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Resenha O Manifesto Comunista

UM FANTASMA RONDA A EUROPA

“Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo.”

Com essa célebre afirmação, no dia 21 de fevereiro de 1848, Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o que viria a ser um documento histórico de afirmação da ideologia comunista, estudado em todas as épocas subseqüentes para uma melhor compreensão tanto do comunismo quanto do capitalismo, como seu principal antagonista.

O texto é revolucionário e em muitas partes irônico, com o intuito de denunciar o regime capitalista e incitar o proletariado descontente a lutar contra ele. A liga dos comunistas pretendia, através do texto de Marx e Engels, na época com 30 e 28 anos de idade respectivamente, deixar claras as idéias que defendiam, bem como dissipar concepções errôneas e pejorativas a respeito do comunismo, as quais eram espalhadas aos quatro ventos pela Europa, por aqueles que dele discordavam e a ele temiam.

O documento organiza-se em introdução, três capítulos e conclusão. Denuncia inicialmente o medo com que as classes dominantes (os burgueses conservadores da época) viam os comunistas, como aqueles que vinham para ameaçar a ordem que se impusera, de lucro e exploração, com declarações polêmicas do tipo “no lugar da velha sociedade burguesa uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada membro é a condição para o desenvolvimento de todos." Temiam e ainda temem o comunismo, aqueles que tremem à simples menção do termo “divisão igualitária”.

 No primeiro capítulo os autores procuram esclarecer de que maneira se organizam as relações de trabalho no sistema capitalista. Na visão Marxista, toda a história da sociedade humana é impulsionada pela luta de classes sociais, e as revoluções são sempre marcadas pela rivalidade entre elas, sendo, essencialmente, uma que explora e outra que é explorada. Assim, procuram demonstrar como o sistema capitalista torna essa rivalidade ainda mais ferrenha e acirrada, baseando o modo de produção num sistema de exploração não disfarçado, mas declaradamente assumido, visando o lucro como fim em si mesmo, como objetivo maior a ser perseguido a qualquer custo.

Neste ponto observamos como o Manifesto continua atual, sendo as palavras de Marx e Engels facilmente aplicáveis aos nossos dias. Mais de um século e meio depois, o regime capitalista só fez aumentar ainda mais a diferença social entre as classes, aumentar a pobreza, diminuir as condições de vida dos que trabalham para atribuir riqueza aos que exploram. Deixa explícita a idéia de que para que os ricos existam, é preciso existirem os pobres. E que o Estado é tão somente um comitê organizado para defender os interesses da classe dominante, em qualquer sociedade.

A globalização e a explosão tecnológica a que somos expostos são apenas outra roupagem para o que o Manifesto declarou como “as maravilhas da burguesia” - ”remendo novo em odres velhos.” Ao declarar como a burguesia revolucionou a sociedade, não está, definitivamente, tecendo um elogio ao capitalismo, mas alertando sobre como este sistema conseguiu mexer com as estruturas sociais de um modo antes nunca visto, alterou todas as relações entre as pessoas, até mesmo as familiares, fazendo com que os indivíduos, embora presos como escravos às novas necessidades criadas pela burguesia para viabilizar o comércio, tenham uma impressão de liberdade, uma sensação de crescimento, de prosperidade e igualdade de oportunidades. É o liberalismo lançando suas teias. O neoliberalismo de hoje só faz reproduzir a mesma ideologia em outro contexto, ainda mais cruel e frio de mais valia, de lucro fácil a qualquer preço, ao custo de vidas humanas, da indignidade de uma imensa maioria em favor do luxo de uma casta cada vez menor.

Perdem os homens suas relações familiares, perdem suas propriedades afundados em impostos que não lhes voltam em benefícios, perdem o direito de usufruir dos frutos de seu trabalho honesto, sem, no entanto perder a convicção de que são livres. Afinal, o que significa ser livre? A idéia de ter mais que seu vizinho é que lhe faz sentir-se livre? O acúmulo de bens dos quais só se necessita no imaginário, é que lhe torna livre? Estas e outras questões são trazidas à tona no texto, que pretende com essa reflexão, desmascarar a falácia da ideologia capitalista de “igualdade de condições para todos”. Ou seja, o sol nasce para todos, certamente. Ocorre que esta é uma visão muito simplória de um sistema complexo, e a idéia é essa mesma, embaçar a compreensão. Porquanto que, quando o sol nasce, enquanto uns se fartam no banquete do desjejum, outros não têm nem o pão para garantir energia necessária a mais um dia de trabalho. Não se come o pão, no entanto compra-se a televisão. O computador. O mp3, o tênis, a tinta de cabelo. Esta é a ideologia mentirosa do neoliberalismo. Morro mas compro. E pago feliz.
No segundo capítulo os autores pretenderam desmentir as infâmias lançadas sobre o comunismo, que fizeram com que as pessoas o temessem como a um fantasma, um ladrão pronto a roubar-lhes os bens e a liberdade individual, e situam o partido comunista não como mais um partido operário, mas em favor de todos os operários, da classe proletária em geral. Exemplifica também, de que forma a liberdade e a individualidade defendidas a ferro e fogo pela burguesia não passam da liberdade e do interesse da própria burguesia, e não do proletariado, o qual trabalha e consome para garantir os interesses burgueses, e apenas estes.

“Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem.” Deste modo, seguem afirmando que a suposta liberdade, a propriedade privada, a nacionalidade e todas as outras premissas do capitalismo não passam de quimera, onde o que realmente prevalece é o direito de compra e venda, para alimentar os interesses burgueses, enquanto do resto até o direito à vida lhes é tirado. Segundo Marx, o proletário não pertence a si mesmo. Não passa de mais uma propriedade da burguesia.

É quando alista as medidas que se fazem necessárias para a implantação do regime comunista, que o Manifesto passa a receber suas mais duras críticas. Quando menciona a expropriação de terras, a abolição do direito de herança, o confisco, o trabalho obrigatório, bate de frente com nossos anseios mais profundos, e causa estranheza e repulsa à nossa mente ocidental consumista. Muitos autores condenam esse tipo de medidas, alegando que o autoritarismo, o abuso de poder e a ambição são sempre mais fortes que as ideologias.

 Um exemplo deste tipo de pensamento é George Orwell, indiano de família inglesa, em sua obra “A Revolução dos Bichos” de 1945,onde faz uma crítica ao regime stalinista, demonstrando através de uma fábula, de que forma podem se tornar perigosos os assim chamados “regimes igualitários”, à medida em que a ambição suplanta o idealismo.Orwell não se levantava contra o comunismo, mas contra o abuso de poder e manipulação da boa fé dos mais humildes. O livro ironiza o governo Lenin /Stalin mostrando que quando o interesse pessoal é colocado à frente, tais regimes tornam-se instrumentos poderosos de manipulação em massa. Isto porque, como acompanhamos na História, para manter esse tipo de organização em vigor, as fórmulas mais usadas são o uso da força e a ignorância do povo. Sob o ponto de vista ético, portanto, o Manifesto pode ser questionado, tendo como base os regimes ditatoriais dos séculos XIX e XX, segundo Zéu Palmeira Sobrinho, juiz do Trabalho da 21ª Região (RN), mestre e doutor em Ciências Sociais, professor de Direito do Trabalho da UFPB, membro do Grupo de Estudos do Trabalho da UFRN, que afirma também:
 ”No curso da história humana as revoluções que se utilizaram da violência transformaram-se em regime de terror e de tirania. Por outro lado, a humanidade tem obtido avanços importantes ao exercitar a democracia e o pluralismo político. O exercício democrático, longe das meras louvações ao formalismo da "democracia burguesa", expõe as contradições capitalistas e, além de avanços sociais, possibilita a crítica em relação à compatibilidade entre o capitalismo e a democracia.”
Um outro ponto pelo qual Marx também é questionado é o fato de ter simplificado demais as relações de trabalho no sistema capitalista, debruçando- se apenas sobre os dois extremos – capitalistas e proletariado- relegando assim, outras classes da sociedade a segundo plano, como a classe média. Hoje em dia, não seria tarefa fácil analisar as relações sociais puramente pela ótica Marxista do século XIX, pois vimos surgir outras relações de trabalho, como os prestadores de serviços e setores importantes da agricultura.

Podemos concluir, portanto, que tanto o comunismo quanto o capitalismo carregam suas contradições. Sendo assim, não pode ser, um ou outro, defendido como sistema perfeito ou ideal para esta ou aquela sociedade, pois ambos apresentam pontos obscuros e questionáveis, que merecem ser ainda objetos de estudo e reflexão.

No capítulo final, Marx e Engels passam a criticar, ironicamente, o próprio socialismo, em suas várias manifestações, e a literatura socialista corrente nos vários países da Europa. Acusam as várias ramificações do socialismo de serem contaminadas por influências externas contrárias à própria filosofia deste, e citam o socialismo feudal, o socialismo clerical, o socialismo pequeno-burguês entre outros, acusando-os de manipular a essência socialista e comunista em favor do interesse de derrubar a burguesia para, eles próprios, levantarem-se em nova dominação. A burguesia também se apropriou desta filosofia, tentando usar seus preceitos para acalmar os ânimos do proletário. Queriam as idéias do socialismo, porém sem o caráter revolucionário que lhe são inerentes. Tentativa condenada e desmascarada pelos autores, de “atenuar a luta de classes e conciliar os antagonismos”.

A obra em si trata-se de um discurso inflamado, que conclama a classe trabalhadora a unir-se contra o jugo da injustiça e da exploração.

  Karl Heinrich Marx, filósofo, cientista social e revolucionário socialista, nasceu em 5 de maio de 1818, na Alemanha. Publicou, dentre outras, a obra “O Capital”, que até hoje tem caráter científico e atual. Seus escritos e suas teorias modificaram a forma com que encaramos as relações sociais. Este personagem histórico faleceu em Londres, Inglaterra, em 14 de março de 1883, deixando uma legião de seguidores e defensores de seus princípios, o que persiste até os dias atuais, e sua influência é sentida não somente no campo da Sociologia, mas também na História, Filosofia e Economia. Encontrou em Friedrich Engels além de um colaborador, um amigo leal até o fim de seus dias.

Engels nasceu em 28 de novembro de 1820, filho de um importante industrial de Barmen, Alemanha. Sensibilizado com a pobreza e o sofrimento dos oprimidos, aderiu às idéias de esquerda, o que o fez aproximar-se naturalmente de Marx, a quem ajudou e custeou muitos projetos. Escreveu algumas obras em parceria com Marx, bem como outras sozinho, como ”Princípios Básicos do Comunismo”, de 1847.  Estas palavras Engels declamou no velório de seu amigo Karl Marx:

Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições estatais por estas suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar.
(...)
Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Governos, tanto absolutos como republicanos, deportaram-no de seus territórios. Burgueses, quer conservadores ou ultrademocráticos, porfiavam entre si ao lançar difamações contra ele. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de aranha, não tomando conhecimento, só respondendo quando necessidade extrema o compelia a tal. E morreu amado, reverenciado e pranteado por milhões de colegas trabalhadores revolucionários - das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da Europa e da América - e atrevo-me a dizer que, embora, muito embora, possa ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo pessoal.


Uma amizade ligada, até o fim, por ideais em comum e admiração mútua.

Enfim, o Manifesto Comunista é, ao mesmo tempo, histórico e atual, contraditório e autêntico. Um dos documentos de maior influência em todo o mundo. Não podendo, talvez, indicar o caminho para o fim dos males de nossos dias, contribui certamente para suscitar um espírito crítico e ampliar a visão embotada da imensa maioria a respeito de sua própria condição na sociedade vigente. Cumpre o seu papel de emocionar e conclamar para a batalha, em sua efervescência apaixonada. Senão para provocar as mudanças exteriores que propõe, ao menos para modificar de dentro para fora. É um texto curto, sucinto, direto. Mostra a que veio e dá o seu recado sem reservas. Dissipa mal-entendidos e esclarece idéias preconceituosas a respeito do comunismo. Se seus conceitos são viáveis atualmente, difícil responder. Nem mesmo os cientistas políticos o sabem. Estaria nossa sociedade preparada para abdicar a tal ponto de seus bens privados em benefício do todo? Nossa mentalidade individualista estaria tão cristalizada que atingimos, talvez, o ponto de onde não há retorno? Certamente que a maioria concorda com as idéias apresentadas por Marx e Engels no Manifesto, no que tange à exploração do trabalho. No entanto, para esta mesma maioria, o que existe ainda, longe de um anseio sincero de igualdade, é a velha e muitas vezes infalível sabedoria popular: ”O que é seu, é nosso. O que é meu,é meu.”























Suzana Nunes
Enviado por Suzana Nunes em 19/06/2008
Reeditado em 21/04/2009
Código do texto: T1041681

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Suzana Nunes
Volta Redonda - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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