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Bahia de todos os santos (1944) - Jorge Amado


      _Você já foi à Bahia, nega?
      _Não!
      _Então vá!
                  Dorival Caymmi
     


Oxalá meu camaradinho, diga me cá uma coisa. Por acaso tu ainda não se cansou desse "inumano campo de trabalho" que se transformou tua cidade? Lugar onde "a vida deve ser cruel para todos, mesmo para aqueles que possuem os bens do dinheiro e do poder", onde a maioria das relações se tornaram apenas competição, vaidade, tolice, mesquinharia, pressa e depressão.
      Olhe meu nego, preste muita atenção, para você, te deixo uma opção. Faça como Satre, Portinari, Neruda, Verger e Carybé, chame sua nega. E para completar, peça a benção de todos os orixás e babalaôs e se mande imediatamente para a cidade da Bahia de Todos os Santos, capital de São Salvador. Mas, se você ainda não tiver nem seu ioiô e, nem sua a iaiá para lhe acompanhar, não se preocupe, pois é lá na terra de Mãe Senhora, que você certamente vai encontrar.
      Antes de partir, não se esqueça de convidar Jorge Amado. Isso mesmo! Jorjamado, em pessoa. Óxente, por acaso tu tá duvidando di euzinho aqui? Pois te digo uma coisa, não existe ninguém melhor em todo planeta para te guiar nesse "único lugar do mundo onde a vida ainda não adquiriu aquela velocidade alucinante". Depois de sentir o som dos atabaques, agogôs, da cabaça e do chocalho, se enfeitiçar com a energia dos toques de berimbau no largo do Pelourinho e de ouvir as canções de Caymmi, você vai entender que baiano não é apenas quem nasce na Bahia. “Baiano é um estado de espírito, uma certa concepção de vida, quase uma filosofia, determinada na forma de humanismo".
      E você deve estar querendo saber: mas que diacho que a Bahia, a baiana e o cabra baiano tem? Bom, para essa explicação, vou chamar o próprio Jorge.
     
      - Obrigado por me chamar, agora tenho a obrigação de contar a você e à curiosidade o segredo de toda essa beleza. Lá vai: "Eis uma cidade onde se conversa muito. Ninguém sabe conversar como o baiano. Uma prosa calma, de frases redondas, de longas pausas esclarecedoras, de gestos comedidos e precisos, de sorrisos mansos e de gargalhadas largas. Apenas o baiano é mais tranqüilo, mais descansado, o tempo é mais lento, não corre com tanta pressa como no Rio ou em São Paulo. Felizmente". Tá contado
     
      Mas atenção! Jorge também tem uma advertência.
     
      - Que bom que você me lembrou. Meu compadre, tenho que te dizer: "A Bahia é uma festa, mas também é um funeral. Se fores apenas um turista ávido de novas paisagens, de novidades para virilizar um coração gasto de emoções, viajante de pobre aventura rica, então não me queira como seu guia. Ah! e se amas a tua cidade, se tua cidade é Rio, Paris, Londres, ou Leningrado, Veneza de canais ou Praga de velhas torres, Pequim ou Viena, não deves passar por essa cidade da Bahia, porque um novo amor encherá o teu coração".
     
     Você deve estar pensando: “Oh seu cabra da peste! Faltou falar da Bahia propriamente dita não foi não?
     Mas calma aí meu camará, pra quê tanta pressa! Essa pergunta, o Obá Arolu Jorginho também vai lhe responder.
     
     - Agradeço de novo pelo convite e de cara vou dizendo: "Impossível praias mais belas do que as da cidade do Salvador. Praias sem igual, de coqueiros, da mais alva areia e da brisa mais suave".
     
     Numa delas, em Itapuã, o poetinha Vinicius de Moraes gostava de beber uísque na praça Dorival Caymmi e de fazer canções com seu parceiro Toquinho.
     
     - Isso mesmo e "no céu de estrelas a lua amarela se derrama sobre o mar. À noite o mistério aumenta e a beleza da Bahia se cobre de luar".
     
      Bom filho de Oxóssi que é, Jorge Amado te levará para conhecer todas as ruas, praias, pessoas, ladeiras, becos, sobradões, lugares pitorescos, igrejas centenárias, capoeiras e candomblés, além de lhe contar todos os mistérios e lendas desta terra querida que é a nossa Bahia.
      E a você, meu bom, Jorge vai lhe mostrar a beleza, mas te mostrará também a dor. Em vez de conhecer apenas "bairros ricos, de casas modernas e confortáveis, Barra, Pituba, Graça, Vitória, Morro do Ipiranga", ele te levará em ônibus superlotados à Estrada da Liberdade, bairro operário, onde descobrirá a miséria e o sofrimento das pessoas que habitam seus casebres e cortiços imundos. Vais sentir uma revolta tão grande diante do pai que leva o cadáver de seu filho dentro de uma caixa de papelão, que como diz Jorge:
     
      - "Você sairá de lá certo de que este mundo está errado e que é preciso refazê-lo para melhor".
     
      Mas quem sabe se essa situação não lhe desperte e, seja o estopim para que você também se torne mais um companheiro nessa luta contra a injustiça desse sistema desigual de "exploração do homem pelo homem", onde impera a repressão em vez da cooperação. E não se preocupe, certamente você não vai estar só, ao seu lado estarão camaradinhos como Lamarca, Glauber Rocha, Gregório de Matos, Castro Alves, Raul Seixas, Caribé, Wally Salomão, Caymmi e Tom Zé. E então meu camará! Está esperando o quê para sair do silêncio e escrever logo seu nome de baiano.
     
         
     
     
     
     
     
     
      Poema da Advertência
     
     
      Se Obá Jorginho
      De ACM
      Caetano Veloso e Gilberto Gil
      Vier lhe falar
      Com atenção você deve escutar
     
     
      Mas com aquele jeito
      Doce e manso
      De baiano
      Você deve sutilmente
      Assim se aperrear:
     
      Ô meu pai!
      Infelizmente, o senhor deve aceitar
      Que seus meninos Caetano e Gil
      Passaram todos
      Para o lado de lá
     
     
      E junto com Lampião, Maria Bonita
      Corisco e Dadá
      Contra esses cabras safados
      De ACM e Lula
      Nós agora vamos guerrear
     
     
      Fique tranqüilo
      Em vez de fuzis e balas nesses canalhas
      Nós vamos fazer melhor
      Palavras libertárias
      Lábios infernais e cuspes de letras revoltadas
     
     
 
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 09/08/2006
Código do texto: T212340
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
42 textos (47213 leituras)
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Danilo Nuha