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Ulysses: A Transcendência da Forma

        Flaubert em sua vetusta correspondência alimentou o sonho de se compor um romance sobre assunto algum, uma estória que se sustentasse somente pelo estilo(um esforço para romper com a forma prosaica de escrever, esforço que só numa mente prodigiosa poderia encontrar ninho e seiva para crescer). Ainda sob efeito dessa psicose o autor de Madame Bovary, lançou-se, nos últimos anos de sua vida a compor, o que segundo a crítica, se fosse concluída, seria a opus maxima do escritor francês: o livro Buvard et Pécuchet, um monumento à imbecilidade humana.
Com a publicação editorial da correspondência pessoal de Flaubert, por sinal uma das mais volumosas de que se tem conhecimento, esse sonho louco veio público fazendo com que vários escritores do primeiro quartel do século XX, começassem a olhar com mais demora para a forma da obra e não tanto para o enredo, já tão chibateado, amalgamado, reinventado nas artimanhas da editoração folhitinesca. Foi aí que surgiu essa hedonização da transcrição do eu irredutível, através de um estilo originalíssimo, ou literariamente falando, o diálogo interior, pondo em segundo plano o desenvolvimento exterior da narração. É o que está patente em Faulkner, Virgínia Woolf, Fitzgerald, Joyce, Clarice Lispector, só para dá um exemplo. Salientando-se que Scott Fitzgerald não cultivou essa técnica, porém sobressai-se o modo como em sua obra o painel exterior, o da era do jazz, está delineado, constituindo-se como único sustentáculo da narração, contrariamente ao que ocorre com os outros escritores citados.
O frenesi do mercado editorial que tanto tem afetado a lavra de grandes artistas, também atingiu a sutilidade da maioria dos críticos que não perceberam, além da inovação técnica, claro, a transformação dimensional pela qual passou o romance no começo do século XX. Não notaram que o ideal de Flaubert, acalentado há que cem anos, fora atingido, o que mostrou a publicação de Ulysses, de Joyce, por exemplo. Um romance no qual as futilidades viram arte, e os menores detalhes hora ganham dimensões descomunais, hora passam desnecessariamente sem interferir na espinha mestra da história. Não que um romance sobre assunto algum, tenha sido atingido em sua plenitude por Joyce, e creio que jamais o será por qualquer escritor, de qualquer época, porém o ensaio no esforço de mostrar a magia do cotidiano, quase sempre desnudo de qualquer surpresa excitável para o leitor ávido, conseguiu levar a arte para a onisciência mais profunda da vida.

Aracati-Ce., 03 de março de 2006.
André Breton
Enviado por André Breton em 28/11/2006
Código do texto: T303595

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Sobre o autor
André Breton
Aracati - Ceará - Brasil, 31 anos
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André Breton