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Ensaio sobre a cegueira

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


No último artigo, comentei que passaria a utilizar os títulos de filmes para compartilhar minhas reflexões neste espaço.
Certamente nenhum cinéfilo prestigiou a sétima arte com o frontispício acima, mas acreditem, ainda veremos. O escritor José Samarago, em especial nesta obra, nos alerta da cegueira que reina nas sociedades modernas.
Aos que não conhecem o escritor, ele nasceu em 1922, na província do Ribatejo, em Portugal; em 1998 tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Aqueles que tiveram o privilégio de desfrutar este romance editado pela Companhia das Letras, saberão que as palavras que seguem não são minhas, mas do nobre lusitano.
Diz ele: “depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. Mais adiante ...A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos”.
A próxima seqüência é impar e é ela que deve guiar nosso senso ético diz ele “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais, tantas vezes o repetiu, que o resto da camarata acabou por transformar em máxima, em sentença, em doutrina, em regra de vida, aquelas palavras, no fundo simples e elementares.”
Tudo que temos de péssima qualidade na sociedade de alguma forma está muito próximo do descrito.
A cada dia multiplicam-se homens e mulheres feitos, que param perplexos diante dos desafios da vida: emprego, escola, segurança, moradia, transporte, sogra, políticos, planos de saúde, vizinhos, (não necessariamente nesta ordem).
Escreve Saramago: Pareceu ao médico que ouvia chorar, um som quase inaudível, como só pode ser o de umas lágrimas que vão deslizando lentamente até as comissuras da boca e aí se somem para recomeçarem o ciclo eterno das inexplicáveis dores e alegrias humanas.
Quanto a morte relata: “Como foi que ela morreu, mas também poderia ser Que vos fizeram lá, ora, nem para outra deveria haver resposta, ele morreu, simplesmente, não importa de quê, perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, Morreu.”
Na próxima transcrição ele chama a luz e a responsabilidade daqueles e daquelas que não estão cegos, em sentido figurado: se existe uma relação directa entre os olhos e os sentimentos, ou se o sentido de responsabilidade é a conseqüência natural de uma boa visão, mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.
As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às vezes são os nervos que não podem agüentar mais.
Quanto a estas mal traçadas linhas, as minhas é claro, “Guarda o que não presta, encontrarás o que é preciso, dissera-lhe uma avó, no fim das contas a água em que os pusesse de molho também serviria para cozê-los, e a que restasse da cozedura teria deixado de ser água para tomar-se caldo. Não é só na natureza que algumas vezes nem tudo se perde e algo se aproveita”.
Não imaginem que o texto é triste, rancoroso, pelo contrário é belo, pois é fruto da refinada experiência humana.
O difícil sempre, nas grandes obras, é nossa tentativa de enquadrá-la em uma única frase, em um pensamento ou uma idéia, mas é exatamente isso que caracteriza as obras que não perecerão, elas deixam marcar, mudam as pessoas e melhoram o mundo.
Saramago dá resposta a este nosso esforço intelectual dizendo: Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.


Ronilson de Souza Luiz
Enviado por Ronilson de Souza Luiz em 11/11/2006
Código do texto: T288908
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Sobre o autor
Ronilson de Souza Luiz
São Paulo - São Paulo - Brasil, 46 anos
26 textos (2972 leituras)
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Ronilson de Souza Luiz