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"UM GOLPE DO DESTINO"

FICHA TÉCNICA
Gênero: Drama
Título original: "The Doctor"
Direção: Handa Haines
Escritor: Robert Caswell
Baseado no livro de Ed Rosenbaum
Produção: Laura Ziskin: 1991 - EUA
Música: Michael Convertino
Fotografia: John Seale
Edição: Lisa Fruchtman e Bruce Green
Elenco: Lynn Stalmaster
Desenho de Produção: Ken Adam
Direção de Arte : William J. Durrell Jr.
Figurino: Joe I. Tompkins
Tempo: 122 minutos

ELENCO
William Hurt .... Dr. Jack MacKee
Christine Lahti .... Anne MacKee
Elizabeth Perkins .... June Ellis
Mandy Patinkin .... Dr. Murray Kaplan
Adam Arkin .... Dr. Eli Blumfield
Charlie Korsmo .... Nicky MacKee
Wendy Crewson .... Dr. Leslie Abbott
Bill Macy .... Dr. Al Cade
J.E. Freeman .... Ralph
William Marquez .... Mr. Maris
Kyle Secor .... Alan
Nicole Orth-Pallavicini .... Sarah
Ping Wu .... Jay-Jay
Tony Fields .... Roger
Brian Markinson .... Michael
Maria Tirabassi .... Lonnie
Ken Lerner .... Pete

PRODUTORAS
Silver Screen Partners IV
Touchstone Pictures

DISTRIBUIDORAS
Buena Vista Pictures
Gativideo
Warner Bros.

SUMÁRIO:
Dr. Jack MacKee, um famoso cirurgião trabalha ativamente junto com sua equipe, talentoso, porém “esterilizado”, isto é, sem grandes emoções, frio e distante em relação aos seus pacientes, são casos clínicos apenas, com números para cada caso, e as fichas são detalhadas. As doenças devem ser tratadas, operações devem ser realizadas.  Em casa com a família ele também se torna com o passar dos anos um homem arredio e solitário, sem interagir com sua mulher e com o seu único filho, seu trabalho ocupa a maior parte de seu tempo, descanso e lazer não lhe faz falta.
Este médico onipotente e arrogante acaba por se tornar paciente do hospital em que trabalha, devido a um tumor em suas cordas vocais, é atendido por uma médica do mesmo naipe que ele, com características semelhantes às dele e a reação dele durante este processo de passagem de médico a paciente, é algo que mudará sua vida, sua maneira de perceber o ser humano, a vida, e a medicina.
Sua negatividade em aceitar sua condição, as regras básicas do hospital, as normas, as falhas existentes no sistema como um todo, o atendimento, a convivência com outros pacientes e em especial com uma amiga que morre devido a um tumor mal diagnosticado no cérebro, toda esta experiência acaba por lhe ensinar muito sobre a vida e sobre o ser humano, esta experiência que no começo é vista por ele com desagrado, lhe serve como reflexão sobre o sofrimento, sobre a dor, sobre a perda, amizade, solidariedade ,sobre sua profissão, ética, sobre como é se encontrar na condição de paciente e não de detentor do saber, e mais ainda, a sua tomada de consciência sobre limitações, limites, e sobre a substancialidade do que seja a vida é mais importante para a vida dele do que propriamente ficar curado do rumor. A cura é importante , mas esse aprendizado, o convívio com outros pacientes em igual condição o faz despertar para a importância do afeto e da compaixão, alterando radicalmente seu comportamento como médico.
 Portanto, tornando-se vital para além da cura, ele não só extraiu um tumor, ele extirpou a indiferença, a onipotência e a arrogância, ele ficou curado , se tornou humano.
Um filme elogiado pela crítica e que reúne novamente após o sucesso de Filhos do Silêncio, a diretora Randa Haines e o brilhante Willian Hurt. Uma história emocionante que é retratada com doses exatas de sensibilidade e de bom humor.
 
DESENVOLVIMENTO:

PARTE (A): REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA NA SAÚDE E A PERDA DA AUTONOMIA MÉDICA
Ser médico nunca foi fácil, mas cada vez mais está se tornando uma questão de alto risco em todos os sentidos, são modernas técnicas que chegam a todo o momento aliadas aos mais recentes conhecimentos pretendidos e esperados, numa velocidade espantosa, cada vez mais se exigem aparelhos modernos, técnicas inéditas, exigências cada vez maiores em todos os campos da Medicina.
 A tecnologia alia-se a um trabalho cada vez mais prático e rápido, a organização alia-se a produção de conhecimento e resultados imediatos, tudo tem que ter e ser lógico, as decisões e as condutas no tocante ao dia a dia dentro de um hospital deve ser dentro de parâmetros lucrativos e não dispendiosos.
Aliado a este quadro megalomaníaco, o trabalho de quem trabalha em saúde, de todos os profissionais da saúde, tem se tornado exaustivo, mal remunerado pelo sistema de saúde que além de roubar dos profissionais em horas trabalhadas, ainda lhe causa problemas em relação às burocracias que impedem muitas vezes procedimentos médicos necessários.
Esta medicina fragmentada, explorada tem que ter em seu corpo, médicos bons, que salvem vidas, sem problemas pessoais ou financeiros. Devem ser super homens , esta maneira de perceber a Medicina e o médico ou o corpo médico dentro de um hospital é extremamente irracional, errônea e prejudicial tanto ao próprio corpo médico, quanto aos funcionários do hospital, como aos pacientes que são atendidos.
O médico é uma pessoa como outra qualquer, tem dores de barriga, briga em casa, se desentende na rua, se engana, erra, comete falhas, e querer ainda que este mesmo médico trabalhe sem remuneração adequada, é querer que ele seja uma espécie de ‘Messias’, o sacerdócio tem limites, até mesmo os padres recebem pelo seu trabalho. Querer que um profissional da saúde dê todo o seu sangue , é querer deixar o hospital vazio, e com pacientes para fora de suas alas, as portas se fecham por falta de clínicos, especialistas, e o sistema de saúde remunera mal este profissional, a equipe de trabalhadores da saúde ainda é mais mal paga do que os médicos, quando não faltam medicamentos, estrutura física adequada, equipamentos necessários funcionando.
Existe uma contradição enorme entre os dois pólos da saúde, uma rica, endinheirada, repleta de alta tecnologia sendo utilizada no dia a dia e do outro lado uma pobre, sem  condições de ter um esparadrapo no armário, aparelhos indispensáveis aos exames básicos de saúde faltando ou quebrados, faltam medicamentos como aspirina e iodo.

PARTE (B): REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA NA SAÚDE E A PERDA DA SAÚDE NA MEDICINA
A jornada de trabalho dos médicos é absurda, insalubre, falta condições de trabalho, totais, para um trabalho que deveria ser o de primeira ordem, bem alicerçado e organizado e não tão aviltado e denegrido.
Vivemos o ápice de uma contradição planetária, a tecnologia em alta, e a fome matando, aparelhos de última geração nos maiores hospitais do planeta e médicos trabalhando em locais que nem hospital tem, e por amor a vida e ao ser humano, se doando para salvar vidas, um ideal abençoado, abnegado, mas absurdamente vulgarizado.
Os médicos estão ficando doentes, estão quase que do mesmo lado da cerca que os seus pacientes crônicos, sem verbas , sem dinheiro, sem salário digno, muitos com problemas graves de saúde, depressão, vítimas de suicídio, alcoolismo, de abuso de substâncias, inclusive as psicoativas, sofrem de distúrbios alimentares, realizam plantões em cima de plantões sem descanso, sofrem de doenças cardiovasculares, abusam do fumo e sofrem de neoplasias.
Médicos e profissionais da saúde ficam doentes, o filme retrata a realidade norte-americana de uma maneira amena, mesmo diante de problemas semelhantes aos nossos relacionados aos planos de saúde, mas no Brasil,  um pais de terceiro ou quem sabe já de quarto mundo os médicos permanecem doentes e ficam restringidos de falar que estão doentes, precisam cuidar dos pacientes, é um “agonizante cuidando de um quase morto”, como similaridade tem-se a semi- analfabeta que ensina a ler e escrever em determinadas regiões do norte e nordeste brasileiros. Ainda tem quem considere fantástico tal coisa porque poderia ser pior, então deste modo, qualquer coisa serve, afinal se tem alguma coisa.

PARTE (C) : A SAÚDE INSTITUCIONALIZADA
É corriqueiro casos de médicos, que diante de alguns sintomas, consultam amigos, colegas especialistas, pessoalmente ou por telefone, às vezes, sem mencionar que é deles que estão falando, assim, medica-se por orientações ou sugestões sem saber quem de fato está doente.
O mesmo ocorre com os alunos de Medicina que indagam aos seus professores sobre sintomas e doenças e na verdade, são deles que estão falando, é um policiamento absurdo, como se fizessem treinamento ou “lavagem cerebral” para serem Deus, não é por acaso que  a maioria dos médicos se julgam meio deuses, autoritários, quando na verdade são seres humanos  com problemas e questões as vezes até mais graves que seus pacientes.
Estar doente é um papel assumido socialmente, implica em sanções, procedimentos, recusas, gratificações, e para um médico aceitar este papel de encontrar-se nas mãos de outro médico, passa a ser meio indigno, aviltante, transgride um orgulho, se institucionaliza a saúde como um dever obrigatório e indefinível.
A passagem de tratador da saúde para paciente da saúde implica em perda de uma certa identidade, é como se fosse uma quebra de protocolo, rompe-se  um ciclo, o médico quando adoece ,perde inclusive seu papel social daquele que cura, que pode curar, ele passa a entrar  em acordo com a sua outra parte, com a parte que ele enxerga em seu trabalho, o outro doente agora  é ele, ele ocupa o lugar que não quer estar, ele como um deus não deveria ficar doente, passa a existir um certo mal-estar no hospital, e um certo constrangimento para o médico.
Existe uma lenda que conta que Esculápio (O Mito do Esculápio) aprendeu com Chiron a dominar as ervas medicinais e tratar de todos no vale onde residiam, a questão é que Chiron tinha uma ferida aberta, por causa de uma flecha envenenada, e essa ferida ficaria para sempre aberta. Aí reside toda a contradição e todo o mistério da CURA: aquele que está sempre curando encontra-se doente ou ferido e sem poder aliviar suas dores.
Quem procura a Medicina como profissão adquire ao longo dos anos uma carapaça dura para poder lidar com as dores, sofrimentos intensos, com a morte, e a rotina de um hospital é tratar doenças, o tempo inteiro o corpo médico está em contato com as fraquezas orgânicas, humanas. Mais uma contradição enorme, aquilo que deveria fazer sentido e fazer do médico um ser humano mais afável e sensível, uma vez que ele percebe que está do mesmo lado que o outro, apenas momentaneamente é que estão do outro lado da mesa, mas que uma hora como médicos estarão todos se consultando com outro ser humano igual a eles, com sangue nas veias e lágrimas nos olhos, porém  a contradição é que é justamente para poder agüentar a vida sofrida, os machucados, os sofrimentos , as perdas e as dores atrozes é que eles se tornam “frios”, e “insensíveis”, vestem-se de “máscaras de ferro”, e cobrem-se  de “leite e mel” ao saírem do hospital, fingem que deixaram num outro mundo as dores e os sofrimentos, mas não, carregam cm eles, a nossa “mala” sempre carregamos conosco onde quer que vamos, “podemos correr , mas não nos esconder”.

PARTE (D): O MILAGRE DA VIDA
Lidar com a tristeza e com a fragilidade humana, não é simples, é muito delicado e complexo, contraditório .O médico é o Xamã, é o feiticeiro, aquele que afasta o perigo e inibe a morte, o imaginário social onde quer que seja, em qualquer cultura , tem o seu Xamã, seu deus que salva, suas poções milagrosas.
No filme o Dr. Jack MacKee assumiu o mágico feiticeiro, ambicioso, ativo, competitivo, individualista, na ilusão de que estaria á salvo das doenças, ou quem sabe de sua humanidade. Porém quando ele se viu doente, ele se frustra e enxerga a realidade, a realidade de sua humanidade, enxerga que ele é tão humano quanto qualquer um.
Quando se percebe humano, reflete, e sabe portanto que necessita ensinar aos outros esta vivência reflexiva, fora da “esterilização” dos livros e das “teorias mitológicas” sobre Medicina.
Ele percebe que a prática médica é mais que simplesmente técnica, é mais que procedimento, é mais que diagnóstico, é mais que a mais avançada tecnologia de ponta, é mais que até a própria cura. O Dr. Jack MacKee percebe a Medicina, a real, ela é um exercício de se refazer humano na práxis mesma da sua humanidade, é a partir daí que ele aprende a saber perdoar, a pedir e a falar com coragem seus sentimentos como “eu preciso de você”, a dizer, “estou triste”.  O ditado, "O médico é o pior paciente" tem tudo haver com o mito criado e propagado.

PARTE (E): O MITO UNE O INSCONSCIENTE COLETIVO
 Às vezes o mito salva, outras vezes ele dilacera, mitos devem ser perpetuados, a sociedade necessita de seus mitos, eles servem para uma construção importante de identidades, de papéis, e é real que estamos perdendo de vista nossos mitos, abandonando, negando, mas também é verdade que no lugar dos saudáveis mitos estamos divinando alguns outros mitos que estigmatizam, que pervertem o seu próprio mito, torna-se seu algoz, não é libertador e sim escraviza as mentes e corações, perpetuando uma falsa felicidade ou uma falsa mitologia que afasta em vez de aproximar os seres humanos. Mitos são importantes como possibilidades infinitas de reunião de pessoas, pensamentos, coesão, e eles devem servir ao papel de unir o inconsciente coletivo.

PARTE (F): A TROCA DE LUGAR
Trocar de lugar é fazer da dor de cabeça mais simples um tumor maligno inoperável, médico enfermo e raciocinando sobre o diagnóstico acaba mais doente. Existe ainda um complicador enorme, o médico doente detém algum conhecimento , mesmo que sua doença não seja a da área de sua especialidade, mesmo não sendo a sua especialidade, ele se torna mais arrogante do que é, menos compreendido pelos seus colegas por não estarem em seu lugar naquele momento , por não estarem vivenciando esta troca de lugar, então a rigidez , a percepção unilateral, as atitudes egoístas são de lado a lado.
A reação do Dr. Jack Mackee ao se tornar paciente, ao entrar em contato com outros pacientes com dificuldades também enormes, com suas dores pessoais, além das suas próprias, faz com que ele inicie seu exercício de se refazer humano, ele consegue sair então de si, faz uma amiga , esta experiência mais esta amiga o faz despertar para a importância do afeto e da compaixão, modificando substancialmente seu comportamento como médico e como transformador de uma realidade caótica, preconceituosa e ineficaz em muitos sentidos, principalmente no sentido humano do termo humano.

PARTE (F): SIMILARIDADES E DIFERENÇAS
Quando descartamos o lado humano , aquele que interage, damos margem ao aparecimento
da depressão e da ansiedade; do alcoolismo e do abuso de nicotina e barbitúricos
O que se percebe dentro dos hospitais brasileiros é que os médicos são tratados diferentemente e passam na frente dos pacientes, mesmo sendo um deles, os demais esperam a sua vez, já no filme o médico teve que aguardar, isto fez com que pudesse fazer uma reflexão, e transformar um universo patológico em um universo saudável, por se tornar humanizado, o que não ocorre geralmente aqui no Brasil,
Normalmente os médicos orientam bem seus pacientes e eles próprios são desleixados, mas quando necessitam de outro profissional da saúde , a sensação de uma espécie de vergonha, uma fragilidade imensa , uma dificuldade absurda em aceitar-se como humano, vem à tona, e  ocorre dos dois lados , existe entre o médico-paciente e o médico-curador um camuflado mal-estar.
Podendo muitas vezes o constrangimento ser tamanho que em vez de ajudar a solucionar o problema de saúde acaba piorando , como se o não-dito tivesse que ficar mesmo no não-dito, e não sendo esclarecidas as devidas situações a doença se agrava em vez de melhorar.
O orgulho leva a um diagnóstico em muitas ocasiões errôneo e o tratamento inadequado, a onipotência subverte a cura. No caso do filme, a cura subverteu o mito.
No filme, o Dr. Jack Mackee se comporta como paciente especial, exigindo tratamento especial, favorecendo uma reação de desagrado por parte de toda a equipe, (médicos, enfermagem, e demais colegas) ele se sente então abandonado e briga, mas é devido a uma ética, a uma rotina, a uma organização não muito bem organizada e principalmente ao “saborear do seu próprio veneno” é que ele pode refletir sobre o que seja a vida e sobre o que seja ser humano e a partir disso reformular a realidade numa base emancipadora.

PARTE (G) : CONCLUSÃO
O médico é e deve ser um transformador da realidade. A transformação é fundamental,  equipes deveriam ser  implementadas como um programa contínuo de aprendizagem contínua , é nisto que consiste as mudanças para melhor, uma Medicina sem estigmas, sem carapaças, uma Medicina sem medos.
Intelectualizar discussões sobre saúde e sintomas não ajudam no tratamento adequado e sim escamoteiam os reais objetivos, o maior deles, a cura das doenças de todos os homens.
O médico na situação de paciente, além de ter que se preocupar com a sua saúde, tem a questão de sua moral e auto-estima que devem ser levadas em consideração, primeiramente por ele próprio e depois pelo corpo médico “educado” no sentido de avaliar as reais situações e transformar na práxis concreta e real a história do ser humano médico, do ser humano que trabalha em saúde, da saúde do ser humano total, a que liberta, que emancipa do jugo dos mitos que devastam e empobrecem o imaginário social.


Márcia Valéria
Enviado por Márcia Valéria em 15/04/2007
Código do texto: T450047

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Sobre a autora
Márcia Valéria
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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