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NOITE DE ALMIRANTE - MACHADO DE ASSIS



No conto “Noite de Almirante”, de Machado de Assis, o autor se debruça sobre as relações humanas, mas especificamente as relações amorosas. O casal Deolindo Venta-Grande e Genoveva são os personagens principais que regem o conto. Ambos juram amores eternos um pelo outro, assim, separam-se temporariamente: Deolindo segue viagem a trabalho marítimo, Genoveva permanece em casa a sonhar com o retorno do amado no intuito de viverem juntos. Porém, a vida é continua, não apenas nas passagens de dias e noites: continuamos vivos e nos relacionando com o movimento da vida.

O autor enfatiza as possibilidades as quais Deolindo está exposto: as mulheres dos diferentes países. O personagem é descrito como que movido pelo amor impregnado e prometido: um sentimento verdadeiro, plantado no seu intimo, ou quem sabe, não tivesse o dom da observação, para notar em pequenos detalhes, a constante incerteza presente no outro.

Deolindo é retratado como um homem bom, inocente e verdadeiro. Virtudes as quais o faz observar o mundo e a se colocar no mesmo de forma particular e, a desejar que as pessoas pensem e ajam de acordo com os conceitos aprendidos por ele: o respeito pelo outro, os sentimentos sinceros, a palavra como contrato certeiro. O personagem se mostra romântico e envolvido emocionalmente; a tal paixão que cega os homens, que os movem, separa e une-os.

Por outro lado, Genoveva está à espera do amado. Imagina o dia em que se reencontrará com o seu amor. Os dias são longos, as noites solitárias e esperançosas. Mas, eis que a vida não cessa enquanto se respira e que nossas inseguranças se mantêm presente a todo instante. A prova dessa incerteza está no surgir de um novo personagem na vida de Genoveva, José Diogo. A principio nenhum sentimento novo ronda a cabeça da moça, mas com o passar dos dias, dúvidas surgem e a moça questiona-se sobre seus sentimentos. Ou talvez ela nem se tenha dado ao trabalho de interrogações, como decifrar? Cada ser vê a vida na sua própria singularidade. Talvez Genoveva apenas dissesse a si “Quem sabe ele nem volte mais...”, ou simplesmente não tenha chegado a gostar dele de verdade, (perante suas atitudes, diante Deolindo quando se deu o seu retorno, descrita pelo autor). O certo, é que sua relação com Deolindo; cheia de promessas e sentimentos melosos ocorreram no passado e a realidade atual era outra.

Machado coloca essas relações de maneira aberta. A abordagem sobre o personagem Deolindo é tão próxima, está tão presente no cotidiano que mais se assemelha a um caso real, do que simples ficção.

“Os Deolindos” estão por aí, amando e sendo contrariados. É o homem na sua constante busca pelo par perfeito. Porém, o outro é o outro, sempre foi e sempre será, é um terreno desconhecido. Qualquer certeza colocada no outro se corre o risco de não se concretizar ou mesmo dos resultados serem bem diferentes, por vezes ruins, noutras, excelentes; são os acertos e erros da vida. No caso desse personagem, Machado o descreveu como um homem apaixonado, que ansioso aguarda os braços da amada, fazendo parecer que o amor presente em si é inabalável e eterno.

Então Machado nos apresenta Genoveva; moça “aparentemente” simples, romântica e perdida de amor. No entanto, este sentimento não se perdura por muito tempo. Ao surgir de um novo homem em sua vida, ela desfaz-se daquele “intenso amor” e entranha-se na nova “paixão”.

Diante dessas posições as quais o autor coloca os personagens, percebemos as contradições humanas, dúvidas e mistérios que causamos no outro e em nós mesmos.
Sim! Genoveva poderia ser perdidamente apaixonada por Deolindo, mas como ele estava ausente, o grande amor desvaneceu-se, ou quem sabe, ela poderia não amá-lo tanto e fingisse sentimento para encontrar direção na vida. Ou não fosse pessoa de se apegar tanto a ninguém, ou daquelas em que os sentimentos não perduram por muito tempo... O certo é que Genoveva é uma e várias ao mesmo tempo. O seu interior não é abordado profundamente, seus sentimentos são ocultos, apenas nos saboreamos com a superficialidade dessa personagem. Os fatos nos são apresentados de forma ampla dando margens a inúmeras interpretações.

Sem dúvida um conto rico e cheio de possibilidades, as lacunas que se apresentam são as lacunas existentes na vida das pessoas, as incógnitas contidas em cada um de nós e o novo em nosso contato com o mundo. Aí esta uma belíssima amostragem dos inúmeros que somos e podemos ser e do fabuloso ato do existir.

Um conto cheio de nuances capazes de nos fazer refletir sobre o nosso contato com o outro, um olhar sobre a nossa vida, nossas fraquezas e esperanças. Também o receio que preservamos em nos mostrar explicitamente ao outro. A camuflagem que carregamos sobre aquilo que temos vergonha, como na parte na qual Deolindo questionado sobre sua maravilhosa noite de amor com sua amada. Ele prefere ocultar a verdade deixando a entender que tivera uma noite fabulosa, embora por dentro estivesse destroçado. São vestígios do ser que vive na sociedade. Faz parte do teatro da aparência a qual todos nós estamos embutidos e que em situações diversas colocamos em pratica numa forma de amenizar-nos.
Machado soube captar e traduzir em palavras às atitudes do ser, o desenrolar dessa vida a qual ele também foi não apenas observador, mas, certamente, um personagem real que também vivenciou inúmeras facetas durante seus dias de existência.



Valdon Nez é autor dos livros:
Rascunhos existenciais (contos);
Olhos doloridos (poesias);
A metamorfose humana (Poesias).

 
























Valdon Nez
Enviado por Valdon Nez em 02/12/2009
Reeditado em 21/08/2012
Código do texto: T1956327
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Valdon Nez
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Valdon Nez



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