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A onda que se ergueu no mar (2001) Novas histórias da Bossa Nova – Ruy Castro

 Dez anos depois de escrever a “história e as histórias da Bossa Nova” em Chega de Saudade (1990), obra fundamental para a compreensão do movimento, Ruy Castro se aprofunda novamente no mesmo assunto com A Onda que se ergueu no mar.
     
     Um dos motivos alegados pelo autor para a retomada do tema, é que se ouve mais Bossa Nova hoje do que em 1961. “Até hoje, à luz do sol ou de um abajur, com ou sem uísque ao lado, nada supera o prazer quase hipnótico de se ouvir coisas como Corcovado, Samba do Avião, Ela é Carioca, Você e Eu, Wave”.
     
     Um dos objetivos principais de Ruy Castro é consolidar a trajetória desse gênero que tantas vezes foi dado como morto, mas mesmo quando parecia enterrado e esquecido, nunca morreu. “À sua maneira discreta e delicada, a Bossa Nova sobreviveu à mais longa ditadura de que se tem notícia na história da música popular: a do rock, do rap, do dance, do heavy metal, do punk e do progressivo”.
     
     O livro começa com o autor contando a primeira vez em que se encontrou a sós com Tom Jobim, numa mesa do bar Veloso em 28 de março de 1968, quando tinha apenas vinte anos e trabalhava para a revista Manchete. O compositor lhe contou sobre os bastidores da gravação do disco com Frank Sinatra (1967) e, “duzentos chopes depois”, Tom ficou sério e disse que seu pai, morto em 1935, apareceu ao pé de sua cama e o aconselhara a deixar de ser preguiçoso, pescar menos e compor mais. Enquanto os dois conversavam tranquilamente, estava acontecendo uma violenta manifestação contra a ditadura militar no centro do Rio, que terminou com a morte do estudante Edson Luiz, próximo do restaurante Calabouço.
     
     Passaram-se vinte anos até que Tom e Ruy se encontrassem novamente. Para surpresa do escritor, Tom se lembrou dele e o convidou para sentar numa das mesas da churrascaria Plataforma, no Leblon, onde estava acompanhado de Ronaldo Bôscoli. “A data: 28 de março. Uma manchetinha na primeira página dizia: Faz vinte anos hoje da morte do estudante Edson Luiz”.
     
     Além de contar detalhes da carreira de Tom Jobim após a explosão da Bossa Nova em 1958, o livro também faz paralelos entre Tom, Noel Rosa e George Gershwin, descrevendo o que os três compositores tinham em comum, apesar de não terem se conhecido. Outra personagem presente no enredo é Brigitte Bardot. A atriz francesa passou três meses em Búzios, em 1964, acompanhada de seu namorado brasileiro Bob Zagury, quando o lugar era apenas um colar de praias, sem água encanada, luz elétrica ou telefone.
     
     Brigitte apaixonou-se pelo ritmo brasileiro ainda quando morava em La Madrague, uma praia de difícil acesso em Saint-Tropez. Ela passava horas ouvindo João Gilberto, Tamba-Trio e Jorge Ben. E, numa das noites em que passou no Rio de Janeiro, a atriz esteve numa festa “bossa nova” com a presença de Tom Jobim, Nara Leão, Vinícius de Moraes, Edu Lobo e Dorival Caymmi.
     
     Dando continuidade no que foi escrito em Chega de Saudade, Ruy Castro descreve a dramática e trágica história de Orlando Silva e sua luta contra o vício da morfina e do álcool. O uso freqüente dessas substâncias ocasionou na perda súbita de sua voz. Em seus últimos anos de vida, Orlando era um homem triste, mas sem revolta, “incapaz de culpar a quem quer que fosse pelo turbilhão que cortou na raiz uma das mais brilhantes carreiras da música brasileira”.
     
     As vidas paralelas de Dick Farney e Lúcio Alves, também foram abordadas. A partir dos anos setenta, os dois viram seus mercados de trabalho encolher dramaticamente. “Mas nunca se prostituíram, nunca fizeram uma concessão a estilos que não acreditavam. E ambos pagaram por isso: morreram tristes, abandonados pelas gravadoras, afastados do público – Dick, em São Paulo, em 1987, aos 66 anos; Lúcio no Rio, em 1993, também aos 66”.
     
     O autor também acompanhou de perto os últimos momentos da vida de Nara Leão, morta em sete de junho de 1989, vítima de um tumor. A musa da Bossa Nova tinha problemas cardíacos, um coágulo no cérebro, embolia e estafa. Sofria lancinantes dores de cabeça, tinha perda de memória e cegueiras temporárias, intercaladas com períodos em que via estrelas em plena luz do dia. A dose industrial de medicamentos à base de cortisona fizeram-na engordar quase quarenta quilos.
     
     “Parece haver algo que encerra mais cedo a vida de nossas cantoras. Em 1958, fora Dolores Duran, aos 29 anos. Em 1966, Sylvinha Telles, aos 32. Em 1977, Maysa, aos 41. Em 1982, Elis Regina, aos 37. E, finalmente, Nara, aos 47. A cada década uma morte – cretina, burra, injusta, porque essas mulheres ainda tinham tanto a fazer. Nenhuma música popular pode se dar ao luxo de perder cantoras assim. Não, não lhes digam adeus. Ouçam seus discos”.
     
     Mas Ruy Castro não relata somente tragédias. Um exemplo disso é a parte em que fala sobre figuras como Johny Alf, João Donato e, é claro, como não podia ficar de fora, João Gilberto. “Como pianista, cantor e compositor, Johnny Alf domina céus e mares. Mas, sendo o Brasil como é, parece até normal que ele não tenha nem fração do reconhecimento que merece. Ele já era cult em uma época em que não se usava essa palavra em parte alguma do mundo”. Atualmente, Johnny mora numa modesta casa em São Paulo. Não abre mão de sua coleção de discos e não se queixa de nada, nem mesmo de às vezes de não ter sequer um piano para passar o tempo.
     
     Poucos integrantes do universo bossa-novista tiveram uma carreira internacional tão bem sucedida quanto a do acreano de Rio Branco João Donato. Nascido em 1937, desde pequeno ele foi se apropriando de todos os instrumentos que lhe caíam na mão – as panelas de sua mãe, uma flautinha de lata, um cavaquinho e uma gaitainha. E, quando a Bossa se firmou em 1959, Donato já estava longe daqui, tocando em Los Angeles, São Francisco e Nova York.
     
     “A música de João Donato tem um sabor, um mormaço, um som do Norte profundo do Brasil. É suada, dolente, langorosa, puxada a um bolero. Parece saída de um alto-falante de cabarés baratos de beira de estrada, sugere a umidade das florestas e tem a força tranqüila de rios que atravessam milhares de quilômetros para desaguar no mar”.
     
     Desde 1990, João Gilberto tem o costume de almoçar onze horas da noite. Do flat onde mora, no 29° andar de um apart-hotel no Leblon, ele telefona para seu amigo “Garrincha” maître do Búfalo Grill que lhe prepara a refeição. João acorda por volta das cinco horas da tarde, almoça às onze da noite e janta às sete da manhã. Até hoje, poucas pessoas foram convidadas para conhecer seu quarto-sala-cozinha-banheiro. Nem a faxineira tem permissão para entrar, o próprio João é quem faz a limpeza. Tratamento dentário só se for a domicílio.
     
     “Não almoça ou janta fora, não freqüenta bares, não vai a shows ou ao cinema, não caminha na praia e só aparece na casa de alguém com a garantia de que não vai encontrar estranhos. Também não dá entrevistas e só posa para fotógrafos conhecidos. Ao mesmo tempo em que economiza saídas à rua, ele praticamente não é visitado. De supetão pode convidar alguém para ir ao seu apartamento – e o faz de forma tão irresistível que, não importa a hora da madrugada, a pessoa vai correndo com receio de que ele mude de idéia”. Entre os poucos a ter esse privilégio estavam João Donato, Tim Maia e uma ou outra namorada.
     
     “Mas não o entenda mal. Nem tudo é reclusão monástica na vida do cantor. Ás vezes, tarde da noite, ele liga para um amigo ou namorada, e o convida a fazerem um belo programa juntos: dar um pulo, cada qual no seu carro, a Pedra de Guaratiba, na praia de Sepetiba, a quase duas horas do Leblon”. Ninguém se incomoda de irem em dois carros, citam o fato de que, quando vê uma reta longa pela frente, ele gosta de dirigir de olhos fechados, ou, também pode acontecer de João querer voltar para casa de repente e esquecer do acompanhante.
     
     As histórias contidas em Chega de Saudade, terminam por volta de 1970, quando a Bossa Nova já tinha se consolidado pelo mundo. Agora, em A Onda que se ergueu no mar, Ruy Castro “mergulha de novo no assunto – mas para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento certo de dar de novo à praia. E, no dia em que se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão”.
     
     
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 06/08/2006
Código do texto: T210233
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
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Danilo Nuha