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OS FATORES RELACIONADOS À APRENDIZAGEM, AO FRACASSO ESCOLAR E À EDUCAÇÃO ESPECIAL

Introdução

     Alguns aspectos relevantes são abordados no contexto psicopedagógico, quando “...no século XX, Durkhein, contribui de certa forma para o estudo científico da sociedade quando qualifica o fato social, como sendo uma coisa, e que para estudá-lo, seria necessário um conjunto de métodos e processos baseados em experimentos empregados nas ciências exatas. Durkhein congrega “...o fato social à maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior...”. Compreende-se que o fato social exerce uma função subliminar sobre o comportamento humano, a própria vida em sociedade, que deve ser de forma coletiva, abandonando-se desta maneira, os sentimentos de individualidade e as manifestações pessoais.
     Isto também se faz presente, na conceituação da Psicopedagogia, em Lakatos, que compreende as características de um fato social como sendo: a exterioridade como fundamento às experiências individuais; a coercitividade: sobre o fato e a sua condição sobre o indivíduo e por último, a generalidade: que parte da consciência coletiva ou o conjunto de maneiras de agir, de pensar e de sentir.
     Outro conceito não menos importante, trata o fato social como a busca da relação deste mesmo com um fim social, considerando os fenômenos sociais não apenas como resultados úteis, mas, como determinantes da própria condição social.
     Na visão de Garcia, “...para que a escola cumpra o seu verdadeiro papel, deve ser encarada como um lugar de vida, de alegria, como fonte de sucesso, realização pessoal para os alunos e também pessoal e profissional para os professores”.

Contexto Psicopedagógico

     Os professores, principalmente os da rede pública estão em contato com alunos diferentes, seja nas capacidades e necessidades. Alunos normais, saudáveis, doentes, portadores de várias dificuldades, carências tanto alimentar, quanto social e outras inúmeras mazelas. O professor por sua vez, continua diante de um desafio: a mudança de postura, até porque, o profissional não aprende ou discute os trabalhos feitos com alunos que tenham dificuldades e ou os denominados de classes populares.
     Sylvia Figueiredo Correa no artigo, Revista Educação, questiona para que serve a Escola? Dizendo o seguinte:

“...a escola em todo mundo representa o saber, a cultura, o caminho para o ingresso na sociedade, no mundo do trabalho, a possibilidade de manutenção ou ascensão social...”

     Compreende-se que a escola funciona como um instrumento motivador da relação social e a sua relação para com o próprio ser social á a vida em sociedade.
     Por isso, evidente se faz ressaltar que o saber advém da participação voluntária do aluno. Um ser coagido e limitado jamais poderá contribuir para o crescimento coletivo. A inteligência humana deve ser analisada como instrumento de interação social, embasada na cooperação mútua, criando e possibilitando condições para o desenvolvimento intelectual pleno.
     Sendo assim, é importante compreender o processo de construção e o tipo de implicações envolvidas na aprendizagem, não o considerando como um processo imediato, mas advindo da complexidade na condição de sujeito e a sua interação com a realidade física e social ao seu redor.
     
Aspectos Fundamentais – Psicologia e Alfabetização

     O entendimento da questão aqui citada passa por um rápido resgate do contexto psicopedagógico. Assim, no conteúdo aqui estudado, pelo menos dois aspectos merecem destaque:
     O primeiro diz respeito à imperiosa necessidade do estudo aprofundado da relação entre psicologia e educação face à grande influência da psicologia no direcionamento das questões educacionais.
     No Brasil, em especial, essa relação se prenunciou nas primeiras décadas do século XX, precisamente nas décadas de 20 e 30.
     Nesse contexto, pode-se admitir que a autora faz uma alusão à difusão de conceitos das diferentes teorias psicológicas como responsável pela garantia das modificações na prática pedagógica do professor, frente ao processo de ensino-aprendizagem.
     Assim, a alfabetização é considerada como sendo uma das áreas que maior influência recebeu da psicologia, conforme Soares, numa revisão crítica de produção acadêmica nacional sobre a alfabetização, no período de 1956 a 1986. Sua análise aponta a predominância da Psicologia como referencial teórico em todo o período estudado.
     Esta análise suscita que é necessário estabelecer elos de ligação entre as concepções teóricas e a prática docente. Evidencia que a prática dos conhecimentos na área de alfabetização é caracterizada por uma postura prescritiva orientando a ação do professor na sala de aula, propondo a aplicação de conceitos e teorias psicológicas à prática educacional.
     O segundo, por sua vez, ressalta que a formação docente provém de uma realidade distinta, ou seja, preservando os mesmos fundamentos conceituais e, embasada numa lógica que concebe a realidade como um campo de aplicação da produção de conhecimentos oriundos das várias ciências básicas, em cujo contexto, Gemino Sacristan enfatiza:

“...a prática tem pouca importância enquanto fenômeno preexistente, a não ser na perspectiva de uma regulação (correção) baseada no conhecimento científico”.

     Esta visão do contexto psicopedagógico pressupõe que ao simplificar a ação docente, como uma aplicação técnica dos conhecimentos científicos, perde-se a capacidade para transformar as práticas escolares consideradas ineficientes ou de pouca qualidade, uma vez desconsiderada a riqueza do trabalho do professor que é o elemento que dá vida aos métodos e propostas curriculares em sala de aula.
     Portanto, tal posição defendida espelha o papel ativo do professor no processo de ensino-aprendizagem, uma vez que a aprendizagem estimula o desenvolvimento e não pode ser considerado um aspecto alheiro a este resultado.
     Nesta compreensão, a autora enfatiza que as relações entre Psicologia e Educação se completam, sendo o conhecimento produzido na educação fundamental como ampliação do conhecimento psicológico sobre a criança.
     A Educação, entretanto, não desconsidera o modo de pensar do ensino pré-escolar, como exemplo, mas exorta o papel do professor na observação da criança, mensurando àquilo que ela pode oferecer como facilitação do ensino-aprendizagem.
     Vygotsky por sua vez, salienta que o principal mérito das novas investigações foi revelar a complexidade do processo de desenvolvimento cultural da criança e possibilitar à educação compreender a complexidade de sua função, naquilo que antes concebia como um caminho simples e natural a ser percorrido.
     O conceito de alfabetização assume uma conotação mais ampla para a teoria histórico-cultural e não uma aquisição mecânica da leitura e da escrita.
     A conceituação de Wygotsk aborda que a psicologia, quando não cumpre sua função como ciência ou teoria, deixa os professores à mercê de sua própria experiência ou intuição, legitimando não um pensamento crítico e reflexivo, mas um pensamento que tem por base o senso comum.
     Numa abordagem a ação do professor alfabetizador e o embasamento teórico como referencial no qual se evidencia a compreensão da alfabetização funciona não como um processo de aquisição pessoal, mas como um processo de inserção social e cultural.

Aspectos Psicológicos – Distúrbios de Aprendizagem

     Muitas vezes a criança apresenta distúrbios de aprendizagem que dificultam o seu desempenho, ocasionando o baixo rendimento nas atividades e, também uma desordem emocional.
     Esses fatores, por sua vez, são determinantes para o comportamento da criança, todavia, representam como de suma importância para a psicologia e principalmente, da educação.
     Por sua vez, em alguns casos o problema dessas crianças é resolvido pela própria escola. Em outros um professor particular se mostra eficaz, é o que prevê Souza.
     Neste contexto, os fatores psicológicos tornam-se difíceis de serem trabalhados, uma vez que os professores, por vezes, não possuem a fundamentação teórica, um profissional da área que os dê suporte e são constantemente cobrados no tocante ao vencimento do conteúdo programático.
     Muitas crianças são vitimadas pela auto-estima negativa, o que agrava em muito a situação no convívio escolar.
     A família, por sua vez deverá estar engajada, numa relação mais próxima com a escola, para que a formação dessas crianças aconteça de forma ampla, até porque, os professores alegam ingerência, na maioria das vezes, diante dos aspectos conflitantes, seja de ordem familiar, religiosa ou social.
     O fracasso escolar pode ser entendido como uma manifestação dos conflitos internos, provocando a oposição à escola, tendo resultados negativos, tais como: inibição intelectual; desvio de conduta; atitude agressiva ao colega, dentre outros.
     Para Bourdieu, uma relação de comunicação lingüística ou de interação verbal entre amigos, pais e filhos, professor e alunos, entre outros, não é simplesmente uma operação de codificação-decodificação ou de relevância de grau de domínio que cada um tem da linguagem, mas é, fundamentalmente, uma relação de força simbólica determinada pela estrutura do grupo social em que ocorre a comunicação, ou seja, pelas relações existentes entre os interlocutores determinadas pela posição de cada um na estrutura social, sua situação econômica, idade, sexo, prestígio profissional, dentre outros.
     Dentro de uma relação de interação verbal, entretanto, são inúmeros os fatores que influenciam e moldam o resultado da aprendizagem e algumas crianças apresentam dificuldades na escola. Bernstein afirma que tais dificuldades podem ser entendidas, a certo nível, como a confrontação entre ordens de significação, relações sociais e de valores diferentes.
     Wells, no entanto, preconiza no que se refere aos anos que precedem a escola, a criança engaja-se em atividades de muitas espécies que surgem dentro das rotinas da vida diária em casa ou que ocorrem naturalmente como eventos ou situações de seu interesse.
     Todavia, os autores incitam que os problemas surgidos na transição família-escola se devem ao fato de que a criança entra numa instituição que foi planejada com a finalidade específica de estender seus conhecimentos e habilidades em direções pré-determinadas, isto é, a criança se descobre num ambiente social com outras crianças coordenadas por um adulto, com a tarefa de assegurar o progresso coletivo face aos objetivos estabelecidos pela sociedade em geral.
     Numa outra condição, numa experiência diária informal, a comunicação diária no interior da família e do grupo de amigos, cria procedimentos e realizações formais para a educação formal, isso implica a transição da família para a escola.
     A escola, por sua vez, conforme Bourdieu está cumprindo a sua função de manter e perpetuar a estrutura social, a discriminação entre as classes, as desigualdades e a marginalização.
     Na visão de Bordieu, independente da condição social das crianças, ou seja, de pertencerem à zona urbana e serem mais orientadas para uma linguagem elaborada do que as crianças da zona periférica, o índice de reprovação doa alunos da zona urbana está concentrada naqueles cuja orientação lingüística é menos elaborada.
     Em suma, as escolas urbanas reprovam àqueles alunos que não possuem o capital cultural e lingüístico por elas requisitadas. Desta, forma, o autor enfatiza que a própria escola perpetua a discriminação dessas mesmas crianças.
     Não se pode deixar passar despercebida a importância da linguagem trazida pela criança na transição da família para a escola e o papel da escola, atuando como interação verbal capaz de formar a consciência das crianças.

Aspectos Sociais – Educação Especial

     A autora chama a atenção para o desenvolvimento cognitivo das crianças. O desenvolvimento mental é tido como finalidade própria de qualquer sistema educacional.
     Aprender a aprender é inteiramente possível aos portadores de necessidades especiais, até porque, o organismo humano é um sistema aberto e sistêmico e a inteligência só pode ser concebida como um processo interacional, flexível, prático, dinâmico e auto-regulado.

     A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sob o nº 9.394/96, no seu capítulo V, que trata da Educação Especial, diz.

“Art. 58 – Entende-se por Educação Especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais:

Parágrafo 1º   Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender as peculiaridades da clientela de educação especial.

Parágrafo 2º     O atendimento educacional será feito em classes ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns do ensino regular”.

     Conforme a autora, a escola tem como compromisso ético, a preparação de cidadãos capazes de assumir responsabilidades no futuro, ou seja, enquanto instituição, a mesma tem papel preponderante se insere num contexto que não se limita apenas à pedagogia.
     Todavia, vale ressaltar, que a prática educativa é tido como um processo social amplo constituído por um complexo de atividades envolvendo as apresentações sociais, na construção de condutas sociais dentro de uma sociedade cada vez mais democrática, mais justa e igualitária.
     Os professores, por sua vez, são frutos das prescrições pedagógicas que aprenderam, consolidadas pelo bom senso e transmitidas pelos mestres no magistério. Entretanto, existem àqueles interessados num trabalho docente inovador, capazes de moldar as práticas pedagógicas adequando-as à realidade.

Aspectos Educacionais – Integração

     Fonseca, como Mestre em Educação, diretor em educação especial e reabilitação, revê a teoria do aprendizado dentro da perspectiva da sensibilização, chamando a atenção do corpo docente na adoção sistemática da chamada EER – Educação Especial de Reabilitação, como forma da contribuição do professor ao assumir o papel da educação aliado à reabilitação total dos seres humanos dentro de um contexto social e cultural.
     A integração é parte incondicional no combate à deficiência, ceticismo e pessimismo educacional, como benefício imediato educacional e social para a criança portadora de alguma necessidade especial.
     Valente, por sua vez, analisa as disfunções intelectuais nas crianças especiais tanto do ponto de vista teórico, como prático. O mesmo aborda a literatura sistemática e indicada a tratar a população de crianças portadoras de uma determinada necessidade especial de forma homogênea e coletiva e, não apenas um indivíduo categoricamente.
     Isto implica, em poucas palavras, quão importante é o papel do professor e a constante inovação do ensino-aprendizagem, em que os professores passam a ser agentes de formação e não meros coadjuvantes.
     Por outro lado, a autora enfatiza que os professores ou educadores que lidam com a Educação Especial, devem demonstrar um profundo conhecimento das competências pedagógico-profissionais no ensino regular.
     Em suma, professores que atuam nesta área devem se reciclar diariamente, para que a eficácia e competência no ensino especial possam ser relevantes sob o ponto de vista da educação.

Conclusões

     Conforme citado pela autora (pg. 61) o enunciado contempla os fatores que interferem no aprendizado da criança levando-a ao fracasso escolar e a um ensino especializado.
     Dessa forma, a abordagem do contexto histórico, não pode ser considerado subjetivo, uma vez que norteia o próprio desenvolvimento do assunto abordado: os diversos fatores que compreendem o uso sistemático da psicologia na educação, dentro de uma visão otimista que perfaz a necessidade do agente (professor e/ou educador) ao promover uma educação de qualidade, calcada sobretudo, na adoção de mecanismos capazes de dimensionar, analisar e diagnosticar os diversos problemas no Ensino Especial, seja quanto aos distúrbios de comportamento do aluno, na inserção de procedimentos peculiares, visando basicamente a integração do educando à escola e, principalmente à vida social.
     O papel do professor deve ser encarado, de acordo com a autora, não como apenas um desafio, mas, principalmente como oportunidade, seja na constante reciclagem de conteúdo programático, ou simplesmente na adoção de técnicas modernas não obstante a formação peculiar dentro do conhecimento científico.
     Assim, entendida a perspectiva psicopedagógica no contexto educacional, a formação deste profissional é de fundamental importância, para o próprio envolvimento profissional, uma vez que o Ensino Especial demanda um constante desenvolvimento de atributos dos professores face aos processos de aprendizagem, pensando em educação com equidade social.

Críticas

     Cabe aqui alguns poucos comentários e reflexões:

     Particularmente, aprendemos que a escola exerce um papel sumariamente importante na formação do cidadão e a sua preparação para os desafios do mundo moderno. Evidente, contudo, a visão dualista de uns poucos profissionais que atuam na área. As diferenças são expressivas, presentes fortemente no espírito arraigado dado ao trabalho e os ganhos advindos deste. Por vezes, o valor dado ao trabalho, à profissão em geral, se interpõe aos próprios métodos de ensino-aprendizagem e interferem sistematicamente no progresso do profissional, resultando em prejuízos para o educando.
     Entretanto não se descarta a formação do professor / educador e sua constante atuação na escola. Acreditamos que não se observa nos dias de hoje, a idéia e o conceito de vocação ao trabalho como um componente de vida ofertado por Deus.
     Esta afirmação num sentido crítico perfaz a condição do professor como agente de transformação e, não simplesmente como indivíduo acostumado a cumprir horários, apegado a modismos e resistente a métodos inovadores de ensino, capazes de revolver as práticas pedagógicas comumente difundidas por autores diversos.
     Convém, de certa forma, fazermos uma análise objetiva dos parâmetros curriculares quando se fala em Ensino Especial e, principalmente abordagens sistêmicas no ensino-aprendizagem, como contribuição para que professores e educadores integrem-se às famílias, comunidades e demais participantes, na condição de sujeitos, de fato, deste processo.

Referência: “Aspectos Relevantes para o Diagnóstico e Atendimento Psicopedagógico da Criança com dificuldade de Aprendizagem”. LEITE, Nícia Helena - Florianópolis – 2002. Pós-graduada em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Mestre em Psicologia das Organizações – Defendeu tese com ênfase no tema, alvo dessa resenha.



Marco Oliveira
Enviado por Marco Oliveira em 23/06/2008
Reeditado em 18/09/2011
Código do texto: T1047262
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