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AMORES SEM JUÍZOS

1

Domínio sem juízo dos amores
Paixão sedenta em brasa derretida
Temor que traz coragem para a vida
Fel de prazer melíferas as dores

Estando do seu lado os horrores
Que assalta-me, às vezes nessa lida
A torna suportável. E conferida
Após vê-se as sementes e as flores...

Na antítese absoluta nos perdemos,
E assim nos encontramos logo após.
Amores são metástases que curam,

Além que pensamos ou sabemos,
Nas horas de carinho se torturam,
É feito de esperança em laço algoz.


2

É feito de esperança em laço algoz
Aquele que diz amo e cegamente
Seguindo vai achando que essa foz
É sua única fonte à boca ardente...

O qu'é triste é saber que logo após
Aquela água era um aguardente
E alma presa, então, em tantos nós
Quer livre, solta finalmente.

Amor sendo perfeito vai errático
Em torno de si mesmo, aleatório.
Revoluciona e nunca fica estático

É mágico e por isso, seus olores
O tornam quase oculto, mas notório
Cortando nos perfuma, espinho e flores


3


Cortando nos perfuma, espinho e flores
A vida é uma senda masoquista
Seguir nós precisamos nessa pista
Deixar os nossos sangues e suores...

O quê vem fácil vai - são sem valores
Não há fruto melhor qu'o da conquista-
Uma satisfação quando se avista,
Que vale os vilipêndio e as dores..

Amor sendo insensato dá sentido
A toda sensação que a vida adota.
Em luzes, maravilhas travestido

Em plena mansidão se faz algoz,
Amor nem mesmo em morte jaz, esgota.
Esfuziante, cala nossa voz.


4

Esfuziante, cala nossa voz.
Um sentimento que nos contagia
Ond'alma fica plena de alegria
Trazendo a esperança e paz após...

É bom ter um apoio uma foz
Pois no momento de melancolia
Naquela escuridão gelada fria
Tendo uma ajuda a desatar os nós...

Em tiras se transforma em seda pura
Tão belo traz um circo em seus horrores
Açoita com gentil, rara ternura,

Realça tanto espinho quanto cores,
Se manso, muitas vezes nos tortura.
Profano em si carrega mil andores.


5

Profano em si carrega mil andores.
De corpos e carícias pervertidas
De beijos indecentes suicida
Cansado agora está desses amores...

Procura então viver esses primores
E vê-se quantas metas jaz perdidas
Tentando, em vão, curar essas feridas
Ressente-se de vender teus pudores...

Atado por estranhos, ledos nós,
Amor se mostra nu em dura face,
Perdendo lentamente o seu disfarce

Reage e provocante, doce e atroz,
É fera que se esfinge e que se cace
Deságua em pororoca, invade a foz.


6

Deságua em pororoca, invade a foz
Juntando-se às águas desde então...
Nessa mistura - nessa explosão-
A um gemido - um êxtase após...

Assim é o nosso amor... e quando a sós
As secreções se juntam na paixão,
E nesse incêndio - nessa combustão,
Em gozos desaguamos todos nós...

Das lágrimas que matam nossa sede,
Fulgores em terrível combustão.
Nas marcas deste quarto, nas paredes,
Amor se matizando em rudes cores,

Fornalha desditosa da paixão;
Apascentando, traz os estertores.


7

Apascentando traz os estertores
Essa canção suave envolvente
Que ataca coração qu'agora sente
Os desenganos junto aos dissabores

Querendo, então, pintar com outras cores
Essa crepitação quer ser silente
Tocada a alma então e eternamente
Ficará sonhos beijos e vapores...

Aumentando em sonantes fantasias
O gesto que se imanta em ilusões
Forrando com ternura, corações

Mostrando muito além do que dizias,
Com gracejos felizes, alma e voz.
Em sonho delirante e tão atroz.


8

Em sonho delirante e tão atroz.
Eu tenho-te querida; e de repente
Um zéfiro a rouba inclemente
Deixando uma saudade mui algoz...

Analisando o que houve entre nós
Foi tão ameno, doce, comovente
Estando longe assim , então, ausente
É como o se pondo logo após...

Assim é mesmo amor, frágil gigante
Que nasce de um pesar, viva alegria,
Que embora nos sufoque, seja leve.

Enlouquecendo a todos num instante
Delgado como a pluma que caía,
Poder que não resista a um vento breve.

9

Poder que não resista a um vento breve
Vaidade que se escoa na ampulheta
A mocidade é bela como a neve
E abraça a brasa pra que se derreta...

Depois que passa o viço quem se atreve
Peitar de frente agora toda seta?
É frágil a coragem é mais leve
Procura-se a estrada mais dileta...

Que possa perfazer sacro caminho,
Porém amor se mostra de veneta
E ao mesmo tempo curva em linha reta

Na ponta dos meus dedos, já se enceta
Vontade de encontrar, mas perco o ninho
Qual rosa que se perde em frio espinho.



10

Qual rosa que se perde em frio espinho
O amor vai se esvaindo desde agora
Por mais que alma sofra e implora
Desesperadamente esse carinho...

Há coisas que são como o puro linho
E uma mancha então triste o deflora
E já não é igual àquela hora
E nem mais agradável o caminho...

Amor traz a mortalha qual bandeira
Fazendo de meu verso um canto vago.
Se o sonho de outro sonho em sonho trago

Talvez palavra dura e verdadeira-
Razão por que da dor eu me avizinho
Encharca em aridez, sangrante ninho.



11

Encharca em aridez, sangrante ninho
Daquela vez que foi então primeira
É assim todo início meu benzinho
Não sinta-se então a derradeira

Se sangra agora e escorre como vinho
Depois só sorrirá toda faceira
Querendo novamente o menininho
Que fez-te então mulher - agora inteira

Percebe no teu rosto a dor e o gozo
Que embora seja assim paradoxal,
Um rito que se faz tempestuoso

Em noite que se mostra, dura e leve,
Demonstra num sorriso sensual,
Amor, doce recato em que se atreve.



12

Amor, doce recato em que se atreve
A ousadia nele penetrar -
Por isso tanto jogo pra qu'o enleve,
Tornando-o depois naquele dar

Já sem pudor agora é até mais breve
Aquele desespero pra voltar
Então é brasa é gelo é fogo é neve,
Na movimentação - no cavalgar...

Amor ressuscitando a primavera
Mesmo no duro inverno faz estio.
Acende e queima a vela qual pavio

Corrói abrindo o peito uma cratera.
Ao rude transtornando em pura graça
Num átimo transforma fera em caça.


13

Num átimo transforma fera em caça.
E assusta-se então aquela fera
Pensando acabada a espera
Naquela sesta então uma trapaça

Em vão tenta lutar - se desespera
Vencida cai depois cansada baça -,
Pro amor não há desengano nem desgraça
Nem rigidez qu'ele não vença e impera

Amores se completam se perdendo
Dois seres que se irmanam, num segundo.
Viagem ao redor de um vasto mundo

Complexos não permitem mais adendo
Quem ama sem destino mal disfarça
Num êxtase se encontra e se esfumaça.



14

Domínio sem juizo dos amores
É feito de esperança em laço algoz
Cortando nos perfuma, espinho e flores
Esfuziante, cala nossa voz.

Profano, em si carrega mil andores;
Deságua em pororoca, invade a foz,
Apascentando, traz os estertores
Em sonho delirante e tão atroz.

Poder que não resiste a um vento breve.
Qual rosa que se perde em frio espinho.
Encharca em aridez sangrante ninho.

Amor, doce recato em que se atreve
Num átimo transmuda fera em caça;
Num êxtase se encontra e se esfumaça...


GONÇALVES REIS
MVML
Gonçalves Reis
Enviado por Gonçalves Reis em 28/08/2007
Código do texto: T627596

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