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DO SILÊNCIO DO LAR AO SILÊNCIO ESCOLAR (Eliane Cavalleiro)

Fazendo uso de um portentoso aforismo do mestre Paulo Freire logo na abertura de sua Introdução, a autora deste livro fino, mas substancioso, aqui nos interpela sobre fatos verossímeis que atingem uma parcela importantíssima da população, que às vezes imaginamos imunes às manifestações de racismo: as crianças. Mais especificamente: as crianças em idade pré-escolar. Quero dizer, a criança em sua sedenta absorção do experimento e do saber.

Advogo que a pesquisadora foi muitíssimo feliz pela sua originalidade, como também pela instrumentação e logística utilizadas com destreza no seu campo de pesquisa. Outro fato a ser exaltado(e muito), é a facilidade de comunicação proporcionados por sua escrita densa (mas leve), fluida (porém não líquida, escorregadia), e também muito cristalina (logo, bem objetiva).

Partindo da historiografia do negro na sociedade brasileira, com o subtítulo "Racismo, preconceito e discriminação na educação infantil", o livro nos dá o mote para que entendamos os conceitos vistos, ouvidos e vividos pela autora, quando atuava em sua trincheira de observação. Logo ela nos mostra então para que veio: usando citações múltiplas de outros pesquisadores igualmente profundos, Eliane Cavalleiro adensa sua tese com muitos números e fatos. Tudo isso para que todos entendam como o negro está amalgamado nas entranhas da formação do país Brasil. E como a questão ainda melindra qualquer tipo de discussão. E mais, o quanto está coberta pela nuvem dos estereótipos.

Logo após, ela nos mostra como foi sua atuação no campo da observação, de onde tira um conjunto de idéias que, coletiva ou individualmente, demonstram com clareza que "EXISTE, SIM, RACISMO JÁ NAS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES SOCIAIS DA CRIANÇA". Para exemplificar, um grupo de meninas que têm várias bonecas brancas e só uma preta. Instadas a citar a boneca mais feia, nenhuma delas hesita em apontar a "boneca preta". Outro exemplo, agora dentro da observação do grupo docente da escola pesquisada: as professoras beijam e elogiam muito mais os alunos brancos que os alunos negros, mesmo em igualdade de condições. Uma outra demonstração? A criança negra levou um brinquedo diferente para casa. A mãe o inquire, e depois de muita persuasão, ouve o filho de 6 anos dizer que o trouxe induzido por um amiguinho branco, que dissera: "preto tem que roubar mesmo".

São muitas outras observações anotadas pela pesquisadora. Tem, inclusive, notas crônicas (e quase que paradoxalmente cômicas) sobre a menina negra que se dizia branca. E a professora que esconde temas espinhosos sobre racismo em sala de aula, "para que as reuniões pedagógicas não fiquem muito longas", portanto cansativas.

Foi um feliz achado esse meu encontro com essa obra tão lúcida e perspicaz quanto inédita. Emprestei-o de uma amiga que, solícita, não o negou diante de meu pedido. Detalhe a ser comentado: ela pegara o livro emprestado da biblioteca da escola onde trabalha. Enfim, é uma pantomina cíclica de uma obra única, que muito lapida o indivíduo que se propõe a lê-la, sem amarras e -se possível- sem pré-conceitos.


*("Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto, SP)
(publicado originalmente no sítio www.leialivro.com.br)
Escobar Franelas
Enviado por Escobar Franelas em 15/10/2008
Reeditado em 23/09/2010
Código do texto: T1229657

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Sobre o autor
Escobar Franelas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 01/09/14 18:01)