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NÃO SOMOS RACISTAS

RACISTAS, NÓS?
por Rogério Beier

Um dos diretores executivo de jornalismo da rede globo, Ali Kamel, acaba de lançar no mercado editorial Não Somos Racistas, um livro pequeno que trata sobre a questão das cotas raciais para o ingresso de afro-descendentes nas universidades brasileiras. Confirmando as expectativas, o autor se demonstra totalmente contra o programa de cotas e utiliza seu livro para demonstrar ao leitor as razões que o fazem tomar tal posição. Em vários momentos, o discurso chega a tomar um viés proselitista, querendo fazer com que os leitores abracem sua opinião incondicionalmente.
 
Estruturado de maneira lógica e muito bem argumentado, o livro é muito interessante para aqueles que buscam fortalecer suas posições contra o ingresso de afro-descendentes nas universidades públicas através das cotas raciais. Em contrapartida, para aqueles que apóiam esta tese, o livro pode ser muito irritante em razão do discurso do autor parecer defender, muitas vezes, os interesses de determinados grupos sociais como a classe média "esmagada", que é majoritariamente formada por brancos.
 
A questão central sobre a qual o livro se apóia é a de que a partir da década de 50, grupos de intelectuais, especialmente os ligados a sociologia, começaram a promover uma mudança na visão que o povo brasileiro tinha de si mesmo, passando de um povo misturado com diferentes tonalidades de cor de pele da qual se orgulhavam, para um povo bicolor, onde quem não é branco é considerado negro e sendo todos fortemente oprimidos pelos brancos. Todo o livro é permeado por este pensamento e Kamel escolhe o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como o representante desta mudança de paradigma, a qual seria a origem do surgimento de movimentos em favor dos afro-descendentes e programas como os de cotas.
 
Usando as estatísticas do IBGE, Kamel reconhece que a presença de negros e pardos nas universidades é pequena, quando comparada com a presença dos brancos, mas argumenta que essa diferença não se dá em função de racismo que, para ele, inexiste de forma institucional e em grande escala no Brasil, mas sim, que seja decorrente da má qualidade da educação nos ensinos fundamental e médio da rede pública, onde a maioria dos habitantes pobres deste país estão matriculados. Portanto, para Kamel, o que causa a desigualdade entre brancos e afro-descendentes nas universidades é a pobreza que atinge a todos, mas em maior quantidade os afro-descendentes, e não o racismo.
 
Para solucionar o problema, o autor sugere investimentos maciços do governo em educação, de maneira semelhante ao que fizeram Chile, Irlanda e Coréia, que conseguiram dar essa virada nos padrões de qualidade de suas educações há alguns anos e hoje começam a colher os frutos de tais políticas. Para isso, aponta que o dinherio deveria sair dos programas de transferência de renda como o Bolsa Família ou os programas de auxílio a idosos e deficientes físicos que, para ele, são mal gestados e com baixo foco, beneficiando, em muitos casos, pessoas fora do perfil traçado pelo governo para receberem tais benefícios. Traduzindo em números, Kamel demonstra que no ano de 2006 o governo pretende investir 20 bilhões de reais em programas de transferência de renda e 9 bilhões de reais em educação. Sua idéia é inverter esses investimentos, e aplicar os 9 bilhões com transferência de renda com maior controle e para quem realmente necessista.
 
O grande mérito do livro é trazer a questão das cotas raciais novamente à tona de maneira inteligente e com uma boa argumentação, independente de o autor ter deixado a isenção do jornalista de lado e se posicionado claramente em favor de um dos lados. Porém, talvez em razão da brevidade do livro, o autor não apresenta soluções que busquem diminuir a diferença do número de brancos e afro-descendentes na universidade à curto prazo e, mesmo na solução que ele apresenta, que é o investimento massivo em educação, ele não dá nenhuma indicação de como este dinheiro deveria ser investido, deixando livre a interpretação de que o dinheiro da educação poderia ser investido tal qual é feito atualmente, nessa mesma infra-estrutura educacional, o que me parece um grande equívoco.
 
Portanto, "Não somos racistas" vale o investimento dos R$22,00 pois ajuda o leitor a desenvolver uma massa crítica de conhecimento sobre a questão das cotas raciais, o que é fundamental para que se tome uma posição sobre este assunto, independente de qual seja a opinião prévia deste leitor. Além disso, como o próprio título sugere, o livro propõem uma reflexão sobre o racismo no Brasil. O autor deixa muito clara sua posição quanto a este assunto mas, como aconteceu comigo, pode ser que o leitor não chegue a mesma conclusão, por vários motivos, como viver o cotidiano de uma periferia excludente onde brancos e afro-descendentes vivem em um conjunto não tão harmonioso como o pregado pelo autor, ou então, sentindo na pele a discriminação racial da polícia, da escola pública, da saúde pública, das empresas privadas e de muitos segmentos da sociedade, que se escondem atrás de posturas hipócritas contra o racismo, jamais admitindo a não conformidade que sentem contra os afro-descendentes, mas impedindo que estes aproveitem as oportunidades que uma sociedade republicana democrática oferece à todos os seus cidadãos.

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NÃO SOMOS RACISTAS
Ali Kamel
Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2006
3 Estrelas
Roger Beier
Enviado por Roger Beier em 14/09/2006
Reeditado em 14/09/2006
Código do texto: T239999
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Sobre o autor
Roger Beier
São Paulo - São Paulo - Brasil, 39 anos
44 textos (4907 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 01:59)
Roger Beier