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RESENHA CRÍTICA

ORLANDI, Eni Pulcinelli. O que é Lingüística. São Paulo: editora brasiliense, 1986, 184 p.
Palavras-chave: Lingüística; Gramática Gerativa; Funções da Linguagem; Sociolingüística.

Orientada pela Profa. Dra. Cibele Gadelha Bernardino - UECE
(resenha feita na disciplina de produção de gêneros acadêmicos na Fafidam).

Com o seu livro “O que é lingüística”, a autora fornece elucidações inerentes à historiografia da Lingüística e destaca as tendências atuais que se voltam para o estudo da heterogeneidade e diversidade, observadas no uso concreto da linguagem, por falantes situados num determinado contexto sócio-histórico. Orlandi analisa as premissas de muitas vertentes do pensamento lingüístico, seus precursores, as concepções gerais sobre os objetos de estudo desta ciência.
Esta obra compõe-se de seis capítulos.
No capítulo inicial, Orlandi afirma que o ser humano necessita de conhecimentos para poder se estabelecer no mundo em que vive. Para isso, avaliou-se o desenvolvimento dessas relações de dedicação do homem desde a antigüidade pelo estudo da linguagem, a partir da observação das diversas manifestações de época de sua determinada cultura. Mas, com o surgimento da Lingüística, esses fatos tornam-se objetos de análise científica.
No segundo capítulo, ela busca subsídios que permitam distinguir o estudo da linguagem com o estudo da gramática. Porque, a Lingüística não objetiva prescrever normas ou ditar regras para o uso da linguagem e, sim, interessa-lhe tudo que faz parte da matéria lingüística, uma vez que esta ciência expressa a realidade social e natural dos falantes através de signos. Então, os aspectos principais, deste capítulo, dizem respeito aos estudos dos racionalistas, das contribuições das gramáticas comparadas, da descrição formal da linguagem através de uma metalinguagem histórica e de suas tendências principais de percurso psíquico que é a relação da (linguagem/pensamento), chamado de Formalismo e do percurso social (linguagem/sociedade), que se intitula de Sociologismo.
A autora avalia no terceiro capítulo, a importância dos estudos de Saussure e menciona os aspectos da obra desse importante lingüista Curso de Lingüística Geral publicado em 1916 pelos seus principais discípulos Bally e Sechehaye que reuniram os manuscritos de seu mestre. Devido, aos seus ensinamentos, Saussure institui definitivamente para esta ciência da linguagem uma divisão em quatro disciplinas, segmentadas em quatro níveis de análise: a fonologia, a morfologia, a sintaxe e a semântica.
Com a perspectiva teórica de Saussure mencionada pela pesquisadora, a língua passa a ser o principal objeto de estudo da Lingüística. Para ele, a língua fundamenta-se por ser um “sistema de signos” que são associações do significante (imagem acústica) e significado (conceito). Entretanto, estes dois elementos são arbitrários por serem constituídos por unidades abstratas e convencionais. Um importante pressuposto evidenciado por ele, é a distinção entre língua (langue) e fala (parole). A primeira é vista como um sistema abstrato, um fato social, geral, virtual; já a fala é a realização concreta da língua pelo falante, sendo circunstancial e variável. Outra diferenciação é feita por Saussure, ou seja, ele separa sincronia (estado da língua) e a diacronia (evolução da língua).
A organização interna da língua é chamada de Sistema por Saussure, porém seus sucessores o denominaram de Estrutura. Sendo que cada elemento da língua só adquire um valor quando se relaciona com o todo de que faz parte. Então, qualquer unidade lingüística define-se pela sua posição em relação ao sistema total da língua, já que o método que posiciona a Lingüística como ciência-piloto é o método estrutural.
Percebe-se que desde sua origem o estruturalismo serviu a varias ciências e, por isso, possui muitas formas em seu interior. Um deles é o funcionalismo que considera as funções desempenhadas pelos elementos lingüísticos, sob qualquer de seus aspectos: fônicos, gramaticais e semânticos. As distinções fônicas descrevem também as unidades gramaticais e semânticas. Surge daí, portanto, algumas dificuldades em encontrar traços para distinguir significados ou formas e construções. Para tanto, os funcionalistas procuram sofisticar seus instrumentos de descrição.
Para dar conta dessas dificuldades, eles instituíram diferentes tipos de relações: as oposições e os contrastes. Os dois eixos, o paradigmático (organiza as relações de oposição em que as unidades se substituem) e o sintagmático (representa as relações de contraste em que as unidades se combinam), estes são o suporte da organização geral do sistema da língua. Assim, toda a estrutura da língua estaria sustentada por essas relações de substituição ou de combinação de formas.
Orlandi, no quarto capítulo, estabelece ainda uma sistematização sobre a noção de relação e a própria noção de função que foi entendida pelos estruturalistas, considerando as funções constitutivas da natureza da linguagem em que são caracterizadas conforme o papel de cada um no esquema da comunicação. Dividiu-se, pois, as funções da linguagem em: expressiva (centrada no emissor), que é função dominante é expressar o sentimento de quem fala; conotativa (centrada no receptor), que centra a função da sua fala no destinatário, com quem está falando; referencial (centrada no objeto da comunicação) centra-se sua comunicação num estado de coisas do mundo (referente); fática (centrada no canal), no contato que liga (emissor e receptor), que privilegia na comunicação o próprio contato estabelecido com a outra pessoa; poética (centrada na mensagem), ou seja, em geral, essa função aparece na literatura, mas ela se dá toda vez que se privilegia a própria mensagem na comunicação; metalingüística (enfatiza o código), utilizando-se de uma linguagem que explique ou fale da própria linguagem.
Neste contexto, nasce nos Estados Unidos o ‘distribucionalismo’ proposto por L. Bloomfield e desenvolvido por seus alunos. Tal corrente dos estudos lingüísticos se opõe as explicações da linguagem que fizessem recurso a “exterioridade” do homem e propôs, portanto, uma explicação “comportamental” (behaviorista) dos fatos lingüísticos, fundada no esquema estímulo/resposta. Isto significa que a primeira etapa de seu projeto lingüístico é a descrição. O distribucionalismo exclui o historicismo e também qualquer referência ao significado. Também de acordo com o distribucionalismo estudar a língua é reunir um conjunto de enunciações emitidas pelos falantes em um certo momento, pois a distribuição é verificada em todos os níveis da linguagem: fonológico, sintático e semântico.
Com o desenvolvimento da Lingüística, surgiram os círculos lingüísticos que se constituíam de grupos de estudiosos que discutiam a linguagem sob certas perspectivas. Os principais são: o Círculo Lingüístico de Moscou (CLM) de 1915 pelo russo R. Jakobson que reunia os formalistas, objetivando a estudar a língua e as leis da produção poética e o Círculo de Praga (CLP), criado pelo Tcheco Mathesius que se iniciou com o manifesto dos russos Troubetzkoy, Karcevsky e Jakobson.
Nos anos 50, Noam Chomsky produz uma mudança na Lingüística, embora o estruturalismo estivesse potente. Ele critica a evocação classificatória dos distribucionalistas, propondo uma reflexão sobre a linguagem. Isto é, uma gramática centrada na sintaxe que explicasse a linguagem. Dessa forma, com seus estudos, Chomsky propôs que a linguagem passasse a ser explicativa e científica. Para ele, os lingüistas devem descrever a competência (competence) que é a capacidade que todo falante/ouvinte tem de produzir/compreender as frases da língua. Neste diapasão, não lhe interessa o estudo da atuação (performance) que é o desempenho de falantes particulares em suas atividades lingüísticas concretas, mas sim a capacidade que todo falante/ouvinte ideal tem. Posto que, a faculdade da linguagem é peculiar ao ser humano e é inata, pois nasce com ele.
A Gramática Gerativa Chomskyana permite a partir de um número limitado de regras, gerar um número infinitivo de seqüências que são frases, associando-lhes uma descrição. Esta gramática possui dois tipos de regras: sintagmáticas que geram estruturas abstratas, e de transformação nessas estruturas abstratas nas seqüências terminais.
Os adeptos da Semântica Gerativa levantam críticas sobre a relação entre sintaxe e semântica. Para eles, a sintaxe não é o centro autônomo nas frases. Porque quem tem o poder gerativo é a semântica conforme o discípulo de Chomsky, Lakoff.
Após as objeções colocadas pelos semanticistas gerativos, Chomsky persistia em mostrar a autonomia da sintaxe. Em virtude disso, ele propôs a teoria-padrão ampliada (1972). Posteriormente, a reformula e resulta a teoria-padrão revista (1976). Valorizou-se a estrutura superficial (ES) que é a das unidades tal como elas se apresentam nas frases realizadas e atribuiu menor importância a estrutura profunda (EP) que é subjacente a superficial e em que se representam as formas abstratas e desprestígio às transformações.
Surgem, por fim, outras tendências a partir da divisão da Lingüística como ciência da linguagem (conjunto de regras ou sistema de signos) e das línguas (idiomas históricos falados por diferentes povos). Desse modo, Orlandi traça neste quinto capítulo, o objetivo da Sociolingüística, que é sistematizar a variação existente na linguagem. Ela julga que a linguagem não é homogênea, mas é heterogênea e dinâmica. Vendo, portanto, na linguagem os reflexos das estruturas sociais. Metodologicamente, a Sociolingüística centra-se na análise de dados, relacionando-se através de fatores sociais de variação lingüística com a mutação sociológica, já a Etnolingüística toma a linguagem como causa das estruturas sociais e não como reflexo;
A partir daí, ofereceu-se mais ênfase ao estudo da significação por meio dos pressupostos da Pragmática, avaliando de início a relação entre os signos (sintaxe) e a relação entre os signos e o mundo (semântica), considerando, porém, que esta teoria que pensa o usuário em sua relação de interlocução na interação comunicativa com outro falante.  Os estudos pragmáticos se desenvolveram em três direções: a da análise conversacional, a dos atos de linguagem e a da teoria da enunciação.
 O processo de enunciação caracteriza-se pelos consistentes argumentos de Bakhtin que coloca no centro da reflexão o sujeito da linguagem, ou seja, o locutor em sua relação com o destinatário. Essa conjetura teórica, parte da distinção entre enunciador/enunciação e que se interessa em saber a forma pela qual o sujeito se marca naquilo que diz.
Para a análise do discurso, a linguagem é produzida pelo sujeito, em condições determinadas, e quem a analisa deve procurar mostrar o seu processo funcional-textual, articulando-a com as formações ideológicas.
No último capítulo de seu livro, Orlandi propõe uma compreensão das teorias que traduzem as acepções de um determinado grupo teórico que tecem argumentos sobre os estudos dos objetos de análise da Lingüística. Indicando, portanto, ao leitor/ouvinte as obras essências para se entender mais e de maneira eficiente as temáticas abordadas por esta ciência tão ponderada e discutida atualmente.
Tendo em vistas os argumentos apresentados neste trabalho, passamos a apreender que a linguagem não deve ser concebida apenas como ordem e princípio de classificação, porque como o ser humano, ela é feita também por suas ilusões e seus mistérios, e são essas ilusões e mistérios que nos fascinam.
Finalmente, “A evolução do pensamento lingüístico baseia-se numa política lingüística que só existe quando há escolha, seja entre diferentes variedades lingüísticas, seja entre diferentes línguas” (FARACO, 2001:107).
Esta obra esclarece muitas dúvidas que certamente acompanham, sobretudo aos estudantes de Lingüística. Nele a autora traz muitas definições e exemplos do que é realmente ciência da linguagem articulada. Esta leitura nos possibilitou o aprendizado e incentivou ainda mais o estudo desse assunto, procurando livros, pessoas mais informadas sobre o tema, enfim, tudo que pudesse suprir as necessidades e perspectivas intelectuais.
O livro auxiliou tanto na compreensão sistemática do entendimento lingüístico, quanto na própria distinção do que seja Lingüística e Gramática. Fica evidente que este trabalho atendeu as expectativas, pois agora não só eu, mas decerto uma significativa parte dos acadêmicos que o leram estão mais informados, isto é, obterão com a leitura mais conhecimentos sobre os aspectos teórico-metodológicos da atividade lingüística e sua relação na sociedade.
Esperamos que cada vez mais, outros estudantes, sintam-se estimulados ao estudo dos elementos lingüísticos, podendo, assim, desenvolver mais pesquisas e trabalhos para se ampliar ainda mais os nortes epistemológicos desta relevante ciência da linguagem.

REFERÊNCIAS
FARACO, Carlos Alberto. Estrangeirismos: Guerras em Torno da Língua. São Paulo: Parábola editorial, 2001.
Geimes Oliveira
Enviado por Geimes Oliveira em 02/10/2007
Reeditado em 21/08/2014
Código do texto: T677249
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Geimes Oliveira
Morada Nova - Ceará - Brasil, 28 anos
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