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Siga em Paz... Se For Possível!

(Míchkin e Blanche estão de lados opostos de uma rua. Ela fuma um cigarro. Ele está com as mãos no bolso. Quando ela apaga o cigarro, ele acende um. Ela o observa e ambos se investigam durante alguns segundos. Haviam observado as pessoas que passavam por ali durante horas.  É fim de noite, quase dia.)

Míchkin
Uma das razões que nos põe aqui, neste lugar, a observar um ao outro após todo esse derrame de lamentações que essas vidas acabaram de jogar nessa atmosfera asfixiante na qual vivemos sem escapatória possível e sem remédio e pela qual somos todos um pouco culpados, mesmo os mais revolucionários dentre nós, é uma só: Curiosidade. E essa curiosidade que se assumiu em você, como em mim, e que por isso nos pôs aqui, em lados opostos de uma mesma rua, é simplesmente o resultado e, portanto, o significado da nossa paixão de expressão máxima pela observação da miséria humana. Isso funciona em você ou em mim, como funcionará em qualquer um que por esta rua passar, como um cano de escape ou mesmo como meio de "superação" que muitas vezes servirá para o conforto e amenização dos nossos próprios problemas. Como se todos eles a partir de então pudessem ser exauridos de nós não podendo, portanto, chegar ao ponto em que possam estourar para que recomecemos tudo de novo.

O que você e todo o resto dessa massa, que passa por aqui e vê ou escuta essas pessoas dizendo todos os absurdos que vivemos e presenciamos na realidade e no cotidiano daqui desta rua, o que você e todo o resto não entendem é que existe, no espírito, uma zona exclusiva, como aquela reservada para as relações sexuais, para isto. Andamos nas ruas como se as ações e a vida das outras pessoas servissem somente para elas e não para nós. E por isso concluímos muitas vezes que nós, de uma forma geral, não temos o direito de dizer o que essas pessoas disseram aqui, nesta rua. Mas nós temos o direito de dizer o que essas pessoas disseram aqui sim. Como também temos o direito de dizer o que elas não disseram, como temos até o direito de contrariar seus desabafos e idéias, não importa.

Eu somente acho que é uma cretinice e de uma burrice absurda censurar essas vidas por não terem o senso do sublime. Você, como qualquer outro que estivesse aí mesmo, no seu lugar, observando e escutando o que estes seres humanos expurgam de si em suas formas particulares, confunde o sublime como uma de suas manifestações formais que são, aliás, e sempre, manifestações mortas. E se a massa de hoje, e isso pelo visto inclui você, não compreende que o que essas pessoas mostram em suas atitudes, muitas vezes abusivas e absurdas é só, e simplesmente só, a mais pura apresentação do pouco de podre que habita dentro de cada um de nós... Eu me atrevo a dizer que a culpa é sua e, inevitavelmente de toda a massa, cuja natureza finge que se importa com a moral. E que, portanto, com essas "vidas errantes" é preciso tomar cuidado.

Existe entre nós, os humanos, a presença de uma epidemia de peste que é uma encarnação física desses absurdos. Mas tudo isso sob disfarces e numa espécie de linguagem que parece querer perder o contato com o ritmo epilético e grosseiro destes tempos. No entanto, esta mesma massa, que treme diante dos grandes e graves acidentes aéreos, que conhece os terremotos, a peste, a revolução, a guerra; que é sensível às agonias desordenadas do mar e do amor, pode ascender a todas essas elevadas noções e apenas pedir para tomar consciência delas. Você, pelo visto, não é esta.

Blanche (rindo)
É extremamente impressionante como você, assim como essa mesma massa que você tanto fala, hoje, como antigamente, tem fome de mistério: Pede apenas para tomar consciência das leis segundo as quais o destino se manifesta e, talvez, advinhar o segredo de suas aparições.

Deixemos aos filósofos as críticas sobre a vida, aos estetas a crítica das formas e reconheçamos que o que foi dito por eles não mais deve ser dito, que o que já foi visto não choca duas vezes do mesmo modo. Um mesmo acontecimento não vive duas vezes. E o que está presente em suas almas é justamente o que pode lhes manter vivos ou o que pode lhes levar à morte do corpo físico. Não da alma, porque esta já pode estar inevitavelmente morta. A morte da alma se dá no momento em que é anunciada. No exato momento em que essas pessoas reconhecem em si, ou nos outros, o seu fracasso, o seu abismo. Com o que se é obrigado a conviver todo dia, ou mesmo, com o que se convive por acidente inoportuno, como é o nosso caso aqui aqui, se perde o encanto natural e portanto a beleza pura e virginal do que se é e do que se vê e se imagina ser.

Se a massa não se importa com estas vidas e mesmo, se ela não se choca, ou se não atenta a elas é porque existe, nessas vidas, um tipo de abismo comum que está presente em cada um de nós. E, portanto, elas não são problemas que chamam mais a atenção de ninguém na realidade deste tempo.

Longe de acusar você e esta massa, que é quase público, devemos acusar a vida em si que é tão somente palco dessa desventura de horrores. E esse disfarce que todos usam, esta espécie de "censura", não é nada mais que o conformismo que nos faz confundir as idéias, as coisas, o sublime com as formas que assumiram através dos tempos em nós mesmos.

Nisso tudo, é inútil julgar a "censura" dessa massa que senta na fila do gargarejo para ver de perto a insanidade e os horrores dessas pessoas e que saem depois vestindo seus disfarces como se nada disso se referisse também às suas próprias pessoas. Este, certamente, não é você.

Você deve ser daqueles que tem fé que exista no mundo alguma pessoa que não use disfarces. Isto porque você deve se gabar e deve estar certíssimo de que não tem um no seu cabide de idéias e reflexões. Cabide este que me parece um tanto quanto egocêntrico. Já que todos nós temos sim algum disfarce. É realmente impressionante como por apenas uma rua que nos separava há alguns instantes e por alguns metros de distância e alguns ínfimos segundos de silêncio você era tão somente mais uma dessas pessoas que ainda não tinha expurgado de si o seus horrores.

Míchkin
Se as pessoas desse mundo engolem o falso pelo verdadeiro, então elas tem o senso de falso e verdadeiro distorcidos. E, portanto, elas sempre hão de reagir ao verdadeiro quando colocado à sua frente. Não é, portanto, somente dentro de nós que devemos procurar esse verdadeiro hoje, mas na rua, onde sempre que se oferecer à massa uma ocasião para mostrar sua podridão sentimental e indignidade humana, ela mostrará. Claro que isso somente ocorrerá se ela estiver no seu ápice de tormentos. Caso contrário continuará a usar esse mesmo disfarce qeu está pendurado no seu cabide de idéias.

Os imitadores dessa sua faceta de achar esses disfarces uma coisa comum e consequentemente natural continuarão a viver suas vidas, achando tudo muito normal.

Afinal, é muito confortável pensar que a vida é ainda "palco italiano" desses horrores. E que por ser tão antigo e tão usado durante anos e anos ele é comum. Realmente sairei daqui modificado ou não, isso não importa. O que importa é que isso me fará pensar um pouco... Ou nada sobre o assunto.

Blanche
Se vamos pensar muito, um pouco, ou nada sobre este assunto isso não importa. O que importa mesmo é que nos encontramos na rua e assistimos juntos esse espetáculo de horrores. Trágico ou cômico... Isso só dependerá do seu ponto de vista. Que esses poetas vivos, que nos apareceram aqui esta noite apenas nos sigam, ou sejam deixados na esquina para sempre, no esquecimento vesgo de cada um de nós.

Não vamos findar o nosso assunto. Amanhã estaremos de volta aqui ou em outra rua dessa cidade, ou memso de outras cidades desse mundo. Espero enfim que, para o seu conforto, você não se sinta fútil, por ter conversado com alguém que talvez tenha sim os seus disfarces. Isso é comum. No entanto, até penso se nós devemos jogar ou não no lixo o nosso cabide de disfarces e de idéias. Afinal de contas, o mundo precisa deles nos dois sentidos e isto é apenas uma questão de opção de cada um.

(Míchkin e Blanche se encontram no meio da rua e estão um de frente para o outro. Se despedem, mas não conseguem ir e permanecem um de frente para o outro)

Míchkin
Bem, espero então que siga em paz com suas reflexões sobre o assunto, assim como espero que nos encontrando novamente, sejamos capazes de retomar esses mesmos assuntos, ainda que por acaso, nesta ou em qualquer outra rua da cidade ou do mundo. Essa idéia não pode ser fechada. Assim como não pode ser fechado qualquer assunto. Os assuntos não morrem nem são finitos. Assim como as utopias e as idéias que estão cravadas num livro, algumas vidas, os disfarces que usamos e nem mesmo como esse palco de horres absurdos que se repetem todo dia. Boa noite!

Blanche
Boa noite. Espero mesmo que nos reencontremos aqui ou em qualquer lugar, em você e eu ou em outras pessoas. Não importa. Sejamos felizes e vivamos em paz dentro do que for relativamente possível sob as condições dessa vida. Siga em frente e durma tranquilo... Se é que isso ainda é possível. Mais uma noite aqui se finda, mas espero que não morra com ela os nossos ideais. Para que não nos tornemos nosso próprio "palco de horrores" e nele tenhamos ou sejamos nossos próprios espectadores. Siga em paz...

Míchkin
Siga em paz...

Blanche
Siga em paz....

Míchkin
Siga em paz...

Blanche
Siga em paz...

Míchkin e Blanche
Se for possível!
Ulrich Hinteseher
Enviado por Ulrich Hinteseher em 01/09/2007
Reeditado em 01/09/2007
Código do texto: T634304

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Sobre o autor
Ulrich Hinteseher
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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