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Estudos sobre Peter Sloterdijk IV- Os frutos da Árvore Mágica

                                                              Leonardo Barros Soares

Jan Van Leyden é um jovem médico vienense originário de uma família de judeus holandeses que resolve fazer uma expedição à Paris em 1785 com o objetivo específico de conhecer alguns dos médicos franceses pioneiros que estavam desenvolvendo métodos revolucionários para o tratamento dos “males da alma”. Alguns anos antes da grande revolução de 1789 um dos alunos de Franz Anton Mesmer (1734-1815),o criador do “mesmerismo” , o aristocrata e filantropo Amand-Marie-Jacques de Chastenet, ou melhor, Marquês de Puységur, desenvolvera o sonambulismo artificial, o que mais tarde seria conhecido e utilizado como método terapêutico: a hipnose. A descoberta e a utilização do método de Puységur em pacientes em todo o continente causaram alvoroço na decadente aristocracia francesa e colocou em movimento um vertiginoso processo de pesquisas sobre a saúde do corpo e do psiquismo humano que seguiu rumos insólitos e atraiu a atenção dos intelectuais europeus da época.  É no intuito de conhecer de perto esta inovação teórico-metodológica e participar ativamente de seu desenvolvimento que Van Leyden decide embarcar numa aventura cheia de mistérios e surpreendentes revelações sobre os recônditos mistérios da alma humana.

Este é o enredo do interessante livro Der Zauberbaum- Die Entstehung der Psychoanalyse im Jahr 1785(Edição brasileira- A árvore mágica. O surgimento da psicanálise no ano de 1785, tentativa épica com relação à filosofia da psicologia Casa Maria Editorial, 1988), de autoria do polêmico pensador alemão Peter Sloterdijk. Seu subtítulo, Ein epischer Versuch zur Philosophie der Psychologie deixa claro que a obra, apesar de seu estilo de romance épico, é antes de tudo um ensaio , gênero preferido do autor afeito a dissertações que têm causado rumor no cenário intelectual alemão contemporâneo. A obra, misto de ficção e história, lhe rendera nada menos que o prêmio Sigmund Freud de prosa científica em 2005.

O autor assegura, logo em suas primeiras páginas, que o livro não é um romance histórico, mas que antes o mesmo falará do presente e nada mais do que o presente. Ambientado nos turbulentos anos que precederam a revolução francesa, o romance é permeado pela leitura sui generis do próprio Sloterdijk sobre os antecedentes históricos da psicanálise e sobre esta de um modo específico. A reconstituição do cenário épico nos faz entrar no clima da Paris do final do século XVIII, habitada por uma aristocracia decante e temerosa com os rumores revolucionários que já se faziam escutar nas ruas e que ainda se refestelava em intermináveis colóquios e bailes em suntuosos salões de festas. Prostitutas, pederastas andróginos, artistas, mendigos, e a poderosa burguesia nascente conformam a atmosfera psicológica “noir” do livro.

Sloterdijk têm momentos de brilho durante todo o desenrolar da estória. Dentre os vinte e um capítulos, merecem especial destaque Erste Gründe der Transzendentalorthopädie, no qual Van Leyden se choca ao perceber que não há diferenças anatômicas entre os esqueletos de um plebeu e de um aristocrata, ou seja, não há diferenças biológicas que possam justificar a primazia dos segundos sobre os primeiros; Noch etwas- die Türme und das moderne Ich betreffend, no qual a analogia entre o “Eu“ e uma torre inabalável e de altura vertiginosa mostra aquele como ”a maldição do pensamento ocidental”, algo que nos faz lembrar Lacan e sua concepção do Eu como sede das resistências; Das Kolloquium der Salpêtrière e Die Audienz- eine Agonie des Realen, quando uma comitiva integrada por figuras históricas como o Dr. Guillotin( inventor da guilhotina) e o Dr. Marat ( um dos líderes da Revolução Francesa) visita o lendário Hospital Geral de Salpêtrière, imortalizado na monumental História da Loucura e à época um verdadeiro depósito de leprosos, vadios e “loucos”; e os capítulos que integram a última parte do livro, Szenen der Psychologischen Revolution, que constituem um final  a um só tempo apoteótico e misterioso para a odisséia, pois sua cena final se passa na também mítica Berggasse Nummer 19, endereço do vienense mais ilustre de todos os tempos: Sigmund Freud.

A narrativa é emocionante e cativa o leitor desde suas primeiras linhas. Com Der Zauberbaum Peter Sloterdijk revela mais uma de suas inúmeras facetas como intelectual versátil que tem se mostrado e que transita de forma genial entre os mais diversos assuntos e estilos literários. A obra é indispensável a todos aqueles que sabem que Freud não inventou a roda e que, como intelectual de seu tempo, também sofrera, de forma mais ou menos direta, influência de outras escolas de pensamento. É a pitada de imaginação e de aventura que faltava aos estudantes do vasto e importante, mas por vezes, maçante, legado psicanalítico.

Referência bibliográfica

SLOTERDIJK, Peter. Der Zauberbaum- Die Entstehung der Psychoanalyse im Jahr 1785- Ein epischer Versuch zur Philosophie der Psychologie. Suhkamp Verlag. Frankfurt am Main, 1985.
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 20/10/2007
Código do texto: T702905
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 29 anos
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Leonardo Soares



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