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Livro 1961: O Brasil Entre A Ditadura E A Guerra Civil

Alguns livros encarnam-se bem como filmes. Já alguns filmes caem melhor na forma de livros. Foi essa a impressão que tive ao ler o livro 1961: O Brasil Entre A Ditadura E A Guerra Civil: é um filme tipografado. Passando por cada uma de suas bem escritas linhas tive a sensação de que estava olhando através da televisão para o conturbado período do passado brasileiro. A trama é de dar inveja aos melhores roteiristas de Hollywood: tem intrigas, suspense, drama; tem muitos mocinhos e bandidos, e muitos deles fazem os dois papéis ao mesmo tempo.
Não é um romance. Juro. É a narração pura dos eventos compreendidos entre a renúncia do Presidente da República Jânio Quadros e a tumultuada posse de seu sucessor, João Goulart. Para ir de um ponto ao outro, muitas paradas: o jeito Jânio de governar; a Rede Legalidade, de Brizola; os conflitos internos que subverteram a ordem nas Forças Armadas; alianças, rompimentos, planos... Bocejou? A impressão de seca e pesada historiografia é só uma impressão mesmo, que passa logo na primeira página. Bastam algumas linhas para chegar à sensação de livro-cinema. Fluído, leve, dramático como só a realidade nua consegue ser, o livro é arrebatador graças ao talento de Paulo Markun e Duda Hamilton, e graças aos fatos em si, complexos e intrigantes.
Na capa, um Jânio Quadros em pose grotesca numa foto despretensiosa sintetiza bem as intenções do livro: contar os detalhes da história de uma forma acessível, sem marcas de tratado acadêmico. O livro mergulha até o ponto ideal: não tão raso a ponto de desinteressar e não esclarecer; nem vai assim tão fundo, a ponto de se encher com banalidades. Retratando os personagens de forma precisa e imparcial, permite enxergar pessoas ao invés de mitos: gente de carne e osso com sentimentos, que erram e acertam e muitas vezes não sabem para onde vão. Acredito que o livro cumpre assim uma segunda função: desmistifica um pouco o “poder”, aproxima as pessoas do que parece estar tão distante. Desnuda os atores políticos, exibindo suas faces humanas. Podemos ver através de “1961” que “certo” e “errado” são pontos de vista, partidos políticos são pontos de vista. Fica claro o maior paradoxo da sociedade: todos agem em nome de um “bem público”, e às cometem as maiores atrocidades para isso – e morrem crendo sinceramente que fizeram o que era certo: tachar alguém de “mocinho” ou “bandido” é uma questão de gosto.
Cada movimento importante é analisado sob várias perspectivas. Assim, por exemplo, a volta de Jango ao Brasil é envolvida com relatos que mostram as reações dos principais atores envolvidos em todos os lados do front: o lado dos “legalistas”, o lado dos “golpistas” e até o lado de baixo: populares, pessoas não tão famosas assim, cujos nomes não são ensinados na escola, mas cuja contribuição não é menos importante.
A importância do livro não se limita à sua qualidade literária. Em política e economia, cem anos é pouco. Assim, ler sobre um fato tão marcante e ao mesmo tempo tão recente de nossa história significa reler o presente com novos olhos. O livro 1961 é aquela nota de rodapé providencial para as crônicas e artigos hodiernos: indispensável para compreendermos melhor por quê estamos onde estamos. Recomendo vivamente: você pode até não gostar de História, mas não pode se furtar do presente; e quem quer compreender o ambiente em que vive, precisa compreender um pouco como ele foi formado.
kaotisch
Enviado por kaotisch em 22/01/2012
Reeditado em 05/02/2012
Código do texto: T3454746
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
kaotisch
Três Rios - Rio de Janeiro - Brasil, 28 anos
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