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CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA - LÚCIO CARDOSO



“Que são os fatos de que nos lembramos, senão a consciência de uma fugitiva luz pairando oculta sobre a verdade das coisas?”
Lúcio Cardoso

Inicio a leitura do romance de Lúcio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada, como se estivesse entre brumas de uma madrugada de inverno. A morte da protagonista logo no primeiro capítulo, retratada no diário de André, seu filho e amante, é a revelação das realidades mais perversas, vestidas num luto desbotado de incesto, abandono e loucura.
Uma narrativa incomum, fragmentada entre os diários, confissões e testemunhos que costuram com maestria a história dos Meneses, centrada na presença de uma mulher desconhecida... Nina, a protagonista, é apresentada no olhar dos outros e permanece com muitos mistérios a serem desvendados pelo leitor. É uma mulher do Rio de Janeiro com um passado suspeito e gostos extravagantes que se deixa enganar pela pseudo-riqueza de Valdo Meneses. Quando chega à chácara no sul de Minas Gerais, depara-se com uma família decadente e uma casa em ruínas. Além da pobreza material, existe a miséria das almas, a solidão e a perversão escondida sob o desgastado telhado.
Nina se revolta com o engodo, mas compreende que a partir daquele momento é uma refém da casa, mais um destroço... Logo firma um pacto com Timóteo, o Meneses homossexual, aprisionado em seu quarto e em sua loucura, vestido com farrapos de roupas femininas e com ricas jóias de família, para atingir a vital libertação com a destruição dos falsos alicerces da família. Timóteo é o brilho enterrado junto aos espectros de quem perdeu a capacidade de se identificar distante do nome da família, a valorização dos esquecimentos consentidos, a memória emoldurada em algum lugar do cômodo fechado.
A indução ao suicídio de Valdo Meneses, o adultério, o suicídio do jardineiro e o nascimento do filho de Nina no Rio de Janeiro, distante dos seios ressequidos da casa, marcam a ruptura do tempo e as arestas de sua destruição.
O retorno da protagonista à chácara dos Meneses, após quinze anos de ausência, abrirá a ferida que não cicatrizará e espelhará com nitidez o assassinato da casa com a indução/consumação do suicídio de todos os seus habitantes. A doença contagiosa que todos percebem fortalece os infernos pessoais e resseca a possibilidade de renovação em uma nova estação. Uma morte vaticinada no desejo de um velório ornado por violetas.
Timóteo é um personagem ímpar. É impossível defini-lo no universo vazio dos Meneses. Representa o que as famílias tentam esconder em seu corpo monstruoso, o que gritam os grandes silêncios na lucidez de suas percepções encarceradas numa alma demente, as rachaduras que condenam a construção nos primeiros alicerces... Suas falas traçam a realidade da família presa aos escombros: “É esta a única liberdade que possuímos integral: a de servos monstros para nós mesmos.”
Ana, esposa de Demétrio Meneses e cunhada de Nina, é a narração das intenções da protagonista, um olhar sempre escondido acompanhando a vida pulsar na beleza do corpo de Nina com revelações assustadoras para quem está condenada a ser uma sombra dentro da metafórica casa. Uma personalidade que cresce no enredo, compreende a vida (morte) nas presenças e ausências dos demais personagens, amarga os interditos e sobrevive a todos para, num final miserável, confessar os pecados e morrer sem perdão.
A agonia de Nina, sua alma libertária presa a um corpo carcomido pelo câncer, é a ramificação da metástase que condena a casa e contagia seus habitantes com a degenerescência da propriedade produtiva transformada em um cemitério de mortos-vivos.
No velório, observamos as máscaras de todos os personagens diante de um mundo de representações. A morte de Nina possibilitou a entrada de Timóteo no centro do cenário e rompeu de modo radical com as falsas realidades que norteavam o vazio da família Menezes.
O depoimento de Valdo Menezes descerra o significado da aparição de Timóteo: “Sua entrada poderia ser extraordinária, mas poderia muito bem significar apenas a entrada de um homem doente. Descendo, vestido naqueles trajes mais do que impróprios, cometia um insulto, e um insulto que atingia todo mundo reunido naquela sala. Os homens suportam uma certa dose de grotesco, mas até o momento em que se sentem implicados nele. De pé, parado diante daquela gente, Timóteo era como a própria caricatura do mundo que representavam – um ser de comédia, mas terrível e sereno.”
Violetas... As flores marcam as estações dos personagens, os enganos, a vida na realização do amor no canteiro de um homem jovem, as tantas mortes, a ressurreição possível na imortalidade dos genes e a prisão a que estão condenados os homens resignados. Timóteo grita o seu desespero quanto percebe no filho de Nina o semblante do jardineiro morto: “Deus, Nina, é como um canteiro de violetas cuja estação não passa nunca... Deus é uma vastidão sem termo de entendimento, de perdão e de beleza.”
Amanheço com o desfecho do romance. Algo definitivamente mudou e percebo o dia com mais claridade. As palavras de Timóteo reverberam: “É preciso nos concentrarmos, é preciso retirar de tudo sua dose máxima de interesse e veemência. E se nada me habita, se sou apenas um fantasma dos outros...” A leitura de Crônica da Casa Assassinada abre janelas, devassa minha intimidade com uma interpretação profunda das paixões humanas e renova o ar das estações anteriores.
Lúcio Cardoso deu vida a um texto absoluto e cabe a cada leitor consagrá-lo com a imortalidade de uma grande obra literária.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 10/08/2005
Código do texto: T41731
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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