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SIDEWAYS

SIDEWAYS,  de Alexander Paynes,EUA 2004
 
FLAVIO MARTINS PINTO

Mais um filme americano cheirando a marketing. Claro, marketing de um produto que oficialmente já conquistou o mundo: o vinho californiano. Como sempre, vou daqui, procurando tirar as  minhas lições.
A primeira é a de que um bom amigo, melhor dizendo um amigo( bom amigo é redundância), ou uma amizade verdadeira, quanto mais avança no tempo melhor. Um amigo verdadeiro não te exige nada nem pede. Apenas surge naquelas horas cruciais. Aí ele se manifesta com tudo o que tem de bom e do melhor. Na maior parte do tempo o amigo permanece em silêncio, na dele, apenas aguardando a oportunidade de atuar e mostrar todo seu apreço. Assim como o vinho após seu descanso na adega até ser servido. Lá não se permite a quebra de sua tranqüilidade.
O fascínio de Miles  por vinhos, especialmente o Pinot Noir, tem explicação no estudo desta vitis vinífera peculiar e que origina os melhores vinhos conhecidos. Mesmo tendo frutos pequenos, de cor azulada profunda, seu líquido é abundante e incolor, servindo de base aos inconfundíveis vinhos da Borgonha e Champagne. No entanto, escurece no contato com o mosto  durante a fermentação gerando os tintos incomparáveis que tanto conhecemos.
Este filme bem que poderia se chamar AMIGO É COISA PRÁ SE GUARDAR ...como diria o Milton Nascimento ou COMO MENTEM OS HOMENS.
Vinho e amizade não se usam nem se consomem de qualquer forma. Não é bem assim que se vai para consumir um vinho, claro, um de classe. Tem toda aquela frescura de mostrar o rótulo, retirar a rolha, servir, encher o copo de modo adequado, etc etc etc..Veja quanta semelhança com a amizade! Sabemos que o verdadeiro amigo não te enche o saco nem te perturba indevidamente. O relacionamento também deve seguir o ritual do vinho: não é simplesmente chegar, abrir a garrafa e entornar! Antes tem todo processo de escolha, iniciando pela sua preferência: tinto ou branco? Não é sair com o primeiro(a) que passa, não é? Paremos para pensar e vejamos quanta semelhança de uma garrafa de vinho com a amizade. Desde vinho de qualquer pipa, como vinhos comuns, daqueles de 5 reais o galão aos de mais de mil a garrafa. Ambos são confeccionados de modo peculiar. Porquê será que tenho mais respeito e carinho com fulano e/ ou sicrana? Porquê os franceses de Bordeaux ou Languedoc são melhores do que os vinhos de Jaguari? Nada contra a produção de Jaguari, mas o que tem em torno dos franceses são séculos de preparo dedicado, espera, terreno  e clima propícios ás viníferas.
Mozart, o grande Mozart, dizia que cada garrafa de vinho é como um filho! Uma bebida sagrada, sensível, peculiar e motivo de adoração.
E aí destaca-se a Pinot Noir: uma uva que transita nos excelentes brancos e tintos da Champanhe á Borgonha, e até em Palomas. Não podemos esquecer que a Almadén ensinou aos brasileiros como cultivar, apresentar e beber vinhos finos. Não poderia vir de outro lugar este ensinamento: da Fronteira da Paz. E lá, a Pinot Noir se dá muito bem.
E assim é o Pinot Noir, o vinho-ator principal de SIDEWAYS, a motivação da amizade de Miles e Jack, dois amigos de larga data, perfeitamente harmonizados. Pareciam uma verdadeira champagne com suas explosões de espumas, mas que logo se amenizavam  nas bolhas características da fantástica bebida, ou sua amizade. Ou então, misturando-se, como o mosto, escurecendo com a personalidade ora de Maya ora de Stephanie, em assemblages perfeitos, ou quase.
Vinho é coisa séria, amizade é coisa séria e ambos tem de ser tratados com a sensibilidade adequada e suficiente para não matar a mistura. Não é com toda segurança do mundo que se fazem assemblages com a Pinot Noir. Uma varietal frágil, delicada, muito sensível a adaptação e doenças, assim como a amizade pode sofrer com fofocas.

FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 01/01/2006
Reeditado em 13/02/2008
Código do texto: T93230

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
530 textos (94075 leituras)
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FLAVIO MPINTO