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Diferenças entre poesia e prosa

1.0 INTRODUÇÃO AO TEMA

Vai confessa: você realmente sabe a diferença entre um e outro? Ou melhor, sabe o que realmente classifica um e o outro, sem errar?

Muitos erroneamente acreditam que poesia é aquilo que se escreve em verso e prosa é aquilo que não se escreve em verso. Muitos escritores e pseudo-escritores, por conseqüência, acham que qualquer seqüência de versos faz uma poesia. E quais as causas desse erro?

Eu poderia enumerar muitas, mas as principais são o próprio desconhecimento do tema, atrelado a uma preguiça em querer estudar atentamente (sobretudo os novos escritores). A segunda causa é a má-formação de alguns professores que não se interessam em explicitar as diferenças. Ou melhor, não conhecem o assunto e se preocupam mais se o sujeito entende uma gramática do que se ele sabe para que ela serve de fato.

2.0 POESIA

A origem da palavra data do grego “poèsis”, que por sua vez deriva de “poien”.  Significa criar, mas no sentido de imaginar algo. Para os romanos se chamava “oratio vincta”, ou seja, uma linguagem que é sujeita às regras de versificação, se opondo ao “oratio prorsa”.

Essa distinção fica clara para filósofos como Aristóteles, que já se preocupava em diferenciar um do outro. Para ele o poeta não tem o dever de narrar a realidade como ela é, mas sim como algo poderia acontecer nela, de forma verossímil.  Ou seja, para ele, um poeta é aquele que descreve as possibilidades, entrando no plano imaginativo ou mesmo fantástico, sem se preocupar com a realidade descritiva das coisas.

Essa descrição tem a ver, evidentemente, com a poesia épica. Essa é a forma mais alta de criação poética, que é onde o grande escritor atinge o máximo da sua criação. Do outro lado teríamos a lírica, não tão grandiosa, embora muito mais musical. Esses tipos serão brevemente discutidos mais à frente.

Bem, mas o que define, de fato, uma poesia? Na forma mais geral, seria quando o eu passa a ter uma relevância muito grande e ele passa a transformar a sua realidade, de acordo com o seu próprio sentimento. Esse eu passa a tomar a realidade de dentro para fora, ele vai exteriorizar a mesma e deformá-la, a ponto de ele ser a própria realidade. É a partir daí que temos o “eu - lírico” ou ainda, segundo alguns autores, o “eu poemático”.

Em termos de sentido, a poesia tem seu sentido polivalente, isso é, permite mais de uma interpretação possível.  Por ser subjetivo, ele é metafórico, dado a múltiplas interpretações. Ele vai se valer de sinestesias, de polifonias, de ambigüidades, de múltiplos usos e de diversos recursos que ajudem a criar uma atmosfera poética.

Um leitor aguçado lê e percebe que pode interpretar o poema de diversas formas que nem mesmo o escritor imaginou, temos então uma poesia de boa qualidade e um bom escritor. Caso o leitor não depreenda toda a gama de significações temos um dos problemas: ou a poesia é muito ruim ou o leitor é muito ruim. No primeiro caso, a poesia carrega todo o sentido num único caminho e é incapaz de ir além dele. No segundo, o leitor é superficial e não conseguiu captar as nuances que o poema pode transmitir. Via de regra todo bom leitor é bom crítico, sendo capaz de reconhecer imediatamente um poema bom de um medíocre.

Isso, claro, é uma explicação não pormenorizada do que seria poesia.  Para quem tiver interesse em mais detalhes recomendo o livro “A Criação Literária”, de Massaud Moisés, que trata com muito mais profundidade o tema proposto no artigo todo.

Estruturalmente, temos duas formas possíveis de poesia, que são:

1) Descontínua: que é formado por linhas quebradas regularmente ou irregularmente, como no exemplo abaixo, também chamado de poema:

II

Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Pairando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar, mas que suplica.

Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que ante os altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mas cuja sombra nos meus olhos fica...

Mãos de esperança para as almas loucas,
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas...

— Alphonsus de Guimaraens

É claro que nem todo poema PRECISA ser metrificado. Basta a ele ter as qualidades que o tornam poema, que sejam mais que um escrito de sentido único, preciso. Nisso as pessoas associam (e isso com certa razão) que poesia se escreve com versos, fazendo poemas. Mas nem todo poema é poesia. A partir do momento que ele perde as qualidades de poesia ele passa a ser meramente um poema sem poesia, que será discutido na parte da prosa.

2) Contínua: acontece quando forma um enunciado que segue uma linha e continua, de uma margem à outra da folha. Segue um exemplo do Cruz e Souza para que fique mais clara a explanação:

Amar essa Núbia – vê-la entre véus translúcidos e florentes grinaldas, Noiva hesitante, ansiosa, trêmula, tê-la nos braços como num tálamo puro, por entre epitalâmios; sentir-lhe a chama dos beijos, boca contra boca, nervosamente – certo que é, para um sentimento d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar.
Beleza prodigiosa  de olhos como pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do rosto fino; lábios mádidos, tintos a sulferino; dentes de esmalte claro; busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze florentino, a Núbia lembra, esquisita e rara, esse lindo âmbar negro, azeviche da Islândia.
(“Núbia”)

Então, aqui temos a mesma característica essencial da poesia. O poeta não está, de fato, sentindo isso de algum lugar distante. O eu - lírico está confortavelmente em algum lugar, colocando apenas as possibilidades de que isso esteja acontecendo, dentro do seu plano interior. Existem as polifonias, as figuras de linguagem, o sentido polivalente e toda a gama de sentidos que estão expressos nesse texto.

Não existe exatamente um nome para isso, mas convenciona-se chamar de “poema em prosa” ou ainda “prosa poética”. É uma invenção do século XIX, por parte dos simbolistas, na tentativa de modernizar a poesia, fazendo-a transcender seus próprios limites.

2.1 POESIA LÍRICA E ÉPICA

Vou colocar aqui um pequeno resumo do que define uma coisa e outra.

A “poesia lírica” vem de lira, que é um instrumento de corda. Ela se torna lírica pela própria musicalidade e pela facilidade de se dar um tom ritmado, quase cantado. Só que ela se preocupa única a exclusivamente com o eu do escritor. Para ele suas angústias e lamentos são meramente a única coisa que importa. É o tipo mais baixo de poesia, na qual não existe um eu que transcende a si mesmo. É uma poesia que indica imaturidade do próprio escritor, sendo o tipo de poesia que todo o escritor começa. É o falar do eu de forma egocêntrica. Em geral tende também a ser de um só sentido e, com isso, não resiste ao tempo, como diria o grande poeta Guerra Junqueiro. Muitos jovens usam essa forma (em muitos casos totalmente desprovida de qualquer senso estético ou qualidade) para expor ao mundo suas angústias, alegrias, sensações e demais sentimentos. É dessa idéia que vem a falsa idéia de que é preciso “sentir” para se fazer um bom poema. Adiante esse assunto vai ser aprofundado.

A “poesia épica” é quando o eu consegue ir além de si mesmo, atingindo a esfera do “não-eu”. Todo o grande poeta tende para o épico. Fernando Pessoa, Baudelaire, Cruz e Souza, Manuel Bandeira e outros são poetas épicos.  Os seus poemas se tornam universais, não se preocupam tão somente com a atmosfera do “eu egoísta” que se importa consigo mesmo. Nem fica em inquietações juvenis e presos ao sentimentalismo. O verdadeiro poeta é, acima de tudo, racional e entende que a poesia é um esforço racional. Você tem os sentimentos, mas o sentir é uma forma que ele encontrou de expor sua intelectualidade. Um poema lírico sente mais e pensa menos, por isso sua produção tende a ser de menor qualidade. O poeta épico sente menos e pensa mais, com isso conseguindo  uma maior expressão de seu escrito.

Para clarear um pouco o que foi explanado, vão alguns exemplos, começando pela poesia tipicamente lírica:

Adeus, meus sonhos!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

— Álvares de Azevedo

Esse é um poema tipicamente lírico. Tem poesia, mas é carregado na figura do eu, que se preocupa incansavelmente consigo mesmo e ignora o resto do mundo. A tristeza do eu é a única que existe. Isso mostra a imaturidade dele como escritor, associada a sua pouca idade. Não teve tempo de sair dela e amadurecer. Esse tipo de poesia é muito bem quisto dos jovens e dos que se iniciam na arte da escrita poética, uma vez que as inquietudes juvenis que acometem essas pessoas são as mesmas. E muitos nela continuam, uma vez que não importa a ele ir além de si mesmos.

Agora, vamos a um exemplo de poesia épica, sem ter que apelar para Camões, vamos a um Fernando Pessoa:

Tabacaria
 
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
(...)

Apenas por este excerto já é possível entender como o “eu” vai além de si mesmo. Fernando Pessoa acreditava na capacidade do escritor se “despessoalizar” e é por isso que ele admirava autores como Shakespeare. Era o eu que atingia a esfera de outros eus, deixava de ser somente ele e passava a ser todo mundo.
 
Então analisando a estrutura desse pedaço nota-se que ele não se preocupa com as próprias angústias. Tanto que ele começa nulificando a si mesmo para abraçar o coletivo, o universal. O eu transforma a realidade em seu interior e a torna uma realidade possível dentro de si mesmo e atinge outras esferas de abrangência. É uma poesia madura, que abarca além dela mesma.

3.0 PROSA

Após definir poesia, vamos à prosa. Pode parecer uma tarefa fácil, mas nem mesmo os críticos e estudiosos vão chegar sempre num consenso, sobretudo quanto as suas formas. Mas existem certos pontos que precisam ser entendidos para a concepção da prosa e isso não tem muito que negar ou ser diferente.

Vamos começar pelo seu próprio foco. Na poesia, o eu se volta para o exterior, na tentativa de imprimir o seu interior. É uma escrita de dentro para fora. Já na prosa a escrita é de fora para dentro, com o eu tentando interiorizar a realidade. Não nos interessa mais o eu, mas sim a realidade, atingindo então o estado do “não-eu”. Interessa então o mundo, as descrições, as situações, o que acontece, como acontece e quando acontece. Existe uma linha de tempo, mesmo que não explícita.

A prosa acontece num período passado. Possui objetividade, do contrario da poesia. A prosa necessita ter um único sentido, embora possa abarcar outras significações que saem da sua esfera enquanto prosa. Machado de Assis e Edgar Alan Poe são mestres nisso. Sua prosa é objetiva, mas carrega sempre subjetividades que vão além delas mesmas.

A estrutura passa a ser discursiva. É através dela que se consegue o encadeamento das idéias. Há o trabalho com os acontecimentos, que podem ou não ser reais, mas sempre dentro da esfera da verossimilhança. Ele tem de ser lógico dentro de sua própria estrutura. Não pode ser dado a ambigüidades dentro de sua estrutura. Por isso é uma forma que hoje tem uma maior aceitação. As pessoas querem textos objetivos porque o mundo é objetivo, claro. Não tem espaço para o eu e isso é o que coloca a prosa, hoje, em um primeiro plano.

A prosa pode ser apresentada de duas formas.

1) Descontínua, quando usa linhas quebradas para ser representada, usando versos. É aqui que existem os poemas sem poesia, que não passam de prosa mascarada, como no exemplo abaixo, de Alberto de Oliveira:

Vaso Chinês

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Esse soneto apenas é uma descrição de um vaso e do maravilhamento que a pessoa tem em vê-lo. É objetivo, direto. Nós podemos, inclusive, reescrevê-lo assim:  “Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, casualmente, uma vez, de um perfumado contador sobre o mármor luzidio, entre um leque e o começo de um bordado. Fino artista chinês, enamorado, nele pusera o coração doentio em rubras flores de um sutil lavrado, na tinta ardente, de um calor sombrio. Mas, talvez por contraste à desventura, quem o sabe?... de um velho mandarim também lá estava a singular figura. Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a, sentia um não sei quê com aquele chim de olhos cortados à feição de amêndoa.”

Perceba, caro leitor, que não se alterou em nada o sentido. Isso é algo que não se pode fazer com poesia, pois haveria perda de sentido. A escola parnasiana tem, em quase toda sua obra, um alto grau de descritivismo, criando muitos poemas sem poesia.

2) De forma contínua. A forma contínua é aquela que ocupa um lado ao outro da folha, sendo o mais comumente aceito como prosa e o mais comum. Esse é o reino da prosa. Como exemplo, um trecho de um conto do Dalton Trevisan:

“(...)Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.(...)” Extraído do conto “Grávida, porém virgem”

Bem, esse trecho nos remete ao descritivismo citado anteriormente. Trata o tema de forma objetiva, clara e direta. É um texto que se prende em sua própria realidade, sem preocupações e divagações do eu, que é apenas um narrador e torna o leitor um expectador passivo, que não tem a necessidade de “sentir” o que esse eu quer expressar.

4.0 CONCLUSÃO

É importante que as pessoas saibam diferenciar o que é poesia e o que é prosa. Seja na condição de leitor e, por conseguinte, julgador da obra alheia, seja como escritor, para saber exatamente o que está fazendo. As definições de um e de outro são facilmente identificáveis, mas poucos são os que, de fato, conhecem bem ambas as formas. Serve também para quem deseja se aprimorar e sair do puro lirismo, insosso e juvenil.

Recomendo que, quem quiser se aprofundar nesse assunto procure o livro “A Criação Literária”, de Massaud Moisés. Ele aprofunda todos esses temas e, acima de tudo, entra no mérito da crítica literária.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 29/12/2008
Reeditado em 29/12/2008
Código do texto: T1357485

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Sobre o autor
Fabio Melo
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