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RESENHA ANALÍTICA DO LIVRO OLHINHOS DE GATO DE CECÍLIA MEIRELES

RESENHA ANALÍTICA DO LIVRO OLHINHOS DE GATO DE
CECÍLIA MEIRELES
teacherginaldo@hotmail.com


Publicado inicialmente em capítulos na revista Ocidente, de Lisboa, durante os anos de 1939 e 1940, Olhinhos de Gato constitui uma poética narrativa considerada autobiográfica de Cecília Meireles.
A obra divide-se em 13 capítulos, os quais relatam de forma sensível e curiosa, a visão do descobrimento de mundo, através dos olhos de uma menina que está atenta a tudo que acontece ao seu redor. A menina é a própria autora. As personagens compostas na obra são pessoas que conviveram com Cecília em sua infância. O exemplo disso é a avó Jacinta, retratada como Boquinha de Doce. A ama é chamada de Dentinho de Arroz e Cecília, por sua vez, é Olhinhos de Gato.
O foco narrativo divide-se em primeira e na terceira pessoa. É o que percebemos logo no início da narrativa no capítulo um. O suspirar do vento matinal é descrito como o agente transformador de todo o ambiente. Tudo obedece ao seu suspiro, a lua, as cores das nuvens, os pombos, cigarras e todo a natureza são captadas por este suspirar enigmático. O ambiente é rural, um sítio ou uma fazenda, em que as ações dos seres vivos que o compõe, são um conjunto de formas e animais, como se juntos fizessem parte de uma mesma colcha de retalhos. Os olhos atentos da menina demonstram curiosidade com o novo. O mundo lá fora é o desconhecido. À medida que vai descobrindo essa variedade de novidade, a menina deixa-se levar pela imaginação guiada pelos olhos azuis-verdes-cinzentos.
O relato em terceira pessoa se dá em forma de memória. Olhinhos de Gato vê as coisas e ao mesmo tempo se transporta em flashes que ainda são indecifráveis para ela. À volta a realidade só acontece quando a chamam pelo nome. As palavras para a menina também são novas, sem sentido e a incompreensão é expressa em seu olhar. O passado é desvendado sempre em contraste com o presente, como numa caixa de novidades, que vai mostrando a menina os objetos que relembram o passado. O enigmático também compõe a cena como um muro transparente entre dois mundos, revelando a presença da superstição e rituais antigos. Para Olhinhos de Gato as coisas possuem um mundo diferente, principalmente nas coisas esquecidas, e as explora com a imaginação criativa da criança que simplesmente se permite ir além do desconhecido para poder aceitar as coisas como naturais e verdadeiras.
A decepção de Olhinhos de Gato é expressa com a concepção de que tudo é finito. A morte é então esse rompimento de vida, e das coisas que estão ao seu redor. A incógnita da morte representa para ela uma angústia que a acompanha por toda a narrativa. Associa a morte ao sentimento de perda e se desaponta quando descobre que tudo que se vai prender, se converte em névoa, muda de forma e some-se. É preciso então para ela obter um lugar seguro.  E em seu mundo imaginário o lugar seguro é o guarda-vestidos. Deseja abrigar-se ali entre os vestidos de seda abandonados pelo tempo, entre as caixas misteriosas e o forte cheiro que lhe remete a alguma história. A crença popular ganha destaque em seu mundo imaginário, por pensar que há pessoas que sabem dessas histórias. E recorre à crença divina que serve de mediadora entre a fé e a incerteza. O mesmo ocorre com a decepção que a velhice lhe causa. Para Olhinhos de Gato, a velhice era uma terrível doença. Nada justifica a decadência do corpo quando velho. O medo volta como algo negativo quando relaciona a velhice à morte e o que lhe resta é somente procurar Deus para se tornar eterna.
Os animais na visão mágica da menina se personificam. Ao se deparar diante de um burro acha-o lindo. Descreve o animal e ao fim de tudo deseja desesperadamente beijá-lo. Compara-o com gente. Gente encantada. E o medo de que tudo que é bom morra volta a afligi-la, ao se perguntar se os burrinhos morrerão também. Admira-se com a possibilidade do papagaio poder falar e não ser gente. Outros animais surgem para compor o quadro, tais como: pombas, cigarras, passarinhos, cães e grilos. A cena rompe-se quando Olhinhos de Gato faz um desenho na parede algo que nunca acaba. E dorme tranqüila com esse descobrimento. E esse ambiente encantado é acompanhado com a música que embala os dias, desde manhã até a noite. Assim se passam os dias de Olhinhos de Gato. Tudo é rotina. E entre o amanhecer e o entardecer, percebe que a vida é pobre e o tempo é triste. Contenta-se então com o sono. O mundo inteiro encanta-se com o sono e a menina descobre que o mundo não se acaba enquanto dorme. Tudo isso lembra um tempo formado entre contrastes. Era um espetáculo tal que a menina não resistia ao desejo de vê-lo.
O folclore brasileiro destaca-se na narrativa por fazer parte também do mundo imaginário de Olhinhos de Gato. O Saci-Pererê, Lobisomem e a Mula-sem-cabeça pertencem a um mundo diferente, no qual viaja por países azuis e dourados, onde os peixes conversam com as princesas, os pássaros puxam carros e as palavras formam e desfazem as pessoas e as coisas mais impossíveis. A existência do além limite é estabelecida pela porta da casa, onde Olhinhos de Gato observa a rua larga e pobre, escancarada ao sol e às tempestades. Os bordados, as rendas tinham, para a menina, uma secreta magia. Para ela podia-se repetir interminavelmente, sem nunca acabar. Como o número que acreditava, mataria a morte.
A lembrança mais remota de sua vida era um quarto em que havia uma moça deitada na cama de cabelos pretos e vestido branco. Porém, era uma lembrança distante, a qual exigia uma explicação que sempre lhe era negada. Soube um dia que a moça era a sua mãe. O impasse temporal se dá no momento que Olhinhos de Gato angustiada, tenta entender em que momento passara da antiga condição àquela atual. O tempo para a menina é irreconhecível. Ela continua no seu lugar olhando para coisas invisíveis, indiferente ao que tinha sido antes, e ao que viesse a ser depois. Ao deparar-se com sua própria fotografia, não se reconhece nela. O reconhecimento se dá através dos olhos, os mesmos olhinhos de gato. Ela mesma, a princípio, ficara admirada de saber que estava diante de si mesma, e constata que a mudança de fase é algo que também morre com o tempo.
O desconhecido e o sobrenatural habitam nas fotografias e do outro lado da rua, a qual era cheio de coisas, estava tudo e todos que despertavam na menina toda a sua curiosidade. Observava a rua com o olhar atento. Via quem passava por ela e percebia o movimento do sobe e desce das pessoas que circulavam por ela. Via até o que não era percebido por outras pessoas, a desimportância não percebida. Ninguém nunca reparou quando deixou de passar para sempre a pobre criatura amarela, magra, curvada, silenciosa, que passava com uma roupa esverdeada, sem causar impressão em ninguém, porque ninguém também a via passar. Olhinhos de Gato percebe por fim que há muita coisa que não se sabe explicar. Tudo no mundo para ela é duplo: o visível e o invisível. E há ainda as criaturas humanas. Diferencia as pessoas das coisas e animais por estes serem simples e sempre se pode saber o que estão querendo ou estão sentindo. Diferentemente das pessoas, que apenas falam e entre as suas palavras há uma incoerência que logo se sabe que estão mentindo.
O sentido do real e do mundo imaginário da menina funde-se ao comparar-se a uma boneca, que também é personificada por possuir características iguais a ela. Perde-se o encanto quando descobre que as bonecas não possuem vida própria. Que os olhos tão parecidos com os seus, são sustentados apenas por arames e ao serem empurrados, fica-se apenas os dois buracos vazios, sem expressão, sem vida. Ela, porém, ficava triste, porque não sabia dizer que entendia tudo. Distanciava-se deste mundo real e mergulhava no seu imaginário composto pelas imagens que ia criando. Riscava o papel e apareciam flores e rostos humanos, que só eram reconhecidos para ela, para as pessoas não passavam de riscos sem significado algum. E ela adormecia com aquelas coisas encantadas sobre os olhos e o nome certo que cada coisa tem. Cada coisa tem um nome certo.
A rejeição ao sexo masculino se deu pelo fato de que os meninos serão no futuro a representação de tudo que foram para ela no presente: caçadores de borboletas e passarinhos, quebradores de vidraças ou um ladrão. Não conseguia ver semelhança alguma entre um menino e um príncipe. E a morte volta a atormentá-la ao constar que até os dias são de vida ou de morte. Tudo morre. No entanto, algo inovador é percebido pela menina: algumas coisas renascem. E a menina sentiu dentro de si aquela melancolia indefinida das coisas inexatas. Com os olhos fechados sonha com a música.  E os sons despertam na menina a sensação de poder viajar através do tempo e lembrar-se de um momento exato em um passado determinado. E neste êxtase estava-se na terra ou no céu, ao mesmo tempo.
O divino é questionado ao se perguntar onde é o lugar de Deus. Para Olhinhos de Gato a resposta é no coração das criaturas. E como uma necessidade de deixar claro que não se deve ir contra a fé de ninguém. Ninguém sabe o que está para acontecer a cada hora. Essa é a sua incerteza. Por que desesperar-se hoje, se amanhã talvez tudo mude? E por que alegrar-se também, se daqui a pouco se pode estar morto? A volta a realidade se deu quando Olhinhos de Gato compreendeu que voltava de uma profunda viagem, e realizara um imenso descobrimento.
A narrativa finaliza quando Olhinhos de Gato é chamada a realidade. Rompe-se com ela o devaneio e o instante já, agora é o desconhecido.
ginaldo
Enviado por ginaldo em 01/07/2009
Código do texto: T1676130

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Sobre o autor
ginaldo
Aracaju - Sergipe - Brasil, 46 anos
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