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Arte Poética – de Aristóteles.

Análise do Livro: “Arte Poética”, de Aristóteles.


Aristóteles pretendeu abordar a produção poética em si mesma, para tanto separou certos aspectos da poesia e estudou-os e explicou-os separadamente e para ressaltar a importância que essas partes fazem no todo na produção poética. Para o mestre, a arte poética consiste na imitação em que há três aspectos: os meios de imitar; os objetos que imitam; e a maneira de imitá-los. Outrossim, há também maneiras de se retratar as personagens – nas quais se aplicam uma outra imitação que também possui outros três aspectos –, segundo o filósofo, os poetas podiam imitar as personagens: pintam-se milhares; pintam-se iguais; pintam-se piores.

O caráter da imitação na poesia seria uma tendência natural do ser humano, porquanto o mesmo – desde cedo – imita instintiva e instantaneamente o que o circunda em sua vida. Algo semelhante acontece na arte de compor poemas, porque o poeta, ao escrever, baseia-se na sociedade, na realidade e na subjetividade própria em que a usa para expressar-se precisa e adequadamente a sua visão das coisas – em outras palavras, o poeta pinta um retrato de certos aspectos do mundo (com certa fidelidade, imitando-os). Reflete-se esse caráter imitativo no metro e no ritmo da poesia, nas danças, nos cantos, no coro e em outras partes na representação – sejam essas partes tanto no gênero da tragédia, da epopéia e da comédia.

E, em se tratando de gêneros, Aristóteles descreveu-os e explicou-os – com a legítima claridade e sapiência de um verdadeiro filósofo –, os três principais gêneros da época, ei-los: Tragédia; Epopéia; Comédia. Este último, a Comédia, o professor grego definia como a imitação dos maus costumes os quais não só representados em vícios e cacoetes desprezíveis como também são representados de modo ridículo – entendendo “ridículo” como um defeito nas ações humanas cujo caráter não transmita sentimentos como compaixão e comoção (sendo, então, definitivamente, estúpido; sendo, definitivamente, ridículo). Quanto à Tragédia e à Epopéia, destas duas o antigo filósofo atribuíra mais prestígio e superioridade àquela – à Tragédia –, pois a escrita e a representação de uma Tragédia é mais clara e prazerosa do que de uma Epopéia; além de aquela possuir todos os aspectos desta, salvo algumas diferenças entre ambas, tais como: a Epopéia utiliza-se apenas de um metro e em formas narrativas, enquanto a Tragédia emprega o mesmo metro e outros mais; o limite de tempo de uma Tragédia é de uma revolução solar, enquanto que a Epopéia não mede o tempo assim – sendo até mesmo sequer sujeita a limites de tempos sejam estes quaisquer.

Ainda sobre a Tragédia, Aristóteles não só a definira como a imitação de uma ação complexa e completa como tratou de separar elementos e características da mesma. Como, por exemplo, a Tragédia possui uma certa extensão com: início; meio; e fim. E esses devem estar bem interligados para que haja um encadeamento perfeito entre as partes e não deve ser muito nem pouco extenso a fim de que a peça não seja enfadonha nem medíocre – respectivamente. Outros elementos são: o ritmo, harmonia e canto. Esses elementos que juntamente com o metro são responsáveis em atribuir um estilo agradável e admirável; há também o canto, o coro e a elocução – métrica e melopéia – que são responsáveis para dar um clima solene às certas partes e cenas em que seja alto o aspecto trágico. Há ainda mais elementos importantíssimos: as personagens; as ações – mitos; o caráter – costume; e o pensamento. Porque é preciso que existam as imitações das ações (mitos) e dos caracteres (costumes) a fim de que as personagens sejam moldadas conforme as exigências e necessidades da composição. Enfim, são muitos os aspectos e elementos, e Aristóteles tratou de descrevê-los, explicá-los e abordá-los até mesmo como em forma de conselho aos poetas, porquanto a grande preocupação principal do filósofo fora com o belo, isto é, com a beleza proporcionada do todo da encenação e representação da Tragédia pelas partes da mesma.

Não obstante, embora o mestre prefira a Tragédia, para ele, ambos os gêneros são grandiosos e imitam e tratam de assuntos sérios, percebe-se até que Aristóteles admirara os dois gêneros – na verdade, ele admirara e respeitara muito a Arte em si mesma –, senão não elogiaria fervorosa e avidamente o poeta Homero o qual compôs dois poemas que são as duas mais famosas Epopéias da época – “A Ilíada” e “A Odisséia”. Além disso, o próprio filósofo ressaltou ainda que as críticas alheias que fazem entre esses últimos gêneros são devidos aos maus atores, porque outrem alegava que a representação das Tragédias era de mau gosto devido às gesticulações exageras e desnecessárias dos atores, todavia a Epopéia seria ao público possuidor de bom gosto – já que não haveria representações esquizofrênicas nem gestos esdrúxulos; contudo o mestre ainda ressaltou que para discutir a superioridade de ambos os gêneros os mesmos devem ser comparados na leitura, pois, se haveria ou não problemas com a gesticulação dos atores que atuam, o poeta não deveria ser criticado por isso, e sim os atores; e Aristóteles argumentou ainda que a Tragédia além de ter todas as características da Epopéia também tinha a vantagem de ser mais flexível e de ter mais eficácia, pois a Tragédia além de poder usar o mesmo metro que caracteriza pode usar também o metro da Epopéia, assim como possui diversos recursos para compor o poema e representar a encenação como também encanta e agrada mais o público pelo fato de ser bela e profícua a sua representação.

Apesar de o Aristóteles ser bastante metódico e objetivo em suas análises da obras dos poetas de sua época, o mestre grego não é completamente impessoal, visto que – conforme sua percepção e seu apuradíssimo bom gosto – tratara de criticar bem ou mal os poetas e os aspectos das obras destes em que foram perfeitos e/ou defeituosos – contudo, fá-lo com a frieza de um leal filósofo que analisa e comenta objetiva e friamente os objetos estudados.

Percebe-se que a Arte Poética trata-se de uma obra poderosa repleta de críticas, observações, conselhos, descrições e explicações todos muitos valiosos, no entanto é preciso também esclarecer que, embora esta obra possua esse poder de análise, talvez a eficácia dos ensinamentos de Aristóteles estivesse comprometida, visto que houvera lacunas em seus textos, lacunas as quais filósofos e filólogos tentaram restabelecer e dar à obra a coesão e coerência necessária à compressão de pensamentos tão complexos e quão sofisticados do mestre e, apesar de que se admita a perda do Livro II de Aristóteles que trataria a Comédia, dever-se-á pelo menos levar em consideração o delicado processo de restauração das lições professadas pelo filósofo da antiga grega que mudou drasticamente o conceito de arte a qual sofrera preconceitos que foram esclarecidos e, então, a Arte deixou de ser uma mera cópia da realidade e a mesma Arte tornar-se-ia uma imitação da realidade – o que não fora apenas uma mera mudança de nomenclatura, e sim de nomes cujos conceitos novos se exprimiram à Arte.

A Arte Poética trata-se, sobretudo, de um livro em que a leitura deve ser com zeloso afinco e profícua atenção, visto que para escrever esta resenha (re)leituras e releituras foram necessárias para compreender não só os ensinamentos da obra em si como também entender o contexto da época da Grécia Antiga onde havia a ávida e longínqua discussão sobre a Filosofia, sobre a Arte e, sobretudo, sobre o Saber.



                                                           (Bruno Fagundes Valine)
Poeta Lendário
Enviado por Poeta Lendário em 20/04/2009
Reeditado em 27/08/2011
Código do texto: T1550163
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