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Texto

           LE SONNET  FRACTAL

Introdução

-O que desencadeou esta pesquisa foi uma questão prática: a proposta de Ronaldo Rhusso para escrevermos uma Coroa de Sonetos elaborada por vários autores.
http://www.www.recantodasletras.com.br/forum/index.php?topic=3958.0

 

-Elaborar um trabalho conjunto é mais complicado e para não desperdiçarmos nossos esforços, fiz o comentário abaixo, que gerou uma resposta, que espicaçou minha curiosidade. Comentei: há uma diferença na construção da Coroa, o Décimo Quinto Soneto:

Fiore Carlos: iniciado pelo ultimo verso do primeiro soneto, os últimos versos dos sonetos intermediários e terminado pelo primeiro verso do primeiro soneto.(Já li isso em teoria.).

Paulo Camelo: iniciado pelo primeiro verso do primeiro soneto, seguido pelos últimos versos dos sonetos seguintes( de um a treze) e terminado pelo primeiro verso do décimo quarto soneto (ou o último do décimo terceiro). (Em "Contrastes" que tomei como exemplo).

Nilza Azzi: iniciado com o primeiro verso do primeiro soneto, seguido pelos últimos versos dos sonetos seguintes (de um a treze) e terminado pelo primeiro verso do décimo quarto soneto (ou o último do décimo terceiro).
No meu caso, como estava seguindo o desafio machadiano, escolhi o mesmo formato do Paulo Camelo, mas tenho ao fim, abrindo e fechando a Coroa, o primeiro e o último versos do primeiro soneto.

Marcos Loures: Ao fazer uma coroa de sonetos, resolvi criar uma ESPIRAL DE SONETOS. Ao invés de terminar com o primeiro verso do primeiro soneto, terminei com o segundo do primeiro soneto, fazendo mais catorze sonetos até chegar ao terceiro do primeiro e sucessivamente até chegar ao último do décimo quarto soneto, perfazendo um total de 195 sonetos (Loures 27/01/08).


http://www.www.recantodasletras.com.br/forum/index.php?topic=594.0




-Entendi que havia levantado uma questão e feito afirmações que encaminhavam para a necessidade de pesquisa mais aprofundada.

Histórico

Creio mesmo que há mais de uma possibilidade de compor uma coroa de sonetos e mais de uma maneira de aplicar a teoria, todas com validade.

Foi assim que iniciei a pesquisa cujos dados vou apresentado. Eu já havia feito algumas anotações e arquivado para consulta. Comecei com elas, mas o tal de “sonnet redoublé” ficou martelando e quando vi que os resultados obtidos não me satisfaziam, enviei um e-mail para Ricardo Sérgio Nunes.

Ele indicou-me o texto de teoria literária da escrivaninha de Paulo Camelo, um dos livros de Massaud Moisés, que não possuo, e sugeriu que eu continuasse a pesquisa. Foi o que fiz e continuei reunindo as informações...

 

Minha pesquisa formal, acadêmica, reduz-se aos dois livros de Massaud Moisés, citados na bibliografia.  Utilizei também exemplos colhidos dessa mesma teoria (uma base comum), recolhidos de outros trabalhos. Eles são utilizados para ajudar-me a encadear o desdobramento da idéia que tenho em mente. Cada um dos assuntos (autores) mencionados pode (e deveria) ser lido na fonte. Os autores do Recanto podem ser acessados através do link do tópico de sonetos, indicado no corpo do trabalho. 

Havia uma definição obtida por consulta e a exposição sobre o modo como foram realizados os trabalhos:

Quando vários poemas são ligados entre si por um tema, compõem uma seqüência de sonetos, como é o caso, por exemplo, dos cento e cinqüenta e quatro sonetos de Shakespeare, ou Sonnets from the Portuguese (1850) , de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861). Se a série é composta de sete peças, de forma que o derradeiro verso de um soneto se torna o primeiro do seguinte, e o último do sétimo repete o primeiro do soneto inicial, diz-se coroa de sonetos, como La  Corona (1633) , de John Donne (1571/1572-1631). Quando se alinham quinze sonetos, de modo que cada verso do primeiro se torna sucessivamente, o último de cada um dos demais sonetos, tem-se o soneto reduplicado (sonnet redoublé) (Moisés 1974).

                                     
”Pelo que conheço de coroa de sonetos, usam-se os últimos versos do soneto-base (ou soneto-síntese) para fazer a coroa de sonetos.

A forma como Fiore usou deixa a coroa "aberta", porque o último verso do décimo quarto soneto não é o primeiro verso do primeiro soneto. Esta forma foi utilizada em 1953 por Geir Campos. Hoje em dia, ela é utilizada pelo poeta baiano João Justiniano da Fonseca (acredito que Célia Lamounier, que fez uma coroa com ele, também a utilize).

A coroa fechada (que é a verdadeira coroa) utiliza os últimos (ou os primeiros, como eu os utilizo) versos do soneto-base (ou soneto-síntese) em todos os 14 sonetos da coroa.
A diferença entre utilizar os últimos ou os primeiros vai ser notada apenas no soneto-base (ou soneto-síntese) ou, ainda, coroa, como o denomina Edmir Domingues. Só aí.

Já Marcos Loures inventou uma forma própria, que eu ainda não analisei a contento, porque confesso que não consegui ler toda a sua obra (extensíssima).

Pela visão do soneto-síntese que está sendo construído, esta coroa está utilizando os últimos versos desse soneto, como o fez Edmir Domingues, como o fez também Itabajara Catta Preta. A diferença para as coroas que fiz (e talvez faça mais) está aí. Só aí.

Outra forma, já utilizada por João Justiniano da Fonseca, é fazer a coroa a partir dos versos do soneto-síntese do último para o primeiro. Ele fez assim uma coroa dedicada a mim. É de mais difícil compreensão. Talvez, de mais difícil confecção também. Mesmo assim, a coroa que ele fez era uma coroa aberta. Para meu entendimento, a coroa tem que ser fechada (Camelo 10/06/08).”


“Na minha coroa eu abri cada soneto com o último verso do soneto anterior e fechei o último soneto com o primeiro verso do primeiro soneto.

Creio que nessa (matemática chamada poesia) é possível fazer uma coroa utilizando-se só do primeiro verso de cada soneto ou só do segundo... ou só do terceiro... e assim por diante...(Fiore 10/06/08).


Conceitos Sobre o Soneto

 


“Soneto é uma composição poética de catorze versos
dispostos em dois quartetos e dois tercetos." Segundo Moisés (1973), após os estudos de G.A.Cesareo, inclinam-se os estudiosos a atribuir sua origem a Giacomo de Lentini (1180/90? -1246?), poeta siciliano da corte de Frederico II. Tem raízes no trovadorismo provençal.

Etimologicamente a palavra “soneto”, do provençal ‘sonet’ seria diminutivo de som. O ponto de partida seria o estrambotto (do provençal estribot), composto de duas quadras. A elas, seu criador acrescentou um duplo refrão de seis versos. Desse modo tinham-se duas quadras e dois tercetos, catorze versos, geralmente decassílabos com variável disposição das rimas (Moisés 1973 p.96).

Segundo Massaud Moisés, o primeiro grande poeta a compor sonetos foi Dante, acompanhado por Petrarca que lhe conferiu forma definida e conteúdo lírico. (...) Salvo ocasionais momentos de crise ou de rebeldia contra o formalismo (...) o soneto jamais perdeu terreno para qualquer outra forma poética.

Ainda segundo Moisés (1973, p.96-97) "a resistência ao desgaste dessa forma poética se deve certamente às suas características peculiares, (...) sua curta extensão e o aspecto sentencioso ou discursivo que pode assumir, como a exigir a concentração e a economia de meios, típica das obras completas e perfeitas. (...) Por suas características e pelas dificuldades que elas interpõem ao poeta, o soneto tem constituído uma espécie de pedra de toque para todos que escrevem poesia. Continua sendo uma esfinge propondo um enigma que desafia a todos, talentosos e medíocres: reduzir a catorze versos um conjunto de sentimentos por certo ávidos de se espraiarem por outras estrofes. Nessa redução é que se revela a maestria ou a bisonhice do poeta; no primeiro caso a limitação material casa bem com a contensão e profundidade do pensamento poético; no segundo a limitação sufoca ou mesmo acaba sendo excessiva para o curto vôo da imaginação e da sensibilidade, e o poeta emprega palavras excrescentes para preencher os vazios de sua frágil intuição" (Moisés 1973 p.96-97).

Apesar de ter passado por transformações, o soneto manteve a estrutura básica. As variações mais freqüentes são as do esquema das rimas (porque mais fáceis). O metro varia e ao decassílabo tradicional, outros tipos de metro foram acrescentados, a partir do monossilábico. Também se empregam alternadamente versos de medidas diferentes. No modernismo surgiram os versos brancos. Outro recurso já utilizado foi o da mudança das estrofes, isto é, dois tercetos seguidos de duas quadras, bem como o recurso do estrambote, ou cauda (mais um terceto) (Moisés 1973 p.98).

A maior transformação, porém foi a que ocorreu na Inglaterra (por Shakespeare e Milton). (...) É composto de três quadras, cada uma com disposição alternada e rimas diversas de quadra para quadra. Depois destas, vem uma parelha com as suas rimas próprias. (...) Não é soneto, rigorosamente. Também adquiriu outros conteúdos além do lírico (Moisés 1973 p.98).

Massaud Moisés (1975), com este soneto bastante conhecido de Camões, exemplifica a construção que contém apenas o essencial:


“Sete anos de pastor Jacó servia


Labão, pai de Raquel, serrana bela;


Mas não servia ao pai, servia a ela,


E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,


Passava, contentando-se com vê-la;


Porém o pai usando de cautela,


Em lugar de Raquel, lha dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos


Lhe fora assim negada a sua pastora,


Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,


Dizendo: mais servira, se não fora


Para tão longo amor tão curta a vida!”

(Camões, Soneto 29 – Obras).

O mesmo soneto também exemplifica a opinião de Auguste Dorchain (por ele citado): “Por sua progressão e marcha para o desfecho, tem o soneto qualquer coisa de uma obra dramática, de que os dois quartetos seriam  a exposição, o primeiro terceto o núcleo e o último o remate.”.

Nos dois primeiros quartetos, trata-se de fazer nascer e crescer a expectativa; no primeiro terceto, da ligar a expectativa à marcha para a solução, que se sente aproximar; no último terceto, de dar à expectativa um desfecho que ao mesmo tempo dê prazer ao espírito e lhe proporcione satisfação pela lógica, e surpresa pelo imprevisto.

Moisés (1973) nos mostra a forma específica e sistemática da questão, dizendo "que as combinações de rimas (diferentes para quartetos e tercetos) correspondem exatamente a esses dois estados de espírito: a atitude estática (expectativa mantida pela repetição na mesma ordem das rimas do primeiro quarteto no segundo) e a atitude móvel (marcha para o desfecho), que se realizará tanto melhor nos tercetos que, não oferecendo a mesma disposição de rimas, as traz encadeadas, sem assemelhar-se, e darão ao último verso do segundo terceto a vantagem de ser menos esperado do que se ocupasse, na combinação de rimas, o mesmo lugar do terceiro verso do primeiro terceto."

“Em síntese, a beleza formal do soneto reside nesse equilíbrio compensador entre o estado de expectativa, determinado pelo paralelismo das rimas dos quartetos, e a atitude de marcha para o desfecho, acelerado pela diversidade da disposição das rimas dos dois tercetos” (Moisés 1973 p.97-98-99).

 

COROA DE SONETOS

 

1-Quando se alinham quinze sonetos em que a partir do segundo, cada um tem como verso inicial o último verso do soneto anterior, é o décimo quinto se compõe dos versos repetidos, os quais devem formar um sentido. Os italianos denominam de Soneto Magistrale o primeiro de uma “coroa de sonetos” (Nunes 31/01 /06).

2-Uma coroa de sonetos é composta por 14 sonetos.


Cada soneto começa com o último verso do soneto anterior.


O décimo quarto soneto termina com o mesmo verso que deu início à coroa (primeiro verso do primeiro soneto).


Isto é, a coroa dá a volta e acaba como começou (Sustelo 28/04//05).

Queria uma visão mais ampla. Comecei a procurar por “Sonnet Redoublé”. Encontrei (não que seja o único existente!) este pequeno verbete....

Sonnet redoublé: fifteen sonnets, of which the last consists of all the repeated lines linking the other fourteen sonnets, in the same order in which they have appeared (Lancashire.1999-2002).

Finalmente, encontrei um texto que avançava além do que eu já conhecia :

Luce Péclard / Livre d'heures
Préface de Pierre-Marie Pouget (Dr en théologie, Dr ès lettres)
Couronne de sonnets, (3ème edition).


Sonnet Maître

L'automne est revenu. De vêpres à complies        
Déjà brille une lampe au carreau noir de jais.       
Protectrice, la nuit m'enclave sous son dais,           
Recluse émerveillée aux oeuvres accomplies.     

A tierce, sexte et none, écoutant l'homélie              
Dictée à mon coeur fol enfin sacré profès,                
J'ai fait voeu de louange et de divin succès                
Dans un élan d'amour qui me réconcilie.                  

Les Heures, désormais perles de chapelet,                
S'égrènent dans mes mains jusqu'au prime reflet     
De l'aube qui les mue en vertes émeraudes.               

La parure étincelle aux feux du petit-jour                  
Et le psaume qui sourd, de matines à laudes,             
Coule de source en fleuve et sans aucun détour.       

Livre d'heures, Editions du Madrier, 2001


O que encontrei era a crítica ao livro acima citado, mas continha informações relevantes para o meu objetivo.

Minha Leitura:

“A Coroa de Sonetos é uma forma antiga, criada pelo poeta inglês John Donne (1572-1631), autor de “Sonetos Sagrados” (Holy Sonnets), na época de Shakespeare. É uma forma pouco exercitada porque é muito difícil atingir, a contento, todos os seus requisitos. O prefaciador do “Livre d’Heures”, Pierre-Marie Pouget, a define assim: “O último verso do primeiro soneto reaparece como o primeiro verso do soneto seguinte, e continua dessa forma até que o anel se feche, no último verso do décimo quarto soneto, idêntico ao primeiro verso do primeiro soneto." Então, o Soneto Magistral, o décimo quinto, compõe-se do primeiro verso de cada um dos catorze sonetos da ‘coroa’.”

Que se compreenda: A Coroa de Sonetos é um círculo do qual o Soneto Magistral é o centro... Ela simboliza a unidade e a universalidade, conduzidas à perfeição da forma.

Mas há mais: a chegada encontra a saída , abrindo-se a uma segunda leitura mais profunda, um novo círculo, levando a uma nova leitura inspirada, num movimento de espiral ascendente com o correspondente número de graus do ser, levando ao Ser divino.

Segundo Nabokov, “a espiral é um círculo espiritualizado”. E esse círculo voltado, desenrolado, tornado livre, acaba sobre o Céu do Sol onde brilham as “coroas dos bem-aventurados” da Divina Comédia de Dante. Assim, abrindo-se ao infinito, a Coroa nos eleva do terrestre ao celeste, do plano visível ao mundo invisível chamado a manifestar-se em nossas vidas.”

O trecho seguinte, embora faça referência ao texto do livro, serve, em minha opinião, para todas as coroas que atingiram seu propósito:

“Nesta Coroa de Sonetos, enfatiza ainda J.A. Koutchoumow, as delicadas repatições – pétalas – dão uma impressão de plenitude, do tempo arrancando-se a si mesmo, para florescer na eternidade.”

E a repetição, segundo Borges (Jorge Luís) é aquilo que nos fornece a imagem mais próxima da eternidade. Tempo tomado, que se desenrola, desdobra em certeza e fé, eternidade das horas sempre novas e sempre as mesmas"

A palavra coroa, permite, por seu significado, curiosas analogias:

Coroa:(ô).[Do gr. koróne, pelo lat. corona.] S.f. 1. Ornato circular com que se cinge a cabeça como sinal de dignidade, vitória, poder, etc. (tanto pode ser uma grinalda de flores como uma jóia de ouro e pedras preciosas); ...7. Cume, cimo, alto;...10. a face superior de um diamante; ...13. Rel. Rosário com sete padre-nossos e sete dezenas de ave-marias;

É em função dessas ligações semânticas, que  prefiro definir a composição desta forma, (abaixo) e explico que se trata apenas de uma questão de definir, e não de uma questão formal, mas cuja escolha é fundamental para a minha visão dessa composição.

O décimo quinto soneto, a “coroa”, é formado pelo último verso do décimo quarto soneto e pelos últimos versos dos catorze sonetos anteriores, a partir do primeiro. Mesmo esse último soneto, embora sendo formado pelos versos dos anteriores, portanto com forte referência semântica a eles, não deixa de respeitar as características de um soneto. Também é uma história independente, com começo, meio e fim. A “Coroa” é formada pelos fechos de ouro de cada um dos poemas. Ela é “uma jóia (formada de ouro) que cinge o conjunto em seu cimo, como sinal de vitória do esforço criativo que sintetiza as idéias anteriores numa idéia que, contudo, não deixa de ser nova.”.

Se aprender a dinâmica dos sonetos é para mim uma forma de exercício espiritual (entenda-se de humildade), aprender sobre a Coroa de Sonetos torna-se o aprendizado de uma mensagem mais elevada ainda: o fim remete ao começo, o círculo fecha-se sobre si mesmo. Há muitas implicações contidas nessa metáfora.

Entrevistas


No seu livro relacionado para o vestibular de 2002 da Universidade do Amazonas, “Tiara do Verde Amor”, a característica principal é a ecologia. Em todas as suas obras a ecologia é enfatizada? Por quê?

MC: Bom, vamos dizer que o tema recorrente na minha obra seja a questão ecológica, mas a espiritualidade também está presente. Então, temos mais próximo à temática ambiental os livros “O Sermão da Selva”, “Nosso Senhor das Águas” e “Tiara do Verde Amor”, como que fazendo uma trilogia, em que assumo posições necessariamente radicais em defesa da problemática ecológica. Sobre esse radicalismo já apontado, eu quero ressaltar: às vezes temos que ser radicais para que não se fortaleçam as posições contrárias. Não que o escritor não tenha exata noção de que existem excessos na sua própria obra. Mas como se trata de obra pioneira (foi apontado, por exemplo, que “O Sermão da Selva”, de minha autoria, e as telas de Moacir Andrade são obras pioneiras na literatura), nós tivemos que ser bastante eloqüentes porque, naquele tempo, nós não tínhamos ainda uma consciência ecológica.

Neste mesmo livro, há três partes, ditas coroas. Porém você foge ao estilo comum e ultrapassa o número de 15 sonetos em duas coroas. Como é trabalhar com esse estilo literário?

MC: A coroa de sonetos é chamada forma preciosa do soneto. Quer dizer, constitui uma filigrana da arte poética. Poucos poetas a exercitaram na literatura universal, mas aqui no Brasil tivemos alguns. A contribuição do poeta amazonense nesse sentido foi ter criado o que por muitos pode até nem ser considerado uma coroa porque extrapola os 15 sonetos da coroa clássica. Ora, se nós não temos na coroa de 18 sonetos e na de 21 o décimo quinto soneto, que caracteriza a coroa, a rigor reconheço que não teríamos uma coroa de sonetos. No entanto, como o primeiro verso do conjunto é o último e entre eles há um fio temático, eu me aventurei a criar, como contribuição à literatura, essa coroa de 18 e 21 sonetos a qual intitulei de "coroas perdulárias", porque ultrapassam essas possibilidades. Isso está explicado em “Tiara do Verde Amor”. Tenta ser uma contribuição do poeta amazonense à arte poética 

(Carpenthier 23 / 07/ 05).

Há algum tempo fiz uma entrevista com  Paulo Camelo, no tópico sobre sonetos

do Recanto das Letras:

Paulo Camelo, no site Sonetos.com.br., li o seguinte a seu respeito:
(...) inicialmente intimista, evolui na técnica e avançou em outros temas, firmando-se nos poemas metrificados...
Gostaria, então, de fazer algumas perguntas, agradecendo desde já se puder respondê-las.

Nessa fase anterior, você pontuava seus poemas?



PC : A gramática não é inimiga da poesia. Uma gramática bem aplicada mostra tudo o que o poeta quer apresentar. E a pontuação é importantíssima nesse mister.

Quando você olha para um poema, ainda antes de lê-lo, os sinais gráficos chamam sua atenção, de alguma forma?



PC: .Não. Mas quando inicio a leitura, eles têm que estar bem colocados, cumprindo sua função. Muitas vezes eu parei uma leitura no meio, apenas por discordar disso.

Na sua opinião, um poema "muito pontuado" (não falo de erros), indica falhas na composição?



PC: Se a pontuação for necessária, não será nunca em demasia.

Você segue a pontuação integral e corretamente. Então você nunca se depara com uma situação em que tenha de escolher entre vigor(impulso/inspiração) e norma?



PC: Já o disse acima. A pontuação explicita o sentimento. Nunca será óbice para uma inspiração. Muito menos para a expressão de uma idéia.

A pontuação interfere no ritmo? Em caso afirmativo, como usar a pontuação a favor do ritmo?

 

PC: Sim. Uma pontuação errada desvirtua a leitura, desvirtuando, conseqüentemente, o ritmo. E sem ritmo o poema perde muito de sua expressão. A pontuação correta faz com que o leitor, instintivamente, dê as pausas necessárias para frisar o ritmo e, até, para respirar e continuar a ler / declamar.

(Camelo  03/08/07)

Posteriormente às respostas, fiz este resumo:

Para classificar, com alguma segurança, determinados poemas como sonetos, tenho necessidade de:

a) conhecer bem a teoria a respeito do metro, da rima (não apenas em relação às combinações, mas também aos tipos), do ritmo, da pausa, da correta aplicação dos sinais de notação (pausais e melódicos, segundo Celso Cunha) da versificação, incluindo os tipos de versos.

b) treinar , isto é, escrever os versos atenta a essas noções, com o intuito de aprimorar a forma de escrever, melhorar a técnica ( se necessário, riscar o papel, marcar sílaba por sílaba, escrever a sílaba forte com caneta de cor e nem sempre seguir o "impulso" - às vezes começar pela última frase, as três últimas estrofes, a primeira frase... o que limita as escolhas de ritmo ou rima). Usar recursos para contrastar e facilitar o entendimento e a visualização.

c) escolher um título ajustado ao poema (na maioria dos casos devemos fazê-lo, e de forma apropriada).

d) compor uma unidade que tem começo, meio e fim, portanto, fechada em si mesma, uma das peculiaridades do soneto.

e) e uma coisa sobre a qual ainda não falamos (não que tudo se esgote aqui): concluir a poesia (nesse caso o poema expressaria a poesia, se eu tivesse o talento necessário) com um "fecho de ouro", ligado ao que o poema apresentou na primeira frase.

Hoje, acrescento:

f) entender e ter em mente da questão formal, principalmente a destacada em negrito (sem perder a ligação com a imaginação/intuição e a sensibilidade): a questão da importância da escolha do esquema rímico, que hoje variamos bastante, tendo em vista que ela tem importância fundamental para a bem sucedida “realização” da composição; a importância do uso de palavras/vocábulos absolutamente essenciais ao texto e nada mais.

Nova questão!

Recebi de Carlos Alberto Fiore, por e-mail, a seguinte proposta:

“Na tentativa de descobrir a forma que o Marcos Loures utilizou para fazer aquela coroa extensa, imaginei que ele utilizou todos os versos dos sonetos.
Por exemplo, na primeira coroa ele iniciou o soneto seguinte com o último verso do anterior. Já na segunda coroa, ele iniciou o soneto seguinte com o segundo verso, no terceiro iniciou com o terceiro verso e assim até o final, totalizando 196 sonetos.
Se ao final de cada série de 14 sonetos ele contou uma coroa, o total de sonetos, após a conclusão do trabalho, chegou a 210 sonetos.
 
14 X 14 = 196   ou   14 X 15 = 210
 
Partindo deste cálculo, é possível nosso grupo organizar uma coroa como a do Marcos Loures.

 

Fiore é bom matemático,mas teve também uma antevisão.”

Por outro lado, eu ainda buscava informações adicionais, mas não chegava a nenhum resultado.

Cansei de digitar “sonnet redoublé” e percorrer páginas. Nada de interessante (novo), aparecia. Então, não sei que voz  atávica me soprou:  “couronné”.

Delirei, literalmente, porque esta minha mente ávida, que não se contenta com questões mal resolvidas, com perguntas sem resposta e me faz sofrer por isso, viu a luz.

Encontrei um texto que vou citar (e digo que vale a pena ler na íntegra, para quem se interesse pelo assunto). Vou relatar apenas uma parte dele.


O círculo se fecha ou se abre!

O autor é Bernardo Schiavetta. Há outros textos dele no google.

Em seu texto alucinante, ele discorre sobre um plano de escrever o Livro dos Livros. Não vou antecipar nada, para que a surpresa não se perca.

               Leitura do trecho escolhido:

“Não, eu nunca sonhei em escrever o LIVRO.

Porém eu comecei a escrevê-lo à revelia, ainda que essa ignorância não tenha durado muito.

Logo eu compreendi tudo.

“Eu me encontrava, nesse momento”...  (e ele conta que é psiquiatra e estava num hospital do centro da França, num período plantões  pouco movimentados; então, dedicava-se a escrever um livro de sonetos).

O livro deveria ter sonetos de todos os tipos, entre eles uma Coroa de Sonetos.

Essa é uma forma fixa italiana, ele relata, que conheci graças ao Dicionário de Retórica de Morier, que apresenta uma definição de Crescimbeni, do fim do século XVII, mas  a forma é, sem dúvida, mais antiga.

As Coroas italianas têm quinze sonetos: Um Soneto-Mestre (Soneto Magistral ou Soneto Coroado), precedido ou seguido de uma série de catorze sonetos encadeados em círculo.

Por um lado, cada soneto da série circular começa pela repetição do último verso do soneto precedente, até o décimo quarto soneto, do qual o último verso é idêntico ao primeiro verso do primeiro soneto do ciclo. Dessa maneira, o círculo, quer dizer, a Coroa, fecha-se sobre si e a fechadura fica selada (se referme et la boucle est bouclée).

Soneto n° 01: Axxx xxxx xxx xxB
Soneto n° 02: Bxxx xxxx xxx xxC
Soneto n° 03: Cxxx xxxx xxx xxD
Soneto n° 04: Dxxx xxxx xxx xxE
Soneto n° 05: Exxx xxxx xxx xxF
Soneto n° 06: Fxxx xxxx xxx xxG
Soneto n° 07: Gxxx xxxx xxx xxH
Soneto n° 08: Hxxx xxxx xxx xxI
Soneto n° 09: Ixxx xxxx xxx xxJ
Soneto n° 10: Jxxx xxxx xxx xxK
Soneto n° 11: Kxxx xxxx xxx xxL
Soneto n° 12: Lxxx xxxx xxx xxM
Soneto n° 13: Mxxx xxxx xxx xxN
Soneto n° 14: Nxxx xxxx xxx xxA

Dito de outra forma, o Soneto-Mestre, retoma, na ordem, os catorze versos que se repetem nos catorze sonetos da série circular. Dessa maneira, o primeiro verso do Soneto Mestre corresponde ao primeiro verso do primeiro soneto, seu segundo verso, ao primeiro verso do segundo soneto, etc.

Soneto-Mestre : ABCD EFG IJK LMN

De fato, escreve-se primeiro o Soneto-Mestre e se compõe em seguida a série circular dos outros catorze sonetos, por meio de uma glosa encadeada e circular.

Refletindo sobre a Coroa, enquanto forma ainda sem palavras, enquanto forma abstrata, eu entrevi que o Soneto-Mestre deixava transparecer, em filigrana, os catorze textos futuros, da mesma maneira que um pergaminho já usado deixa entrever antigos textos nas entrelinhas.

Isso me permitiu compreender que a dinâmica assim envolvida seria ilimitada, porque, se o Soneto-Mestre contém os outros catorze em potencial, um desses catorze pode por sua vez, tornar-se um segundo Soneto-Mestre, que pode engendrar uma segunda Coroa, da qual um dos sonetos poderia tornar-se um terceiro Soneto-Mestre  e assim por diante, ad infinitum.

Essa idéia de coroa infinita corresponde ao que eu chamaria com freqüência de hiper-sonetos (retomando e modificando um termo já utilizado por Zanzotto)”(Schiavetta.30/05/08).

Conclusão

Na natureza existe o gasto e existe a economia. E mesmo na natureza, prefere-se o máximo de rendimento com o mínimo de gasto, isto é economia.
Se é difícil adaptar o conteúdo (a idéia que o inspirou e que ele desenvolve no poema) que o poeta tem no limite proporcionado pelo soneto, é porque o soneto é para poucos. Ele é maravilhoso justamente porque consegue o máximo de informação com o mínimo de gasto, através do domínio máximo da técnica, redundando num mínimo de esforço.

O meu conhecimento da teoria é muito pequeno; idem para o domínio da técnica, mas posso dizer que conhecer "história da literatura" e "teoria da literatura" não faz de ninguém um escritor de sonetos. Nem mesmo a capacidade de se sair bem na análise literária faz de alguém um escritor de sonetos. Muitos que aqui no recanto publicam seus sonetos e têm grande capacidade, colocam-se com modéstia, em relação ao que apresentam, porque têm profundo entendimento de todas essas questões.

Tendências mudam. Na história, há períodos em que se procura romper padrões e outros em que se procura restabelecê-los.

Estudar e escrever poemas que aspirem aproximar-se do soneto é, para mim, uma forma de exercício espiritual. Explico: exercício espiritual é aquele que se faz buscando ir um pouco além de nossas limitações, aspirando  tornar-se um pouco melhor. Desafios são saudáveis. Corre-se um risco. É mergulho no escuro. Não sabemos o que acontecerá, se não tentarmos. Hoje, ouso classificar poemas que escrevo como sonetos, mas sei que não são sonetos, rigorosamente falando. Quem sabe um dia, dentre tantos poemas que escrevi, sobre algum soneto verdadeiro. Terá valido a pena, mas o importante, não é aonde você chega, e sim o que aprende durante o caminho.

Conheço pouco o assunto, mas sempre achei as formas fractais fascinantes. As proporções geométricas, a Razão Pi, as “Séries Fibonacci” (uma estrutura bastante presente na natureza): a samambaia, a couve-flor, o brócolis, o nautilus (caramujo) e outros crustáceos com suas conchas são as de que me lembro agora. A Razão Pi , também é apresentada como aplicável aos seres humanos, conforme demonstra o famoso desenho de Leonardo da Vinci. A maior parte da arte fractal é criada eletronicamente.

Então, ocorreu-me que nós poetas, temos na Coroa de Sonetos a Matriz de uma fractal.

Eu paro por aqui..

O restante para mim é loucura, mas pode haver quem se interesse...

 

Glossário:

Epígrafe: Modernamente, fragmentos de textos que servem de lema para uma obra, capítulo ou poema. Utilizada a partir do séc. XVII, até hoje continua em uso, (muitas vezes, não para indicar a fonte de inspiração, mas sim o nível de conhecimento numa forma de auto valorização) (Moisés 1974).

Epigrama: No geral uma quadra dividida em duas secções (nó e desenlace). Os versos têm a medida igual ou diferente, com pensamento engenhoso e conclusão mordaz (Moisés 1974)

Glosa: Vilancete (ou Vilhancete) espanhol, villancete, vilano, vilão, habitante da vila: cantiga de vilão ou cantiga vilã. Vilancico: idem. Vilerai: forma idêntica (na França). Essa denominação refere-se a essas formas poéticas que consistem de uma estrofe inicial de dois a quatro versos (chamada de refrão ou estribilho), acompanhada de uma seqüência de estrofes (glosas ou voltas) que desenvolvem a idéia poética contida no refrão; cada volta compõe-se de três versos ou mais rimando entre si (mudanzas), um verso rimando com o estribilho (a volta) e a repetição do estribilho: AA, bbaAA, ccaAA, etc. Em geral é composta em redondilha maior. Sua estrutura, sendo idêntica à do “vilerai” e formalmente próxima a outras composições medievais espanholas (o estribote, a cantiga) provençais (a danza) e italianas (as laudes, as frottole e os madrigais), permite supor que essas formas poéticas têm uma origem comum ainda desconhecida (árabe e/ou litúrgica?) (Moisés 1974).

Glosa: “Forma de origem espanhola, a glosa teve aceitação nas Américas Central e do Sul.Consiste de duas partes, o refrão com variação do número de versos (geralmente quatro), freqüentemente escrito (dado) por um desafiante, e as voltas, feitas do número de estrofes equivalente ao número de versos do  refrão. Cada estrofe é construída como em poema normal, mas deve terminar com o verso correspondente do refrão: a primeira estrofe termina com o primeiro verso do refrão; a segunda estrofe, com o segundo verso, valendo o mesmo esquema para as quatro. Não há uma regra geral em relação à construção das estrofes a não ser a de que devem estar em ‘coblas continuadas’.”(Trobar).

 

Glosa: “Significa explicação em espanhol, então essa forma consiste praticamente no desenvolvimento do conceito contido no refrão." (Trobar).

Uma outra variação da glosa atualmente, uma exata viravolta  (ou volta por cima), é o “sonnet redoublé”, uma seqüência na qual os versos iniciais dos catorze sonetos são combinados,  escritos na ordem em que se sucedem, para formar um décimo quinto, como era popular no período Elizabetano.”(Trobar).

Discurso referencial : Há várias abordagens sobre discurso referencial. Encontra-se comumente menção ao discurso denotativo, ao uso da palavra no sentido literal, principalmente nos textos técnicos das diferentes áreas do saber e nos meios de comunicação.

Segundo Todorov, a construção da leitura só ocorre a partir de sentenças referenciais. O leitor associa as referências do texto com suas próprias referências. A sentença referencial é particular, específica e denotativa e relacionada a um contexto específico. O fato observável indica Todorov é referencial. Uma sentença é referencial ou não-referencial. Um texto ficcional, segundo ele, é formado pelos dois tipos de frases, mas nós não retemos as não referenciais na leitura que ele chama de leitura como construção. As frases propiciarão diferentes tipos de construção, dependendo do grau de generalização ou da afetividade dos eventos que
evocam” (Hoffman Fernandes / Netto Cid /Gomes Ribeiro).



Referências bibliográficas

DE HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque. Novo dicionário Aurélio da Língua
          Portuguesa.2ª ed.  Rio de Janeiro:  Ed. Nova Fronteira. 1986.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo. Cultrix.
      1974.

MOISÉS, Massaud. A Criação Literária. 5ª ed. São Paulo.
      1973.

Meus agradecimentos a Ricardo Sérgio Nunes pela orientação sobre as normas técnicas.

Campinas 16/07/08

Nilza Aparecida Hoehne Rigo: Le Sonnet Fractal

 

Nilza Azzi
Enviado por Nilza Azzi em 15/06/2008
Reeditado em 17/06/2008
Código do texto: T1036065

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Nilza Azzi
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