Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

          Segue o prefácio "Um Colar de Contos" que escrevi para o livro "A Menina do Faz de Conta", reunião de contos infantojuvenis, da autora amazonense Regina Viana, atualmente radicada no Rio de Janeiro. A obra foi produzida pela Dowslley Editora, de Niterói-Rio de Janeiro, em 2017.   Regina é formada em Comunicação Social, com especialização em Jornalismo.  Fez também três anos de História da Arte e Cinema, na Sorbonne (França).  Residiu em várias cidades do exterior:  Barcelona (Espanha), Paris (França), Nova York (Estados Unidos) e Buenos Aires (Argentina).  "A Menina do Faz de Conta", é seu livro de estreia. 
 
Prefácio: Um Colar de Contos, de Ricardo Alfaya.
 
          Escrever para o público infantojuvenil não é para qualquer um. Além de possuir bom domínio da escrita, o autor tem de saber dosar o vocabulário.  Por outro lado, é necessário também que o resultado apresente uma qualidade cativante e envolvente.  Afinal, o público-alvo desse gênero literário é dos mais exigentes.  Todos sabem da franqueza, muitas vezes desconcertante, das crianças e dos adolescentes.
            Regina Vianna se propôs esse desafio e se saiu muito bem.  Exibirei alguns dos méritos desta obra, sem pretender esgotar todas as ricas possibilidades que oferece.       
Para começar, sublinho a ausência de maniqueísmo.  Regina respeita a inteligência do leitor.  Ao longo destas quase duas dezenas de contos, a autora deixa clara sua maneira de pensar e sentir, em relação a diversos temas.  No entanto, sabe fazê-lo com sutileza, sem cair na tentação de impor os famosos e lamentáveis conteúdos que se pretendam moralizadores, tão comuns nesse gênero literário, e que tanto destroem o clima onírico quanto limitam o sentido das narrativas.  Muito pelo contrário, Regina combina realidade e fantasia, de tal maneira, que faz com que o leitor muitas vezes se veja diante do inusitado e seja obrigado a expandir seu pensamento, de modo a considerar o divergente, o incomum, e daí tirar sua conclusão.  Isso é bem o que acontece, por exemplo, no conto O menino turco, em que se desenrolam cenas mágicas e sensuais, num clima absolutamente encantador e exótico, com sabor oriental.
            Aliás, sensualidade e sexualidade são fatores marcantes neste livro.  Embora já faça mais de um século que Sigmund Freud provou a existência da sexualidade infantil, esse ainda é um tema tabu, especialmente em obras voltadas para o próprio público infantojuvenil.  Regina trata do tema com notável delicadeza e sensibilidade.  Narrativas como Aquelas tardes, entre outras, são inesquecíveis.
            E aqui, outro mérito: estamos diante de uma obra atual.  Os enredos, sem terem o vício do didatismo, ajudarão os leitores não apenas quanto a reflexões sobre si mesmos, mas também no que se relacione aos valores morais da época de seus pais.
            Outro aspecto delicado, com o qual a autora lida muito bem, é a questão da perseguição à criança que se mostre diferente do grupo; uma velha e terrível prática, para a qual se vem aplicando, cada vez com mais frequência, o termo bullying. São exemplares e desconcertantes, no tocante a esse aspecto, as histórias Palito engomado e Jabuti não gosta de carinho.
            Regina não ilude seu público (outro mérito). Há muita magia, o tempo todo, na obra.  Porém, a escritora sabe e avisa: um dia o colar de contas há de ser rompido. 
Aliás, num jogo metalinguístico, cada conto, de certo modo, transforma-se numa conta de um colar imaginário.  E esse colar simboliza a vida que cada um traz presa ao pescoço.  Desse modo, a autora começa e termina falando na personagem Luísa, num movimento circular, como se o próprio livro fosse um colar que se abrisse e fechasse.  Ideia que também remete a Parmênides, que considerava o círculo a forma perfeita, e a Carl Jung, que via no círculo (estrutura essencial de toda mandala) uma representação do self, a parte mais íntima e profunda do ser.
            A fantasia, o encanto, isto é, a arte, as viagens, o pensamento são formas de resistência.  Afinal, por toda parte há um mundo hostil, mascarado às vezes com nomes inocentes como Estrela do Agreste.  É preciso estar preparado para não sucumbir.  E tudo o que eleva e enleva o espírito torna possível o faz de conta de que vale a pena ter esperança e seguir em frente. Importante perceber que, embora tudo seja transitório, a magia está sempre presente.
            Como no originalíssimo conto A borboleta azul e a mariposa dourada.  Linda, frágil, delicada, angelical, a borboleta azul (cor da espiritualidade), somente não se perde no duro mundo da realidade urbana porque é auxiliada pela terrestre e experiente mariposa.  A mariposa - símbolo do escuro, do underground, do dostoievskiano homem do subterrâneo - vem em socorro da criatura elevada.  O dourado de suas asas resulta, em parte, do reflexo das luzes sobre elas. Também, de sua própria elevação pelo sofrimento.
            Por fim, dentre os tantos aspectos positivos e criativos desta obra, impossível deixar de ressaltar justamente a presença dos vários bichos (borboleta, mariposa, formigas, cachorros, gatos, jabuti), presenças características de um livro do gênero.  E esses animais recebem aqui um tratamento ostensivamente ligado às questões alusivas ao meio ambiente.  Pois, antes de tudo, Regina sugere a seu leitor o desenvolvimento de uma moral própria e de uma postura crítica perante a realidade. Proposta de que ela mesma dá testemunho.
Ricardo Alfaya
Enviado por Ricardo Alfaya em 12/11/2017
Reeditado em 14/11/2017
Código do texto: T6169911
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Livros à venda

Sobre o autor
Ricardo Alfaya
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
3 textos (68 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/11/17 15:52)
Ricardo Alfaya

Site do Escritor