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Texto

Sobre “Técnicas de redação”: novos enfoques para antigos conceitos

Egberto Vital

Em “Técnicas de redação: o que preciso saber para bem escrever”, Garcez (2004), apresenta o resultado de observações feitas ao longo de seus estudos acerca da produção e ensino de escrita na escola. Advinda de uma vertente que procura ver a língua como uma construção coletiva, e assim sendo, vendo-a como um sistema que vive em constante ação, a autora busca apresentar a produção textual como prática social, e não como um compêndio de regras, ou como um dom de poucos.
No primeiro capítulo da obra, dividido em quatro tópicos, sendo o primeiro dividido em mais seis subtópicos, a professora busca desmistificar alguns mitos que cercam o ato de escrever. Ela mostra que a escrita nada mais é do que prática, uma habilidade que pode ser desenvolvida pelo escritor, pois, ao contrário do que se muitos pensam, não é um dom de algumas poucas pessoas.
A autora chama a atenção para fato de que a escrita exige empenho do redator, é necessário conhecimentos diversos, leituras também diversas e agilidade mental para se escrever, ela observa que é importante para a pessoa que escreve: ter conhecimento sobre o assunto abordado, para assim identificar o seu público alvo, escolher o gênero adequado ao seu leitor e ao assunto, para assim se fazer entendido.
Então, percebe-se que escrever exige muita leitura por parte do redator, muita reflexão, não apenas se basear por regras ou dicas, isso engessa o texto que fica preso a estruturas pré-estabelecidas, que podem fazer com que o escritor incorra em erros que empobrecerão o seu texto, como o uso de frases feitas, clichês ou, até mesmo, pensamentos de outrem, o que acabaria por anular a marca de autoria. Para evitar tais erros, Garcez (2004) fala que a autoria vem das escolhas pessoas do escritor dentre uma gama de possibilidades presentes na língua, o que anula a idéias de esquemas prévios. Deve ser observado que língua é um sistema dialógico, e por isso a voz do escritor deve orientar o texto, mesclada à outras vozes que servirão de suporte para a construção do pensamento daquele indivíduo. Por isso, a leitura incessante é a instância primordial para a escrita de um bom texto.
Portanto, o ato de escrever se torna tão importante para o mundo moderno, como observa a autora, pois hoje, o mercado de trabalho exige do indivíduo proficiência na sua língua, saber escrever, e bem, é de extrema importância para se fazer presente nas práticas sociais. Uma vez que, percebemos que hoje o texto está ganhando um espaço maior com o advento das novas mídias de comunicação/informação, em muitos dos casos, só há comunicação  através da escrita, visto a proliferação doa e-mails, blogs e sites de relacionamento, uma vez que o ato de escrever está relacionado ás práticas sociais.
No segundo capítulo, dividido em cinco tópicos, Garcez (2004) busca apresentar algumas concepções sobre o ato de escrever. Ela continua defendo a idéia da escrita com um processo, visto que no ato de escrever, dentre tantas relações existentes, a maior é com a memória. Pois o redator precisa acessar em sua memória (de leitor), diversas outras vozes que servirão de, como define a autora, base de orientação para a construção do seu argumento, para assim, selecionar os melhores pontos que farão parte do construto do seu texto. Sendo assim necessário, muita atenção, disciplina e paciência por parte do escritor, pois este irá se deparar com várias forma de pensamento sobre o conteúdo apresentado no seu texto, o que exigirá dele muita maturidade no momento da seleção, pois deve levar em conta seu público leitor.
No terceiro capítulo é abordada a questão da leitura, neste, a professora busca informar o leitor de que é necessário se ter a prática de ler diversos textos de diversos gêneros para fazer com que o escritor tenha domínio dos mais diversos funcionamentos e funções do texto. Ela ressalta o fato de que a leitura é primordial para desenvolver o senso crítico e a memória do leitor/escritor.
Para uma maior compreensão da leitura a autora enfatiza algumas questões que facilitarão o leitor, essas compreensões estão baseadas no conhecimento prévio do leitor do gênero em que o texto se apresenta, do conteúdo e, até mesmo, do autor do texto. Ela observa que tudo isso só possível por parte de um leitor maduro, que esteja habituado com a prática de leitura e tenha conhecimento de diversos gêneros, o que torna a leitura um procedimento muito denso.
Mais a frente, Garcez (2004) apresenta algumas estratégias que auxiliarão o leitor em uma leitura mais produtiva. Ela atenta para a importância do recurso da sublinha, em que o leitor irá selecionar as palavras-chaves, alguns segmentos significativos para o texto, para assim começar a montar suas primeiras impressões sobre o texto lido. Após, segundo a autora, o leitor deve construir paráfrases para os segmentos sublinhados, a partir daí, o leitor/escritor começa a montar uma análise crítica do que está lendo, pondo em questão alguns pontos interessantes do texto. Depois desses processos, o leitor tem respaldo para planejar seus objetivos pessoais para a leitura daquele texto e para a construção do seu.
Ainda no mesmo capítulo, são apresentados alguns tipos de leitura e objetivos possíveis. A autora observa que esses tipos de leituras variam desde a leitura por lazer, como busca de entretenimento à obtenção de informações conhecimentos que servirão de subsídio para a construção de novos textos por parte do leitor.
E da prática da leitura que o leitor pode partir para a prática da escrita, o que nos é apresentado no quarto capítulo do livro. No qual, a autora irá enfatizar mais uma vez, o trabalho co ma memória como um dos canais para a boa escrita, se o leitor tem em sua memória cognitiva leitura de vários outros textos, ele terá maior facilidade em produzir um novo texto, apresentando as suas considerações sobre o assunto, discordando ou concordando com o que já foi dito antes.
Ela volta a enfocar na importância da paráfrase, dos esquemas e dos resumos, para que o leitor saiba como selecionar os pontos mais significativos dos textos que toma como base, e assim ter autonomia suficiente para escrever o seu texto. Assim o leitor irá ter um registro muito maior em sua memória, que o facilitará na construção do seu pensamento.
Estamos percebendo que a autora enfoca bastante na importância da leitura diversificada para que o leitor/escritor tenha uma “bagagem” densa de informações e conhecimentos. Isso é importante para que o leitor tenha maturidade suficiente para saber como dialogar com outros textos e trazê-los para dentro do seu. A leitura, na perspectiva de Garcez (2004) é de extrema importância para o enriquecimento do senso crítico do indivíduo que pretende escrever, uma vez que a partir dela ela conhecerá os funcionamentos dos genros textuais e suas aplicações nas práticas sócio-comunicativas, se tornando assim, um cidadão letrado, que atua efetivamente em sua sociedade.
Percebemos então, que a preocupação da professora é fugir das noções tradicionais que via a escrita enquanto composição, extremamente ligada às noções da retórica e da poética, como descreve Bunzen (2006), e passa-se a considerar o texto enquanto construtor social, capaz de influenciar no pensamento e no comportamento dos sujeitos. E a leitura se apresenta como a primordial etapa da construção do texto, pois é a partir dela que o escritor irá se deparar com várias vozes, com várias formas de pensamento sobre o conteúdo que ele quer abordar.
E é a partir do quinto capítulo que a autora começa a apresentar as estratégias para a produção/criação do texto por parte desse leitor maduro, que irá verter todo o conhecimento adquirido a partir do seu contato com outros textos, em novas palavras.
Nesse capítulo ela apresenta algumas decisões que ele julga preliminares sobre a produção textual, como conhecimento dos objetivos do texto a ser produzido, o escritor deve ter claras as suas intenções com aquele texto, em que suas palavras influenciarão o seu leitor. Assim, ele terá mais facilidade em saber qual genro textual utilizar e quais informações ele poderá passar através daquele texto, para assim, descobrir qual a estrutura de linguagem mais adequada para transmitir seu pensamento. A produção textual deve está calda na noção que o redator tem do seu leitor, ele deve conhecer seu público-alvo. Para isso a autora apresenta algumas das funções da linguagem que auxiliarão o redator na produção do seu texto, bem como algumas estruturas lingüísticas, com as quais ele saberá selecionar a linguagem mais adequada para determinado público ao qual ele vai se dirigir.
No sexto capítulo, a autora auxiliará o redator na ordenação das suas idéias. Isso acarretará muita paciência e atenção por parte do escritor, pois ele terá de passar por diversos processos: primeiramente ele deve fazer anotações pessoais, uma vez que as idéias vão fluindo sem muita organização, ele deve anotar todas essas idéias para depois agrupá-las e organizá-las em uma sequência lógica, mantendo ou descartando algumas delas, para isso é preciso que autor escreva tudo que vem a sua mente, pois tudo pode ser aproveitado na construção final do texto; assim, ele poderá separar suas idéias em palavras-chaves para daí começar a esboçar pequenos parágrafos que desenvolverão às idéias propostas; depois de construir esses parágrafos, ele deve selecionas a idéia central das idéias secundárias, o que facilitará a seleção dos segmentos mais significativos para o texto; com tudo isso em mãos, o escritor já pode desenvolver um resumo de suas idéias e acrescentar alguns detalhes ou exemplos que tem guardado em sua memória, uma vez que ele passou por um longo processo de leitura sobre assunto; assim, ele está pronto para construir a primeira versão do seu texto, que apresentará o resultado bruto desse processo demorado da produção textual.
Feito todo esse processo, extremamente necessário na visão da autora, está na hora do redator organizar de fato suas idéias, segmento o texto em sequências que auxiliarão o seu leitor na compreensão do texto. É necessária uma apresentação, na qual é exposta a idéia principal, após deve ser feita uma ampliação dessa discussão, em que o redator irá explicar ao leitor seus objetivos com aquele texto, e nessa ampliação em que entrarão os exemplos e considerações que colheu com a leitura de outros autores, o que enriquecerá seus questionamentos, é nesse momento em que o redator fará suas comparações e analogias, situando o leitor de sua compreensão sobre o conteúdo, a autora acha necessário lembrar ao redator de que ele deve situar o seu leitor no tempo e no espaço, o que o fará ver a relevância do texto lido para o momento em que ele foi publicado, por fim, e não menos importante, deve-se ter uma conclusão, na qual o redator deverá fazer uma síntese de tudo o que já foi dito ao longo do texto, para com isso fechar o seu raciocínio.
Para passar por todos esses processos é necessário, na concepção de Garcez (2004), que o redator leia e releia o seu texto diversas vezes, para ir acrescentando ou descartando sequências, que julgue ou não, necessárias ao seu texto.
Depois desse processo de organização, a autora apresenta no sétimo capítulo, estratégias para o escritor entrelaçar as suas idéias, o que necessitará de uma nova leitura do texto que está sendo produzido. Nesse momento o redator está chegando na etapa final da produção do texto, nela ele deve atentar para questões como coesão e coerência textuais, o que acarretará na exclusão ou substituição de sequências não muito interessante para o texto, isso irá demandar da maior atenção possível por parte do redator, e necessitará de suas maturidade enquanto leitor. Esse processo é o mais importante, pois é nele que o escritor irá dar a clareza necessária para o seu texto evitando problemas de compreensão por parte do seu leitor. Nessa etapa ele deve deixar bem claro as suas intenções com o seu texto, para não deixar “furos” ou questões ambíguas.
No oitavo capítulo, a autora apresenta a etapa final da produção do texto. Ela mostra a releitura como ponto de avaliação para a reescrita. É na releitura que o autor irá por sue texto sobre o seu olhar de leitor crítico, selecionando os pontos mais interessantes do texto. Depois disso ele parte para a reescritura final, em que ele irá refinar o seu texto apontando para questões estruturais, estilísticas e vocabulares, esse é o processo de “lapidação” do produto final, portanto, o ponto mais importante, pois exigirá do escritor suas competências enquanto leitor.
Percebemos então, que Lucília Garcez nos apresenta uma perspectiva que trabalha a língua enquanto interação social, que vê no texto a realização das relações sócio-comunicativas. O texto não é mais visto como realização de uma série de métodos e noções estruturais pré-estabelecidas. O texto, nesta nova perspectiva, funciona como instrumento de inserção às práticas sócias.
O redator deve ser um indivíduo que tem noção de sua posição na sociedade. E de que é através das relações dialógicas que ele se fará presente e atuante nela, o texto é mo meio pelo qual ele pode se fazer ouvir e, com isso, modificar ou ressignificar conceitos já arraigados.
Neste “Técnicas de redação”, Garcez (2004) traz, em forma de manual, estratégias pelas quais os docentes, ou futuros docentes, podem trabalhar em seus alunos noções mais densas sobre a produção textual. Partindo de um trabalho que não compete apenas à mera decodificação e reprodução do que é lido, mas na construção de um pensamento crítico. A intenção primordial desse livro é fazer com que o professor tenha noção de que é com a leitura que o seu aluno desenvolverá maturidade para escrever bem.
É tomando a escrita como um processo árduo de construção e atuação do pensamento que a autora vai levando o professor a mudar conceitos engessados e passar a trabalhar com uma perspectiva que toma o texto enquanto mecanismo de interação sócio-cultural, pelo qual o aluno se fará um indivíduo proficiente em sua língua. A intenção dela é fazer com que o professo tenha noção de que deve formar cidadãos letrados, preocupados com a sua posição perante a sociedade, e não meros reprodutores de sistemas arcaicos.



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Referências bibliográficas

BUNZEN, Clecio. Da era da composição à era dos gêneros: o ensino de produção de texto no ensino médio. In: Português no ensino médio e formação do professor / Clecio Bunzen, Márcia Mendonça (org.); Ângela B. Kleiman... [et al.]. – São Paulo: Parábola Editorial, 2006.
GARCEZ, Lucília H. do Carmo. Técnica de redação: o que é preciso saber para bem escrever. – 2. ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2004.
Egberto Vital
Enviado por Egberto Vital em 13/10/2009
Código do texto: T1864013

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