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O Colecionador de Poedras, Livro de Poemas de Sérgio Vaz

Artigo - Resenha

As Pedras do Colecionador Sérgio Vaz

A Poesia ganhou a rua. A rua da amargura. E lá se cantou os lamentos dos excluídos sociais. A periferia sociedade anônima e seus brasileirinhos mestiços que, sim têm muito o que dizer; testemunhas humanas desses tempos de muito ouro e pouco pão, de Sem Terras, Sem Tetos, Sem Vozes; de lucros impunes, riquezas injustas, propriedades-roubos, principalmente em globalizados tempos neoliberais de paulistas privatizações-roubos (privatarias) e terceirizações neoescravistas promovidas na calada da noite por um picolé de chuchu. Que negócio é esse mano, do Brasil só ser rico para os ricos, não ser rico para os pobres? Pois é. O Poeta Sérgio Vaz é o redentor dessa labuta, desses cantares, desse povo que tem muito o que dizer também no letral. Sérgio Vaz recolhe as pedras dessas ruas, ele mesmo produz as suas próprias pedras, e, como disse Drumond que sempre “tem uma pedra no meio do caminho”, elas, finalmente foram editadas e, na obra literária “Colecionador de Pedras” de Sérgio Vaz - para não dizer que não falei de flores - trazem à tona o grito desses descamisados. Porque Sérgio Vaz escreve, declama – quem tem raça e sangue de próprio punho e pulso faz ao vivo - junta os poetas rueiros, cooperativa as palavras e os sentimentos. Vale ao vivo. O livro Colecionador de Pedras é isso: recolhes que explicitam a dor dos oprimidos. Brasileirices. Jogar areia nos nossos olhos? Arear a alma, isto sim, cara pálida. Acender pirilâmpadas. Poesia do chão das ruas abandonadas ao deus-dará, de becos, vielas, cortiços, comunidades, bibocas, favelas, todas cooperativadas num colar de macadames. Trincheiras poéticas. A arte que resiste e berra outros navios negreiros, outras moendas – vai vendo o poder das palavras, ele diz – e prefere Revolução sem R. Esse é o Sérgio Vaz, coração em chamas. Os estilhaços-pinceladas de poemas rueiros, conscientes e inconscientes, que latejam e volatilizam alma e coragem. Uma legião de pedras sem terem palanques, a não ser as comnidades-palanques, as esquinas, bares, casas e acontecências...e sofrências. Pra mim, as Pedras do Sérgio Vaz são também as sandálias desse Colecionador. Já pensou que cicatrizes? Ave Sérgio: habemus poemas com a cara e a coragem brasileríssima. Resistir no letral? Que possa ser. Poemas-pedras. Quebram vidraças e erguem castelos, derrubam muros, pois, como disse Clarice Lispector, há dias que lambemos paredes. Ainda mais nessa áfrica-utópica-panamérica-sampa da força da grana que ergue e destrói coisas belas... Carbonários, noiteadeiros, marginais, pagodeiros, uni vozes.  Até porque tem sempre alguém apontando uma pedra pra nós: uma pedra-olhar de discriminação, de constrangimento, uma pedra-não de falsos sins; uma pedra-toleima, pedra pão dormido, pedra além da casagrande e senzala, pedras esmolas. Mas poetas não são pidonchos. Se a arte é libertação, de alguma maneira podemos resistir na arte. É isso que Sérgio Vaz faz como serventia de ser cidadão e impregnar de lirismo e dor os gritos pairando nos ares dessa desvairada paulicéia de ameríndios e afrodescendentes. E há pedras-lágrimas. O badame dói. A cetra estica, agoniza mas não morre. E ele ainda poeta: “Que a pele escura/Não seja escudo/Para os covardes/Que habitam a senzala/Do silêncio(...)Porque nascer negro é consequência/Ser (NEGRO) é Consciência(...)”. Esse Sérgio Vaz tem a minha cara, a sua cara, a nossa cara, somos milhões descendo para o asfalto da selva urbana de estátuas e cofres, e temos muito o que dizer. Periga ler, tá ligado. Sente o clima? A alma dos acorrentados de alguma maneira vaza. E alguém com sensibilidade e talento coleciona pedras-poemas. E o menino-poeta-rueiro-(porque colecionador tem que andar-se muito) ainda traz a sua infância (pobretriste) consigo: “Não faço Poesia/Jogo futebol de várzea/No papel”. Lindo. Poesia pura. Poéticas fintas garrinchais nos dribles do olhar/sentir/dizer-(se) em fragmentos-closes. O ócio é duro de roer. Ócios do ofício de escrever(se). Pedras quebram vidraças, desfazem brumas e clareiam espectros. Porque a bala de hortelã que não compramos no farol; porque o olhar humilhante que damos com olhos de palha na rua para os rejeitados, é o mesmo que por dias, anos; de milhares de insensíveis com gatilhos de censura alimentam o ódio daquele que rumina a dor de ser excluído, até um dia o descaminho da falta de estrutura total colocar o serzinho entre a droga e o grito contido, então, com uma arma na mão, o desprezado (dívidas sociais históricas), já não pede, e nem implora, exige - mãos ao alto! E então, meu irmão, a bala perdida sempre acha o seu alvo-qualquer-um-de-nós com nossos falsos muros de lamentações. “Ah!, é permitido sorrir” – diz Nelson Maca na última capa do livro(...) “Poeta marginal, sugere alguns...depende de que lado da margem...” diz Toni C (Hip-Hop a Lápis) também no mesmo espaço. Mas o arco-íris marrom dói na consciência histórica. Há margens, moinhos, moendas, e há o avesso do haver-se. Subindo a ladeira mora a noite? Sim, meus irmãos: não há sensações no esquecimento. Sérgio Vaz escreve sobre a sua dura realidade emergente, recolhe essas pedras, violências, medos, carências, pensamentos vadios. Ele mesmo é todas as comunidades. Quase todos os heróis são sonhadores?. E coloca a alma para respirar: “No orfanato/As crianças/Pedem esmolas/Com os braços abertos(...)” Anjos caídos agradecem. Antes mesmo que colecionar “pedras”, Sérgio Vaz dá testemunho de seu tempo, de seu povo, de seus tantos lugares. E os cantos desses tempos-povos-lugares. A periferia cooperativada em busca de justiça histórica agradece. Nós temos um sonho. Que a poesia nos liberte de tantas amarras (de todas as matizes e chorumes e escrevivências) dos filhos deste solo. Amém. Saravá, Castro Alves! Nosso cartão de crédito não é uma navalha na alma: é um poema na veia!

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Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design





 
Poetinha Silas de Itararé
Enviado por Poetinha Silas de Itararé em 16/10/2007
Código do texto: T696772

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Sobre o autor
Poetinha Silas de Itararé
Itararé - São Paulo - Brasil, 64 anos
141 textos (49991 leituras)
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