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O CABARÉ MINEIRO de Carlos Drummond de Andrade

O CABARÉ MINEIRO de Carlos Drummond de Andrade
                  Prof. Dr. Jayro Luna (Jairo Nogueira Luna)
O poema “Cabaré Mineiro” de Carlos Drummond de Andrade consta de Alguma Poesia, de 1930. Composto de uma décima, com versos variando de métrica entre 10 e 12 sílabas - o que na visão do estrato óptico, sugere uma simetria. Com poucas rimas consoantes (direita/satisfeita; despindo/seguindo) o poema apresenta, porém, no caso das últimas palavras do verso, uma sonoridade de rimas toantes marcadas pela tônica com a vogal “i”: mestiça/despindo/mosquito/seguindo; seqüência de palavras que se harmonizam com as poucas rimas do poema, criando uma monotonia sonora quebrada em quatro versos, o primeiro que termina com o nome da cidade de Montes Claros; o quinto verso, que termina com “dente de ouro”; o sétimo, com “amarelas!” e o último, com “tetas”.
Leiamos o poema:

CABARÉ MINEIRO

A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas têtas....
(DRUMMOND, Carlos. Alguma Poesia.)

 
No caso das palavras finais dos versos 1, 5, 7 e 10, temos uma relação semântica entre elas baseada no campo semântico das cores. Os montes são claros, os dentes da dançarina são de ouro, e suas nádegas rebolantes são amarelas. Temos uma dominação do amarelo, do dourado, numa relação contígua com a claridade, afinal, dourado é a cor do sol. Nesse caso, é significativo observar a recorrência aos “cem olhos” no poema: (verso 3), os cem olhos são morenos e vão despindo o corpo da dançarina, depois, os “cem olhos” são brasileiros e vão seguindo o ritmo das têtas da dançarina. Se notarmos que a dançarina é gorda, adjetivação citada duas vezes no poema “seu corpo gordo picado de mosquito”, (v.4); “mas é linda, linda, gorda e satisfeita”, (v.7), podemos fazer uma intersecção entre o campo semântico das cores com o da gordura, uma vez que as nádegas são amarelas, e, por conseguinte a gordura desta dançarina é dominada pela cor amarela. Daí que suas tetas também devem ser amareladas, de modo que as palavras finais dos versos 1,5, 7 e 10 acabam por inserirem-se no mesmo campo semântico.
O poema inicia-se com a definição da dançarina, ela é espanhola e de Montes Claros. Os dois adjetivos formam um conjunto que permite duas leituras: pode ser uma dançarina natural da Espanha e que morava ou trabalhava em Montes Claros. Numa outra interpretação, pode ser a dançarina a imitar as dançarinas espanholas, sendo essa, porém natural de Montes Claros. Ainda, se contrapormos esse verso primeiro com o último, dando nessa contraposição um sentido satírico, podemos entender que os montes claros são as duas tetas de “balanço doce e mole”.
No verso 2, o poeta insere a dançarina num espaço: “a sala mestiça”. A sala é qualificada assim, possivelmente, pela presença dos “cem olhos morenos” que vêm a seguir no verso 3.
Após a inserção da dançarina no espaço da sala, o poeta passa a nos apresentar uma descrição mais pormenorizada do corpo dessa mulher. Seu corpo é gordo, e tem várias marcas de picada de mosquito. Ao mesmo tempo em que rebaixa as qualidades estéticas da dançarina, por outro lado, apresenta um aspecto natural da tropicalidade: a presença de mosquitos, notadamente durante a noite. Assim “a dançarina espanhola de Montes Claros” tem defeitos, mas no caso, as picadas são marcas devidas ao ambiente em que exercita sua arte, num cabaré de uma cidade interiorana.
A dançarina tem “um sinal de bala na coxa direita”, sinal que remete-nos a um passado de intensidade trágica. As pernas da dançarina são seu elemento essencial à prática de sua arte. Ela não foi ferida no rosto, ou nas costas, o poeta destaca sim que a marca de bala é na coxa, que durante a dança é a parte do corpo que mais é focalizada.
Ali, visível, a presença da marca que denuncia um passado conflituoso.
No verso seguinte, Drummond faz um deslocamento da imagem da coxa direita marcada de bala para o rosto da dançarina. O sinal trágico da coxa faz com que o poeta remeta nosso olhar para seu rosto, na busca de algum elemento expressivo que possa compor uma imagem mais completa sobre a vida dessa mulher. E no rosto um “riso postiço de um dente de ouro”. Notemos a ambigüidade do adjetivo “postiço”. Tanto se refere ao dente implantado, quanto à falsidade desse sorriso, desnudada pela marca de bala que há pouco era focalizada.
A dançarina, porém, ficamos sabendo no verso seguinte é “linda, linda”. A repetição do adjetivo antecedendo aos outros dois do verso (gorda e satisfeita), faz com que essa beleza seja relativizada em função de alguns elementos. Um deles é a avidez com que os cem olhos morenos da sala mestiça desnudavam o corpo da dançarina do cabaré, na busca das fantasias sexuais que transformariam um corpo feio de dançarina gorda num belo corpo. Ao qualificá-la como satisfeita, podemos entender que tanto a dançarina pode estar satisfeita, pois afinal sobrevivera ao tiro que lhe marcara a perna, continuava viva e por isso podia dar-se por satisfeita; por outro lado, satisfeita, por continuar sendo o foco de atenções de uma multidão de olhares que a desejavam.
No “Cabaré Mineiro” de Drummond, a grande atração é a dançarina, que apesar de ser gorda, pele marcada de picadas de mosquitos e um ferimento de bala na coxa é vista por todos como linda. Assim a visão, sentido que se destaca na percepção da dançarina “cem olhos”, é um sentido falho, uma vez que o que dele se depreende é o que se quer ver e não o que efetivamente é visto. Os homens (brasileiros e morenos) querem encontrar no cabaré a realização de suas fantasias e desejos sexuais e sobre a imagem da dançarina colocam tais elementos, de modo que ao mesmo tempo em que os olhos “estão despindo seu corpo gordo”, estão também cobrindo-a com a visão de beleza que buscam.
A dançarina espanhola de Montes Claros faz a caricatura da dança de Salomé. Dança esteticamente inversa à da dançarina bíblica, mas cuja anti-sensualidade não é desvelada pelos “cem olhos” que a observam. Olhos “cegos”, fazem mais por ver na dançarina do “Cabaré Mineiro” a Salomé que cada um busca para sua satisfação. A comparação com a figura de Salomé  fica mais interessante, e menos desfocalizada, se atentarmos para um interessante aspecto fonético do poema.
 
Utilizando procedimento semelhante ao de Ferdinand de Saussure na análise dos anagramas na poesia grega, em que o poeta utiliza-se dos fonemas de um tema escolhido para compor um substrato fonético significativo no poema .

“Antes de tudo, impregnar-se das sílabas e combinações fônicas de toda espécie que poderiam constituir seu TEMA. Este tema - escolhido por ele mesmo [o poeta] ou fornecido por aquele que pagava sua inscrição - é composto apenas de algumas palavras, quer seja unicamente nomes próprios, quer seja de uma ou duas palavras anexadas à parte inevitável dos nomes próprios.
O poeta deve, então, nesta primeira operação colocar diante de si, tendo em vista seus  versos, o maior número possível de fragmentos fônicos que ele pode tirar do tema; por exemplo, se o tema, ou uma das palavras do tema é Hercolei, ele dispõe fragmentos - lei, ou -co-; ou com um outro corte de palavras, dos fragmentos - ol-, ou er; por outro lado, de rc ou de cl, etc.”
(SAUSSAURE, Ferdinand. “As Palavras sob as Palavras” em: Os Pensadores: Saussure, Jakobson, Hjelmslev, Chomsky. p.9).      

No esquema abaixo buscamos destacar os fonemas que compõem o nome de Salomé que aparecem no poema “Cabaré Mineiro”. A divisão proposta é com base nas sílabas gramaticais do poema.

v.1: -/-/ça/-/-a/ -s/- / -o / l- / -e / Mo- / -e- / -la / -s
v.2: - / ça / - / - / - / ça / - / sa / l- / me- / - / ça.
v.3: Cem / ol / - / m-/ -e / - / - / - / - / - / - .
v.4: se- / -o- /-o /-o-/ -o / - / -a / -o / -e / m- / - / - .
v.5: -em /- / s-/ -al / - / - / la / - / -o / - / - / - / - .
v.6: - / - / so / -os /- /ço /-e /um / -e- / - / - / ou / - .
v.7: mas / é / l- / -a / l- / -a /-o- / -a / sa / - / - / - .
v.8: -o /mo / -e / -o / la / as /-a /- /-as /a /ma /-e / las!
v.9: Cem / ol / - / -a / - / le- / - / - / - / se / - / - .
v.10: - /-a /la- /ço/-/ce /-/mo / le / - / s- / as / - / -...

No primeiro verso, observamos que a expressão “de Montes Claros” contém um anagrama perfeito de “Salomé”, em que o nome da dançarina aparece invertido, da esquerda para a direita: “de Montes Claros”/ SorALc setnOM Ed. Nos versos 2, 5 e 9 temos ecos do nome de Salomé nos fonemas destacados.  Nos versos 3, 4,  6 temos ecos mais imperfeitos do nome da dançarina bíblica, já que faltam alguns fonemas nos versos para compor o nome,assim, p.ex., no verso 6 sentimos a falta do “a” e do “l”. No verso oitavo, tal é a profusão desses fonemas, que podemos compor o nome de “Salomé” duas vezes em sentido invertido, como ocorre uma vez no verso primeiro: “cOmo rebola as nádEgas aMarELAS”, com pequenas alterações da ordem dos fonemas. No verso décimo, temos, como no primeiro verso, um anagrama invertido perfeito do nome que procuramos: “docE E MOLe de suAS tetas....”
 
É significativo observar que os anagramas do nome de “Salomé” aparecem de forma invertida ao sentido da leitura, enquanto os ecos seguem o sentido normativo da leitura. É como se os anagramas representassem a figura de “Salomé”, que por sua vez, é a representação da sensualidade e da beleza da qual a dançarina do “Cabaré Mineiro” apenas pode ser a caricatura.  E os ecos do nome de “Salomé” identificam-se com a dançarina, representam-na, pois são imperfeitos, falta-lhes sempre algum fonema para compor o anagrama, como no verso 2, p.ex., “danÇA E rEdAnÇA nA SALA MestiÇA”, verso em que falta a vogal “o” para compor o anagrama, tendo na parte final do verso o “sala_me” para compor uma imagem caricata, jocosa da dançarina espanhola de Montes Claros. Nos versos 5 e 7, podemos compor o nome de “Salomé”, mas existe um grande embaralhamento da ordem dos fonemas, é como tentar montar um quebra-cabeça, como se precisássemos recompor a figura da dançarina idealizada a partir dos cacos da imagem da dançarina real: “tEM um SinAL de bALA na cOxa direita”(v.5); “MAS É LindA, LindA, gOrda e Satisfeita”(v.7).
Não parece elucidativo questionar se Carlos Drummond de Andrade efetivamente planejou essa construção do estrato fonético de seu poema, mas os dados encontrados parecem pertinentes com o tema do poema, permitindo-nos uma interpretação enriquecedora da obra, e sugerindo uma harmoniosa construção entre diferentes estratos, de tal modo que não podemos nos furtar à idéia de ver nesse poema uma realização poética notável. Além do mais, se “cem olhos” estão despindo a dançarina do “Cabaré Mineiro”, nós nos incluímos entre esses olhos de forma metafórica, pois observando “o balanço doce e mole” de suas letras buscamos, como os morenos brasileiros do poema, encontrar a beleza que efetivamente a dançarina gorda de sinal de bala na coxa e marcas de mosquito só pode sugerir com a ajuda traiçoeira de nossos sentidos.
   
Jayro Luna
Enviado por Jayro Luna em 02/03/2006
Reeditado em 02/03/2006
Código do texto: T117721
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Sobre o autor
Jayro Luna
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
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Jayro Luna