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A história de Alex




                                           Terezinha Pereira



_ Olá! Sou Alex. Abro as cortina desse palco para lhes contar uma história. Não é uma história com as outras. É a minha história. Começando...
Era uma vez um Natal... Olho para baixo, ao pé do palco e vejo o  bruxulear de velas. Velas e fogo.  Até nesse Natal,  costumava estar feliz. A casa onde vivo é, de sempre,  cheia: meu pai Oscar, minha mãe Emília, minha irmã Tati, minha avó Helena, a melhor de todas as avós, tios, primos, e gente do teatro. Um grande palco. Essa é uma  morada de  muito riso. Era.
Depois da ceia, é o que me ocorre,  vi meu pai cair. Fazia uma cena de Hamlet. O palco era a parte principal da casa da avó. Eu não tive coragem de  segurar a  mão de meu pai enquanto ele  agonizava, nem logo a seguir, quando se acabou, a murmurar  que, do outro mundo, estaria  atento com a  família. Não posso afirmar que ele havia morrido exato naquele momento. Sei que,  depois desse dia, o tive  perto de mim, diversas vezes, vestido com a roupa de sempre e me dizendo coisas... Falando de Deus.
Recordo. Tinha eu afeição  para o circo. Poder viver cada época num lugar. O trapézio, esse era o símbolo maior de meus desejos. Quase como poder voar. Que de errado falar,  para meter inveja em alguém, que eu havia sido vendido para um circo? Custou-me caro.  Minha mãe soube dessa minha não verdade e logo foi pedir conselho ao vigário. Logo a ele, aquele homem que se via como endireitador de pessoas. Num instante,  veio me espremer com um  interrogatório sobre falso ou verdadeiro. Não é difícil distinguir entre a verdade e a mentira.   Enquanto isso eu considerava. Quem poderia ser o dono da verdade? Ou da mentira?  Respondi ao padre  que mentimos quando não queremos dizer a verdade. Ele me esquadrinhou, com aquele seu olhar de sabedor. Nunca admitia respostas às suas perguntas. Por que não escolher dizer a verdade? _retruquei com palavras. Mentimos para ter vantagem.- completei.  Com esse caso do circo tive de  pedir perdão à mãe pela mentira... Eu que apenas sonhava... Sonhar é igual a mentir?  No final da semana após aquela  inquisição,  mãe comunicou que iria se casar com o  irmão do vigário. Isso é que devia ser uma mentira. Mãe havia se curvado às palavras do padre que, em favor dos bons costumes, incutiu-lhe que mulher como ela, corria risco demais em viver sozinha. Como poderia ela, sem um companheiro, fazer com que os dois filhos seguissem o caminho reto, o da verdade? A casa de Vó Helena era cheia de gente de teatro, de gente que convivia do outro lado da verdade... Casa inadequada para criar filhos como Tati e Alex.
Após o casamento, tivemos, os três, de sair de casa  de Vó. Não nos foi permitido levar nada, nenhum livro, nenhum brinquedo. Pior ainda,  foi ter de largar para trás a alegria. Um sair  do amor para abraçar a dor.
Não posso jurar sobre a bíblia, que via, que ouvia coisas. Mas, coisas me vinham à cabeça e eu ansiava falar  sobre elas. Confiei na Justina, uma empregada da casa. Justo nela. Sabia que o  marido de minha mãe era um  viúvo  que perdera mulher e duas filhas de forma trágica. Falei com Justina  de uma visão que tive, a mulher do padrasto fugindo de casa com as filhas. A imagem que passei à Justina  foi de um afogamento num rio, meio a um redemoinho.  A mãe saltou no meio da roda formada nas correntes e  abraçou as duas filhas que iam pelo escoadouro de água gelada. Quando encontraram os corpos, as três  eram um único bloco,  que teve de ser serrado para serem postas no caixão. A justa Justina, que estava sentada à nossa mesa do quarto, comendo do nosso jantar,  saiu num pulo só. As chibatadas do padrasto vieram a seguir. Mortificação que tive de escolher. Não quis o piriri do rícino nem o porão por alguns dias. Levei as chibatadas e ainda o porão, com a promessa de uma única noite. Para que eu escolhesse, de sempre, a verdade. O padrasto era mesmo que o  irmão padre. Vi quando  mãe chegou e tirou-me de lá. Correndo ela mesma  o risco de levar chibatadas...
Tempo e espaço não existem, já foi dito. Repito. Recordo da barriga de mãe. Lembro de uma arca  misteriosa, onde alguém colocou Tati e eu para escaparmos daquele cativeiro, daquele quarto onde só podia entrar Justina, a delatora. Dei por mim num teatro de marionetes. Ah, um teatro! Cores, movimentos,  risos. Renascemos. Uma das vezes em que vi meu pai foi nesse teatro. Pai, Deus existe? Estaria o senhor  morando ao lado de Deus? Nesse momento, pensei em  Tati. Por que, era ela, de sempre,  tão muda? Não teria ela incertezas, desconfianças, nenhuma indagação a fazer? Por que sempre aceitou todas as penas como se lhe fossem devidas?  Um dia  tive uma visão enquanto cochilava no teatro de marionetes. Um fogaréu. Um fogo consumindo o irmão do vigário.  Não senti nem dor, nem prazer. Foi alívio. O incêndio deveras aconteceu. Mãe havia oferecido ao marido uma bebida com sonífero. Havia planejado  fugir daquela  casa, apesar da barriga, para viver conosco. Por uma coincidência, veio o fogo. A justa Justina se descuidara de um  candelabro que acendia todas as noites para fazer suas preces. O candelabro caiu no tapete seco da sala e o fogo se espalhou pela casa. Nesse momento,  o homem que se comprazia com as dores dos outros dormia pesado. Não escapou.  Extinguiu-se. Corpo e alma. Suponho.
_ Lembram de mim? Sou Alex. Ora, há  uma festa em casa de Vó Helena. De novo, é Natal. Outra vez, o  teatro está vivo. Ao pé do palco, vejo o bruxulear de velas. Na peça, o tio Cláudio acaba de morrer. Eu ganhei outra irmã. Parece risonha e feliz. Nesta casa, ser feliz é sempre uma possibilidade. Espero que, quando crescer, a caçula  não seja  silenciosa como  Tati, nem  cruel como o irmão do vigário.

( A voz de Alexander, inspirado em “Fanny e Alexander”, 1982,  do diretor Ingmar Bergman)
Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 29/11/2005
Código do texto: T78364
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
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