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'O SENTIDO DOS OUTROS' ( MARC AUGÉ) : PARTE I.

Augé historiciza o imaginário social, o imaginário coletivo e a ficção, características das sociedades européias e das sociedades pré-hispãnicas-portuguesas e também das atuais sociedades xamânicas.
Para Augé a supermodernidade, conceituação dele para este momento atual, destrói com a relação existente entre os imaginários e a ficção, tendo como conseqüência a ficcionalização.
A sua hipótese é de que a relação global dos seres humanos com o real modifica-se mediante o efeito das representações associadas ao desenvolvimento das tecnologias, da planetarização, de certos problemas e da aceleração da história.
Todas as sociedades viveram no e pelo imaginário, os símbolos são representações coletivas. O que acontece na relação com o real quando mudam as condições de simbolização? Ocorre a impotência da simbolização. Isto nos leva a vivermos num paradoxo , pois a sensação é a de que conhecemos tudo, finalmente, totalmente.
De um lado homogeneização, unificação planetarizadas na Terra: Economia, tecnologia. De outro lado: Impérios se deslocam, particularismos se afirmam, diferenças religiosas e étnicas se rompem e a violência ocorre.
Unidade/Diversidade multiplicam-se pelos meios de comunicação como expressão e como agente ao mesmo tempo, a cultura se dissolve, ocorre plágios, cópias, as identidades se perdem em imagens e reflexos, submergirmos na História, na atualidade indefinível, pós-moderna. Ou será moderna? Enquanto só percebemos pedaços e sem organização perdemos o sentido, tudo fica disperso entre flashes, clichês e comentários.
A imagem somada às condições da relação do imaginário individual (sonho) com o imaginário coletivo (mito) juntamente com a ficção literária ou artística posta em imagem ou não, se alterou.
Significa dizer que as condições dessa relação se tornaram questionáveis e assim sendo questiona-se o estatuto do imaginário, uma vez que estamos diante de uma “ficcionalização” sistemática como objeto no mundo pesando sobre o imaginário e esta ficcionalização está no real, porém onde , não sabemos identificar e nem aonde.
A alteridade tanto estudada pelos antropólogos, a relação de nós com os outros, a identidade de todos, esta relação se alterou.
Quando se fala em legitimação, em determinar o funcionamento de regras, descrever a função social em qualquer sociedade, estabelece-se o vínculo social, este cria o rito que é simbolizado e instituído, logo o rito é o mediador, cria mediações simbólicas e institucionais que permitem aos atores sociais se identificar com outros e distinguir-se deles, enfim estabelecendo entre uns e outros vínculos de sentido (social).
Então quando se bloqueia o rito, ocorre uma queda simbólica enfraquecendo as mediações nas intermediações ocasionando uma interrupção ou uma redução na dialética identidade/alteridade e aí a violência surge, as novas técnicas de comunicação, a imagem torna a relação com o outro cada vez mais abstrata.
Dos conflitos étnicos atuais surgem mediações possíveis e impossíveis. Cultura é criação, todas são capazes de transformar, são receptivas as influências externas, todas sempre foram culturas de contato, as conseqüências são interessantes como os choques culturais dando a impressão pelos meios de comunicação que a história se acelera e que o planeta está encolhendo e nesta medida, quando os meios de comunicação substituem as mediações, as referências se individualizam, se singularizam, cada um tem seu mundo e sua solidão.
A este mundo Augé chama supermoderno, de supermodernidade, superdeterminado, acontece em todo lugar de maneira desigual, a fronteira se desfaz, surge a aldeia global, uniformização versus guetos de resistências e conflitos étnicos, porém Augé nos diz que uniformização não exclui desigualdade, é esta a supermodernidade que exclui ou abstrai a figura do outro quebrando a dinâmica dialética identidade/alteridade.
Augé nos pergunta qual é o lugar onde queremos chegar e nos alerta para a relação que estamos estabelecendo com o mundo, ela está cada vez mais cristalizada, virtualizada, separa a identidade da alteridade, criando as condições da solidão, ameaçando gerar um ego fictício, tanto quanto a imagem que se faz do outro.
Augé diz que no mundo dos sonhos existem diferentes estágios e diversos tipos de sonhos, existindo diferença entre sonho e possessão. No sonho temos a presença, na possessão temos a ausência.
Faz parte do imaginário o sonho, o mito, a criação literária, o individual , o coletivo e a ficção. Ocorrem oposições binárias tais como: sonho revelação versus sonho ilusão
Sonho do sono versus visão acordada e sonho individual versus sonho coletivo. Estas oposições binárias fazem parte dos atributos das imagens oníricas. Todas as imagens mantêm contato com a pessoa, com o individual, com ele em relação aos mortos, aos seus ancestrais e na narração elas passam a existir pras outras pessoas, e pra quem as “viveu” e pelo relato elas se tornam objetos reais.
Daí chega-se a “guerra das imagens”, um choque imagético entre colonizadores e colonizados, repletos d e resistências, apropriações e reapropriações.
A imagem provoca um fenômeno de apropriação ou de identificação, ela possui existência autônoma, vida própria, (imagem material em relação à imagem do sonho) se confundem alimentando-se, e alimentando os sonhos de imagens diurnas e estas se tornam lembranças ou prolongamentos do sonho que lhes deu corpo.
Auge vai falar da devoção popular proveniente das elites cristãs, que ora são sincréticas, isto é, adoram um deus através do outro, como no caso do candomblé-catolicismo (Iemanjá/Nossa Senhora) e ora são fetichistas , uma vez que confundem o representado e o representante, como no caso do Papa, Santo Papa.
Auge vai discorrer sobre as diferenças ambivalentes dessa elite que condena outros pelas diferenças e não admite que  também são diferentes em relação aos que dizem que são eles os diferentes.
Ele vai citar os dois tipos de mitos: 1) Os de origem: Tem relação com o passado longínquo, com  a gênese dos grupos humanos, com as cosmologias de onde nasceram. 2) Mitos escatológicos: Correspondem ao mundo moderno, ao futuro, ao princípio de sentido. Entre estes dois mitos existe a imagem abrindo caminho para a imaginação. Um exemplo são as religiões africanas que incorporaram o catolicismo através da criatividade, e continuaram  cultuando seus dogmas diante da imposição cristã.
Mas ao mesmo tempo que ocorre a criatividade os valores se misturam, as perspectivas se dissolvem e acaba-se destruindo a base antiga e restando apenas os indícios, os resquícios e sonhos. A permuta nunca é total e a igreja é um problema evidente no fenômeno de colonização do imaginário querendo dominar as imagens do outro e na sobreposição pela disputa, a leitura e a interpretação se complicam.
Assim ocorrem com os relatos da modernidade em que os discursos modernos pretendem ocupar o lugar do imaginário coletivo, reconstruir uma memória, um acontecimento e abrir a imaginação do futuro, este é o acontecimento que funda, são exemplos a guerra pela independência dos EUA e a Revolução Francesa.
Augé pergunta diante de suas reflexões, então os mitos morreram?, Ele chega à conclusão de que a imagem é que mudou de natureza, ela se tornou móvel sobre a própria ficção, a natureza, o estatuto da imagem se modificou, não é mais um gênero particular, anda com a realidade, se confunde com ela, assumindo então três direções: Estatuto do personagem, processo de identificação e comparação entre estado fílmico e o estado onírico.
Lembrando que personagens não são atores e que existem imagens na TV que não sabemos se é real ou ficção. Auge lembra que os EUA compram filmes europeus e em vez de distribuir estes filmes, eles os refilmam, assim quando colocam os mesmos em circulação, eles deixam de ser europeus e passam a ser americanos, uma vez que só pode haver um verdadeiro imaginário coletivo.
Logo, Auge fala em verdade fictícia, se cria entre o expectador e a tela de cinema, as imagens filmadas difundem a ilusão diretamente proporcional à realidade que elas registram. O expectador como criança , algo da infância o toma, ele se identifica e se encontra no cinema, na tela grande.
Neste momento Augé fala do estado fílmico que se caracteriza pelo que ele chama de instância vidente e submotricidade. A submotricidade refere-se ao estado de passividade dos expectadores, absorvem tudo pelos olhos, este estado fílmico facilita a identificação junto com o processo de projeção que constitui o filme. O importante é o próprio filme como discurso, como instância que evoca a história.
A submotricidade está na relação entre filme, a percepção do filme mais o estado de alucinação, o sonho, o estado fílmico e o estado onírico se aproximam. Na discussão freudiana estabelecem-se duas vias a progressiva e a regressiva.
Na via progressiva está ativo o grau de vigilância que é parte do mundo exterior, passa pelo sistema de percepção/consciência, chega aos vestígios mnésicos do pré-consciente ou inconsciente.
Na via regressiva está inativo, parte do sonho, do sistema pré-consciente ou inconsciente, chega á ilusão de percepção e desta a psicose alucinatória. Tanto a loucura quanto o estado fílmico realizam condições de estado onírico.
O cinema carrega a lógica do princípio de realidade, obedece a processos como deslocamento e condensação, mas também é esburacado por emergências primárias, logo “ir ao cinema é baixar um grau as defesas do ego.” (Augé)
Ir ao cinema é passar pelo recuo narcísico, ocorre uma abertura na percepção, identificação com os personagens, “Eu sujeito da percepção”, o outro se converte em um EU (“estágio da tela”).
Fantasias são realizações de desejos, por isso elas são superiores as imagens produzidas por outros (fantasias de outros). Freud comenta que a literatura permite identificação com a fantasia de outrem, mas quando a própria obra é imagem, as fantasias do autor e do expectador se chocam de frente.
A ficção é a oportunidade de experimentar a existência de outras imaginações e outros imaginários, mas esta experiência se baseia na existência de uma ficção reconhecida, onde o real e a ficção se confunda e o autor seja reconhecido e assim possam compartilhar suas fantasias.
Augé diz: “O mundo é penetrado por uma ficção sem autor”, segundo ele a ficção mudou, tudo se torna então ficcional, estes são os primeiros “sinais do desastre”, o desenvolvimento das tecnologias liberou uma forma transviada de imaginário, a ficcionalização. O real vira ficção, logo não existe mais ficção e muito menos autor, ai tem-se a TV como identificação e alucinação, tudo se mescla e se confunde e todas as imagens são bombardeadas, a imagem soma-se a encenação dos fatos e nos perdemos, um exemplo, a guerra do Golfo, da TV para o vídeo-game. Necessitamos de imagens para testemunharmos nossa passagem , como peregrinos, mas somente na volta, com a câmera na mão, esta é a que conta. As relações que se estabelecem pelos meios de comunicação, mesmo as originais provêm hoje da falta de simbologia, de uma dificuldade de criar vínculos. O ego ficcional fascina e estabelece uma relação exclusiva com a imagem, é um ego sem relações, sem suporte identitário, absorvido pelo mundo de imagens que ele pensa reencontrar-se e reconhecer-se.
Márcia Valéria
Enviado por Márcia Valéria em 20/12/2007
Reeditado em 20/12/2007
Código do texto: T786402

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Sobre a autora
Márcia Valéria
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