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Soroco, sua mãe e sua filha

Resenha Crítica
ROSA, J. G. Soroco, sua mãe e sua filha. In. ______ Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Cordisburgo, 1967.

O livro “Primeiras estórias de Guimarães Rosa teve um importância muito grande na carreira do autor, pois marca não só o lançamento de seu primeiro livro de contos (histórias curtas), mas também o iniciar de suas publicações a respeito do sertão.

Um trem aguarda a chegada da mãe e da filha de sorôco para conduzí-las ao manicômio em Barbacena. “Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele parente nenhum” (ROSA, 1967, P. 18). Essa é a situação de Sorôco descrita por Guimarães, um homem que muito embora conviva com a mãe e a filha era o mesmo que viver só, pois elas viviam as margens da racionalidade, ou seja, eram loucas essencialmente. Ao longo do conto, podem-se observar claramente adjetivos que descrevem a situação e a problemática de Sorôco: ele é descrito barbaramente: “Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo com a cara grade, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas [...] mais da voz era quase pouco, grossa, que em seguida se afinava” (ROSA, 1967, P. 18); e em outra citação do conto diz: “[...] sua roupa melhor, os maltrapos”. Sem dúvidas, esses adjetivos demonstram um homem sofrido e largado, devido à situação, tanto que até mesmo as crianças tinham medo dele quando o viam.

No conto é narrado um acontecimento esperado por todos na cidade: era o dia em que a mãe e a filha de Sorôco seriam levadas para o hospício. Guimarães apresenta um cenário como um grande espetáculo, coisa de cidade pequena do interior. As pessoas se ajuntavam, todos queriam ver e comentar o fato. Porém, embora Sorôco estivesse cercado por toda aquela gente, a verdade é que ele estava solitário, pois se nota claramente, no texto, como o povo procurava esconder o sentimento em relação ao acontecimento e também conversavam com cautela, “As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, com sabendo mais do que o outro a prática do acontecer das coisas” (ROSA, 1967, P. 18). Esse esconder de sentimento apaga a ação de solidariedade que eles deveriam ter com Sorôco.

Mas quando Sorôco trouxe as duas tudo já estava preparado, o carro, o trem, e ouviu-se o grito “Eles vêm! [...]”. Ele estava levando elas acompanhado com uma multidão e ao chegarem ao local eles ficaram por um instante, enquanto a mãe e filha de Sorôco praticavam seus atos de loucura,

A filha - a moça – tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras – nenhum. A moça punha os olhos no auto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas – virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam (ROSA, 1967, P. 19).


e eram realmente cenas de dar graça, e o povo embora quisesse rir, escondia esse desejo para expressar o sentimento de dó e lamento em relação o acontecimento, e Sorôco se portava de forma cautelosa e humilde e respondia: “Deus vos pague essas despesa [...]”. Então, é narrado as lamurias do povo, enquanto as duas continuavam a cometer seus atos irracionais, mas o mais destacável é o cantar, elas se olharam como que se entendessem uma a outra e cantarolavam.

Na hora da partida, a tristeza tornou-se mais intensa, para Sorôco, e era acentuada pela canção que se ouvia entoada pelas duas, que chamava a atenção para os acontecimentos passados e agora pelos futuros: a solidão. “Elas iam pra longe, pra sempre”. E ele ficou lá olhando desconsolado e querendo, mas sem dizer uma palavra. Ele se queixou e a multidão tenta o consolar dizendo: “o mundo está dessa forma [...]”, embora se pode notar que nem tinham o que dizer a esse respeito. A cena foi tão chocante de comoveu todo o povo de forma que se abriram solidariamente a ele.

Mas, no auge desses acontecimentos algo de estranho acontece com Sorôco, “Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra er-s’embora”. Ele sai dali não mais o mesmo, perdeu a razão: “Mas parou. Enquanto se esquisitou parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido”. De repente, Sorôco começa a cantarolar a mesma canção que a mãe e a filha cantavam. Assim, diante disso, pode-se dizer que Sorôco aparentemente ficou louco (loucura aparente). E todos vendo a situação, sem ter o que fazer, não puderam assistir sem se solidarizar com ele, e numa só voz todos cantavam a cantiga, sem nenhuma razão e foram levar Sorôco para casa.

Concluindo, ao longo do conto, nota-se que o povo que circundava Sorôco, passa de uma situação despreocupação para uma ação solidária e isso é algo que vai se intensificando e ao mesmo tempo Sorôco de um estado equilibrado torna-se aparentemente louco, no final do conto, perdendo a razão diante da situação de solidão a que está acometido, porém é amparado solidariamente pelo povo.

O conto é envolvido por uma atmosfera de suspense, de expectativa e de sentimento que não poderia ter sido possível sem a linguagem roseana. Visto que tal linguagem é empregada por Guimarães, perfeccionista como era, tem a finalidade de criar uma maneira perfeição de dizer e de expressar claramente os acontecimentos narrados. Como ele mesmo dizia: “as palavras estão a nossa disposição só temos que saber usá-las”.

MENEZES, L. F.
LeandroFreitasMenezes
Enviado por LeandroFreitasMenezes em 13/03/2011
Código do texto: T2845427
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LeandroFreitasMenezes
Colatina - Espírito Santo - Brasil, 40 anos
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