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Chega de Saudade - A saga da Bossa Nova / Ruy Castro

Joãozinho sempre foi um garoto esquecido. Desde quando mastigava poeira na pequena cidade de Juazeiro, no interior baiano, ele vivia deixando livros, cadernos e canetas pela rua. Era tagarela, engraçado e podia ser deliciosamente perverso.
     Em 1949, aos 18 anos, não queria saber de estudar. Tinha olhos apenas para o seu violão, levando seu pai Juveniano a cortar-lhe a mesada. Sem dinheiro para cigarros, sorvete, discos e, principalmente, cordas de violão, abandonou sua cidadezinha com destino a Salvador. E, sentindo-se preparado, ele estava mesmo era a caminho do Rio de Janeiro, para estar mais perto de seus ídolos Orlando Silva e Lúcio Alves.
     Depois de trabalhar durante um ano numa rádio da capital baiana, foi convidado para ser o vocalista do grupo “Garotos da Lua”, no Rio, em 1950. Walter, seu tio, tinha lhe arranjado um emprego de escriturário na Câmara dos Deputados, apenas para garantir sua estadia no Rio. Depois de um ano de nomeação, “quando a ausência de seu paletó começou a ficar excessivamente conspícua no Palácio Tiradentes, tiveram que demiti-lo”. O emprego nos “Garotos da Lua” também não deu muito certo.
     Joãzinho vivia se atrasando para os ensaios e shows, e acabou sendo escorraçado aos gritos por Acyr, líder do grupo, quando estava com Sylvinha Telles, ouvindo discos na loja Murray, na esquina das ruas Rodrigo Silva e Assembléia, no centro da cidade. “Foi a última vez que ele amargou uma demissão. Foi também o seu último emprego regular na vida”.
     O caminho mais próximo de Joãozinho foi a rua. Depois de morar em várias casas de amigos, eles começaram a desaparecer. Quando as pessoas o viam caminhando na rua ou na praia, elas logo desviavam ou fingiam não lhe ver. Fora João Donato, com quem passava horas conversando na frente do Copacabana Palace, a única pessoa que parecia lhe compreender era o seu baseado. Sempre com as mesmas roupas velhas e rasgadas, o sapato sujo e os bolsos furados, Joãozinho caminhava em direção a calçada do bar Primor e do cinema Colonial, no largo da Lapa, defronte ao ponto do bonde, para comprar um fuminho dos garotos que vendiam cigarros nos tabuleiros.
     Em 1951, quem fosse apanhado fumando maconha no Rio de Janeiro, o máximo que poderia lhe acontecer era ganhar uma certa fama de maluco. “Nada que contribuísse muito para piorar a imagem que já se tinha dos músicos e cantores”. Depois que conheceu a “diamba”, no bairro de Fátima, Joãozinho “viu na coisa qualidades que os cigarros comuns, que tentava fumar com certo engulho, decididamente não tinham. Ela lhe dava a impressão de aguçar a sua sensibilidade, fazendo perceber sons e cores de que nunca suspeitara.
     Além disso, parecia despertar-lhe uma coisa mística meio inexplicável, que, até então, aos vinte anos, ele represara sem saber. Foi uma conquista fácil. Desde então, nunca mais fumou Lincoln, Corporal, Douradinho ou Liberty”. Foi então que Carlos Lyra, Johnny Alf e Donato, lhe apelidaram de Zé Maconha.
     Em 1953, depois de três tenebrosos anos no Rio, sua boca se tornara uma antologia de focos dentários. Assis Valente, autor de “Brasil Pandeiro”, estava com a careira em declínio, depois de ter pulado do Corcovado por causa de Carmem Miranda, e ofereceu um tratamento dentário a João, mas ele era melhor sambista que dentista. No ano de 1955, João Gilberto “havia chegado ao seu fundo do poço no Rio. Estava sem dinheiro, sem trabalho e sem amigos. O orgulho fechado por todos os lados fizera sua auto-estima despencar a zero”.
     Mas nada disso lhe faria cantar em boates onde os clientes falassem como matracas ou o humilhassem com gorjetas – na sua visão, esmolas.Nessa época, João fora visto várias vezes falando sozinho nos bancos da praça em frente a Biblioteca Nacional, no centro, ou na avenida Atlântica. Sempre sem dinheiro, só andava a pé e há quem diga que passou até fome.
     Mas nada o impedia de investir seus últimos trocados num fino da Lapa. “O Rio de Janeiro, com suas mediocridades bem-sucedidas, não enxergara o seu talento e não havia ninguém com a opinião de que ele era o maior cantor do Brasil”. Um dos únicos amigos que lhe sobraram, Luis Telles, o convidou para passar uma temporada em Porto Alegre, onde ficou hospedado no hotel Majestic, na rua dos Andradas, onde também morava como endereço permanente, o poeta Mário Quintana.
     Ele alterou a vida na cidade, lá ele nem sempre cantava, às vezes apenas falava – e como falava! – sempre para uma platéia atenta e respeitosa. Sua parada na capital gaúcha durou poucos meses, e Joãozinho teve que buscar abrigo na casa da irmã em Diamantina, Minas Gerais. “Ninguém melhor do que ele sabia de seu talento, e este era o problema: ele sabia, mas aquilo não o estava levando a lugar algum. Estava começando a admitir que não era disciplinado. No Rio quando o mundo parecia injusto e cruel, a maconha o ajudava a sair temporariamente do ar e deixava tudo mais bonito”.
     Ruy Castro acredita que o efeito da maconha fosse uma ilusão à toa, e que talvez a erva combinasse com o sucesso, mas não com o fracasso. Em Porto Alegre e em Diamantina, João estava sendo obrigado a encarar a vida sem ela – e descobrindo que era possível sobreviver. “Se fosse realmente para chegar onde queria, teria que parar com aquilo”. Anos depois, ele diria que se convencera disto quando cantava no berço para a sua sobrinha Marta Maria, ainda quando estava em Minas, em 1956.
     “Todas essas preocupações começaram a formar a cabeça do homem que, daí a apenas dois anos, iria revolucionar a música mundial com ‘Chega de Saudade’. Um turbilhão de pensamentos estava zunindo na cabeça de João Gilberto naquele seu exílio entre as montanhas. Toda a sua vida passava-lhe diante dos olhos, como num filme.
     As primeiras semanas em Diamantina foram em silêncio, remoendo as lembranças que doíam ao mais leve toque de memória. Mas algo lhe despertou uma centelha porque, de repente, ele passou a tocar violão dia e noite, encerrado no quarto, como se tomado por uma obsessão. No princípio, nada que tocava fazia muito sentido: o mesmo acorde era repetido um zilhão de vezes”.
     Assim era João Gilberto, passava do mais cavo desânimo para uma euforia de lamparina acesa – podendo voltar a agir, em questão de segundos. Sua irmã também lhe mandou embora depois de oito meses de abrigo. E, em maio de 1956, João teve que voltar para Juazeiro com sua “alma cheia de calos.
     Deixara de ser uma jovem promessa de dezoito anos, e era agora um homem de vinte e cinco anos que já podia ser nostálgico a respeito do doce pássaro da juventude”. Na cidadezinha, desde seu pai até os amigos mais distantes achavam que seu estado era preocupante. “Joãozinho está ficando tantã”, diziam. “Como podiam adivinhar que a ostra estava produzindo a pérola?”
     Mal sabiam todos, que agora ele tinha uma arma que ninguém poderia tirar-lhe: “aquele ritmo de violão, que simplificava toda a batida de samba – como se tocasse só com os tamborins -, mas que era suficiente para acompanhar qualquer tipo de música. Além de ser uma coisa nova, que era o que queria”. João estava desnorteado pelo fracasso no Rio e andava obcecado por aquela música que ninguém gostava e muito menos sabia o que era. “Isso não é música.Isto é nhém-nhém-nhém”, bravejava seu pai, que acabou lhe mandando para um hospital psiquiátrico em Salvador, onde passou cerca de um mês.
     Depois dessa internação no Hospital das Clínicas, João embarcou de volta para o Rio de Janeiro – desta vez, para sempre. “Não sabia o que o esperava. Mas queria ter certeza de uma coisa: iria chegar musicalmente pronto ao Rio. Como se a primeira vez não tivesse valido”.

Parte II

“Com uma medida mais realista de seu valor”, João Gilberto voltou ao Rio em 1957, alugou um quarto no hotel Glória, no Centro, e não tinha nenhuma perspectiva de trabalho. Sem dinheiro para as diárias, poucos dias depois teve que pedir novamente a ajuda do amigo Luís Telles, que estava morando na Praça do Lido.
     Outro amigo, Tito Madi, o levou para tocar no Beco das Garrafas, no Litle Club, no Texas Bar, no Leme e no Cangaceiro, na rua Fernando Mendes. Mas João tinha sérios motivos para não tocar nesses lugares. “Eles falam demais”, dizia ele referindo-se aos clientes. Até mesmo quando o cantor era um conhecido, João preferia ficar do lado de fora.
     Acyr, o mesmo que o tinha demitido dos Garotos da Lua, ficou espantado quando viu João tocar e cantar violão daquele jeito. E ele teve que lhe contar em detalhes como havia chegado àquilo em Diamantina. Logo depois, João foi procurar Tom Jobim na Rua Nascimento Silva, que o achou muito melhor comparado com a última vez que o vira. Tom levou um susto ao ver João executando suas músicas “Bim-Bim” e “Hô-ba-la-la-lá”. Mas o que impressionou mesmo Tom foi o violão.
     “João deixou de ser o discípulo de Orlando Silva, com toques de Lúcio Alves. Cantava agora mais baixo, dando a nota exata, sem vibrato, estilo Chet Baker”. Tom percebeu que aquela batida era uma coisa nova, “que produzia um tipo de ritmo do qual cabiam todas as liberdades que se quisesse tomar. Com ela, adeus à ditadura do samba quadrado”. Imediatamente, Tom abriu a gaveta e tirou partituras que estavam pela metade ou em fase de acabamento. Uma delas, já pronta, dormia há mais de um ano naquela pilha: Chega de Saudade.
     Antonio Carlos Jobim havia investido “o creme de sua juventude debruçado sobre Villa-Lobos, Debussy, Ravel, Chopin, Bach, Beethoven e Custódio Mesquita”. Todos os dias, depois que saia do trabalho no bar Far West, no posto Seis, ficava vendo o sol nascer sentado na areia. Tom e Newton Mendonça se conheceram em 1927 na Rua Nascimento Silva. Os dois viviam brincando na praia da Rua Joana Angélica, pescando na Lagoa Rodrigo de Freitas e soltando pipa e caçando rolinhas no morro do Cantagalo.
     Em 1953, o já conhecido poeta e diplomata Vinícius de Moraes, estava acompanhado do jornalista Antonio Maria no Clube da Chave, quando conheceu Tom. Os três saíram dali para comer ovos no bar dos Pescadores e terminar a noite na boate Tudo Azul, na Rua Domingos Ferreira – com mais um amigo de Tom, chamado João Gilberto. Vinícius e Tom só foram se reencontrar novamente em 1956, no bar Villarino, na esquina das avenidas Calógeras e Presidente Wilson, um lugar muito freqüentado por Drumond, Villa-Lobos, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Dolores Duran.
     O poetinha estava procurando um compositor para a peça “Orfeu da Conceição”, quando foi reapresentado por Lúcio Rangel a Tom numa das mesas do Villarino. Segundo Ruy Castro, os dois omitiram que tinham se conhecido três anos antes.
     - Tem um dinheiro nisso aí? – perguntou Tom, para espanto de Lúcio.
     - Como é que você vem falar de dinheiro diante de um convite desses? Tom, este é o poeta Vinícius de Moraes.
     Nessa época, um dos maiores pesadelos de Tom, depois de ficar tuberculoso era o aluguel da Rua Nascimento Silva. “Tem se a impressão de que, diante de um convite de Vinícius, suponha-se que a pessoa deveria trabalhar de graça”, comenta o autor. A Rua Nascimento Silva, 107, ainda não era conhecida nem entre os carteiros quando Tom e Vinícius se reuniram para compor Orfeu. A primeira música da parceria foi nada menos que “Se todos fossem iguais a você”, e a peça estreou no Teatro Municipal do Rio em 25 de setembro de 1956, depois de litros de uísque e cerveja.
     Tom fizera Chega de Saudade com Vinícius pouco depois que Orfeu encerrou sua carreira de um mês no teatro da República. Se tivesse sido feita antes, era quase certeza de que teria entrado na peça. Mas como já era tarde, Tom resolveu guardá-la.
     Certa vez, Tom estava na casa de casa de usa mãe e viu a empregada varrendo a sala e cantarolando um chorinho. Ele ficou impressionado como a moça conseguia cantar aquela música enorme de três partes. Então ele decidiu que um dia também faria um chorinho assim.
     Semanas depois, no sítio de sua família em Poço Fundo, perto de Petrópolis, lhe veio a idéia para Chega de Saudade e, quando se deu conta, “tinha feito no violão uma espécie de samba-canção em três partes – por acaso, com um sabor de chorinho”. Quando voltou ao Rio, mostrou a música a Vinícius. O poeta estava de partida para reassumir seu posto de diplomata em Paris, mas decidiu ficar e colocar letra na música.
     Se não fosse pelo ressurgimento de João Gilberto com a sua nova batida, a música de Tom e Vinícius talvez nunca saísse de uma gaveta diretamente para o disco com Elizete Cardoso, chamado Canção do Amor Demais (1958). Lp de estréia da Bossa Nova.
     
Parte III

Ruy Castro procura deixar bem fundamentado para o leitor de “Chega de Saudade”, que os principais responsáveis pelo surgimento da Bossa Nova foram João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Mas, nem por isso, o autor deixa de destacar figuras importantíssimas que fizeram parte desse contexto, como Baden Powell, Newton Mendonça, Billy Blanco, Lúcio Alves, Orlando Silva, Dick Farney, Johnny Alf, Alayde Costa, Elis Regina e João Donato. Alguns deles, principalmente Mendonça, tiveram seu papel minimizado com o passar dos anos.
     O livro também desmascara alguns mitos, um deles, é a famosa história de que a Bossa havia sido criada no apartamento de Nara Leão. Quando na verdade, o apto de Nara era apenas um ponto de encontro de Carlos Lyra, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, que se reuniam para tocar a recém inventada batida. Sem falar em Garota de Ipanema, que muitos ainda acreditam ter sido escrita por Tom e Vinícius numa mesa do Veloso, hoje chamado “Garota de Ipanema”, na rua que era Montenegro e que hoje se chama Vinícius de Moraes. “Nunca foi do estilo da dupla escrever música em mesas de bar, embora eles tenham investido nelas as melhores horas de suas vidas”.
     Até hoje, pouca gente sabe como surgiu a palavra Bossa Nova. Ela era usada por alguns músicos para definir quando alguém cantasse ou tocasse diferente – Cyro Monteiro, por exemplo, tinha “bossa”. E Noel Rosa já a usara em 1932 num samba chamado “Coisa Nossa”. “O samba, a prontidão e outras bossas/ são coisas nossas”.
     Em 1958, o jornalista do Última Hora, Moysés Fuks, organizou uma apresentação no Grupo Universitário Hebraico, um casarão de dois andares na Rua Fernando Osório, no Flamengo, o mesmo onde funciona uma biblioteca. Ele havia convidado Nara Leão, Carlos Lyra, Menescal, Sylvinha Telles e outros músicos.
     Uma secretária que trabalhava no Hebraico escreveu num quadro: “Hoje, Sylvinha Telles e um grupo Bossa Nova”. Nos releases ela havia escrito: “uma noite muito Bossa Nova”. Essa foi a primeira vez em que a expressão foi associada à música criada por Tom, João e Vinícius. A tal secretária que o escreveu no quadro negro jamais foi identificada, e ninguém se preocupou com isso quando ainda era possível descobri-lo. Anos depois, a expressão foi registrada por Ronaldo Bôscoli.
     As centenas de histórias, detalhes e outros contos pitorescos e emocionantes envolvendo a Bossa Nova e seus personagens, você vai encontrar nas quase quinhentas páginas de “Chega de Saudade”, escrito por Ruy Castro em 1990. Perto de comemorar cinqüenta anos de criação, “o piano de Tom e a voz ou o violão de João Gilberto ainda vivem a bordo de aviões, navios, bares e concertos. E basta você ligar o rádio em Nova York, Montreal, Paris, Tokyo ou Sidney e você ouvirá Bossa Nova”.
     
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 05/08/2006
Reeditado em 07/08/2006
Código do texto: T209544
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
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Danilo Nuha