaz tem vontade de ultrapassar os limites da floresta e ver o que há no desconhecido. Lucious Hunt é apaixonado por Ivy Walker, filha do líder do grupo (Edward Walker). Outro rapaz também nutre uma paixão pela jovem: Noah Percy. A paixão de Noah põe à prova a vida de Ivy.
A história se desenvolve na vila e pela vila. Os personagens têm medo de sair de lá, por não saber qual o monstro que vive na floresta. E também não se arriscam. O jovem que deseja ultrapassar os limites da vila sofre um atentado, cometido por Noah. O noivado de Lucious com Ivy é o suficiente para Noah perfurar - algumas vezes - o corpo de Lucious e deixar o rapaz em coma.
O remédio para salvá-lo está além da floresta, na cidade. Aí entra Ivy, a menina cega que é mais forte que todas as outras pessoas. Seu pai, professor e líder do grupo, aceita seu pedido de ir à cidade e explica para ela que tudo não se passa de uma ilusão. Não há nada na floresta. Há muito tempo ele (o pai) havia escrito uma história, contando essa lenda e, juntamente com os outros anciões, fez com que seu povo acreditasse nela. A menina descobre que os sons, grunhidos e perigos eram fantasiosos, feitos pelos próprios cidadãos da vila e o motivo principal para tal era a perda de familiares e pessoas próximas às famílias, na cidade. E isso os levou a decidir criar uma nova sociedade, afastada do que aparentemente era ruim.
Sabendo disso, Ivy vai pela floresta com mais dois rapazes de guardiões, que logo a deixam só. E ela segue o caminho, pelo rio, como seu pai havia lhe pedido. Em meio a tantos desafios, a menina se encontra o monstro. Noah, vestido com uma roupa da cor proibida (vermelho), tenta alcançá-la. Ivy corre e para perto de um buraco, esperando pelo monstro. Quando ele se aproxima, ela, num gesto sutil, move-se para o lado e ele cai no buraco, morrendo. Depois de conseguir ir à cidade e voltar para a vila, Ivy entrega os medicamentos e diz que cuidará de Lucious.
Sentada na cadeira da sala de aula, comecei a perceber semelhanças com a famosa alegoria de Platão. A vila – ou a caverna – era um lugar liderado por um ex-professor universitário, que viveu e sofreu na cidade, decidindo voltar para a caverna.
As semelhanças são muitas: o muro alto separando o mundo externo e a caverna (nesse caso, a vila). Na floresta, vê-se o bosque, mas nada mais do que isso, do que a luz que perpassa. E na vila, os humanos que nasceram e cresceram ali.
Um dos prisioneiros (Ivy) se liberta – com a ajuda do pai – e vai, aos poucos, se movendo em direção à luz, passando, com dificuldade, por obstáculos durante o caminho e escalando o muro.
A personagem principal da trama volta à caverna e não diz nada a respeito do que há além do muro, já que o contato visual não existiu. Se ela contasse, ou todos a chamariam de tola, mentirosa, seria ignorada ou, mais drasticamente, morta.
Digamos que há um pouco de Platão nessa trama. Os símbolos, bem colocados, fazem dele – apesar de não ser o meu estilo preferido – um bom filme para pensar a respeito da sociedade e das cavernas em que estamos e as que nos envolvem.
Marília Carreiro Fernandes
Enviado por Marília Carreiro Fernandes em 25/04/2013
Código do texto: T4258173
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Sobre a autora
Marília Carreiro Fernandes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 24 anos
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